Théo Mariano
Goiânia – O segundo episódio da série de webinários “Trilhas da Longevidade” foi transmitido nesta quinta-feira (16/7). O tema da conversa foi "Brasil na pandemia: São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste", com discussões sobre políticas públicas voltadas aos idosos nas regiões citadas. A série Trilhas da Longevidade é promovida pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), em parceria com o Centro Internacional de Longevidade (ILC) e a instituição Inteligência Educacional. O evento também conta com apoio da Unibes Cultural.
Mediado pelo professor Alexandre Kalache, diretor do ILC no Brasil, o segundo webinário da série recebeu de início a fala do chefe da representação da OEI no Brasil, Raphael Callou, que agradeceu aos participantes pela presença na conversa e inseriu os assuntos que seriam pauta no episódio. Callou ainda apresentou a atuação da Organização no Brasil.
Raphael Callou / (Foto: Divulgação)
Diretor da Inteligência Educacional, Sandro Resende destacou, em seguida, o choque entre as quatro gerações que habitam em conjunto o mundo contemporâneo. Para ele, existe a “necessidade de inclusão do público mais velho no País". O diretor também relembrou a série de livros 'Trilhas da Longevidade', escrita em parceria com o sociólogo Floriano Pesaro. “Queremos dialogar com cuidadores, pessoas idosas e suas famílias”, explicou sobre as obras, que contaram com produção da Inteligência Educacional.

Sandro Resende / (Foto: A Redação)
Para iniciar a participação dos debatedores, Marilia Louvison, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), traçou perspectivas sobre o avanço do novo coronavírus no território paulista. Para a pesquisadora, “uma pandemia desta ordem precisa de dados mais específicos sobre o avanço do vírus”. “Políticas de antecipação de exames e internações poderiam ter sido medidas adotadas para prevenir a vida de pessoas mais velhas”, acrescentou.
Marilia Louvison / (Foto: Divulgação)
Marilia Louvison, ainda em sua participação, também citou “geronticídio” causado pela governança do país. “Vidas velhas importam”, enfatizou a pesquisadora ao citar “grave crise sanitária” que o Brasil atravessa neste momento de pandemia.
O médico de família, Eberhart Portocarrero-Gross, que atua na Rocinha (RJ), explicou características e dificuldades do enfrentamento à covid-19 no Rio de Janeiro, principalmente em regiões mais vulneráveis economicamente. Para o profissional de saúde, a pandemia “explicitou as desigualdades já existentes no País”.
“Não há coleta organizada de dados da covid-19 em nenhuma das três esferas [federal, estadual e municipal]. As decisões poderiam ser melhor direcionadas se houvesse clareza nos números”, disse Eberhart. “Temos exemplos bons e ruins em países estrangeiros para repensar o enfrentamento ao coronavírus no Brasil”, sugeriu.
O cenário do combate à pandemia no território nordestino foi apresentado pelo diretor do Instituto do Envelhecer da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Kenio Lima. “Estamos vivenciando uma (sic) infodemia e também a desinformação neste momento”, afirmou em sua participação.
Kenio Lima / (Foto: Divulgação)
Segundo Kenio, os governadores nordestinos se uniram para combater a propagação de notícias falsas sobre a doença na região. Ele também pontuou a subnotificação na região e alertou para a confirmação de casos do novo coronavírus em quase todos os municípios do Nordeste. “Existe um completo desentendimento entre os gestores”, disse ao comentar as atuais políticas públicas no território.
Na sequência, o professor da FSP-USP, Alexandre da Silva, tratou das consequências da pandemia para pessoas negras e em estado de vulnerabilidade econômica e social. “Existe uma sobreposição de casos em locais cuja maioria dos moradores é negra”, afirmou.
Alexandre da Silva / (Foto: Reprodução/Internet)
Alexandre ainda enfatizou que o novo coronavírus não sucedeu-se como uma doença "tão democrática assim", pois atinge com mais agressividade a população brasileira negra. “A necropolítica como política de enfrentamento escancara desigualdade, pois morrem mais pessoas de grupos sociais específicos”, explicou.
Marília Berzins, do Observatório do Idoso, abordou durante sua participação a necessidade de se voltar atenção às mulheres nesta pandemia. Segundo ela, estas representam maioria dos profissionais de saúde, principalmente entre técnicos de enfermagem, parte da linha de frente de combate à covid-19. “Reportagens da mídia mostram como a pandemia tem afetado principalmente as mulheres”, citou.
Marília Berzins / (Foto: Reprodução/Internet)
“O cuidado, apesar de ser do ser humano, é tarefa repassada principalmente às mulheres”, continuou. “Precisamos fortalecer nossos mecanismos para proteger este grupo que atua com os tratamentos e proteger, também, os idosos”, reforçou.
Em seguida, a representante da prefeitura de Belo Horizonte, Karla Giacomin, comentou os parâmetros gerais do enfrentamento da pandemia e os cuidados voltados aos idosos, grupo por ela destacado com os "mais afetados e com maior taxa de letalidade entre os pacientes da doença". “Estamos falando de falta de liderança política.”
Karla Giacomin / (Foto: Reprodução/Internet)
Para ela, as políticas de saúde brasileiras se apoiam no ‘familismo’, o que ela considera uma “falha”. “Essa política erra ao acreditar que as relações familiares são suficientes para que filhos cuidem dos pais. Essa política aposta na reciprocidade positiva, quando a prole quer realizar esse cuidado de seus genitores por gratidão, mas esquece da reciprocidade negativa, quando o filho não dá atenção aos pais por não ter recebido o cuidado que considerava devido enquanto mais jovem”, explicou.
Último debatedor a falar, o presidente da Sociedade Brasileira Geriatria Gerontologia (SBGG), Daniel Azevedo, fez um resumo das falas por ele consideradas mais relevantes ao longo do bate-papo com os outros especialistas.
Para ele, existe “total falta de coordenação de políticas públicas” no Brasil, o que resulta num avanço ainda maior do novo coronavírus. Azevedo destacou, ainda, a fala do professor Alexandre da Silva, considerando sua visão sobre o novo coronavírus não ser uma doença democrática como “muito oportuna”.
Por fim, o professor Kalache retomou a palavra para concluir a transmissão. Ele antecipou alguns tópicos do próximo webinário da série Trilhas da Longevidade, marcado para a próxima quinta-feira (23/7), que terá a presença do ex-premiê de Portugal, José Manoel Barroso, e do ex-presidente do Uruguai, José Mujica.
Alexandre Kalache / (Foto: Divulgação)
“De início, foi dito que este painel é intergeracional. Concordo e agradeço a todos aqui por compartilharem informações tão valiosas”, disse Kalache. “Vivemos situação distópica [no enfrentamento ao novo coronavírus] que não deveria ser e precisamos falar sobre”, concluiu.