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Silenciam a voz e o talento ao piano do mestre Jayme Júnior

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12.07.2020 - 14:30:02

Jales Naves
Especial para o AR

Goiânia – Ouvido absoluto – fenômeno auditivo raro, que se caracteriza pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo ser ter um tom de referência – Jayme de Oliveira Júnior partiu de repente e deixou a todos órfãos de sua magia ao piano, do encantamento que deixava quando brindava os amigos com inesquecíveis noitadas musicais. Muito gentil e sempre simpático, ele teve o sonho de se mudar para os Estados Unidos para se dedicar à música, e ali chegou a passar pequenas temporadas para conhecer os barzinhos e locais de espetáculos, mas acabou não encontrando o espaço almejado. Queria viver da música, e já era exímio no violão, na gaita, na escaleta, no acordeon e por aí ia somando os mais diversos instrumentos musicais.

Ele até mesmo desperdiçou a oportunidade de morar em Cancún, ao receber um convite tentador, em dólares, para tocar num grande hotel nessa cidade mexicana – situada na Península de Iucatã, na costa do Mar do Caribe, conhecida por suas praias, seus vários resorts e sua vida noturna. Quando ali esteve com familiares e amigos, em 1986, a irmã dele, Maria Regina, encontrou um piano, solicitou que tocasse e quando se aproximou viu que o instrumento estava fechado; logo chamaram o gerente, que prontamente os atendeu, liberando-o. Por quase duas horas ele tocou as mais belas canções que conhecia, deixando a todos maravilhados com sua improvisada performance. Depois dos muitos aplausos e manifestações entusiasmadas diante de sua bela apresentação, o gerente do hotel lhe fez a proposta irrecusável.


Jayme e família (Foto: divulgação)

Assim foi sua vida, desde criança, quando a mãe, Myrian de Araújo Braga de Oliveira, o colocou para estudar piano, e ele passou por algumas professoras de Araguari, MG, cidade onde nasceu em 8 de setembro de 1956. Ele ia às aulas, mas não era muito de estudar as partituras, e pedia às professoras para tocarem a música da lição, que memorizava com atenção, e a reproduzia em seguida. Tinha essa facilidade de aprender rapidamente, o que só foi notado pela professora Júnia Helena, filha da tia Alaora Naves Vieira, irmã de seu pai, e que lecionou Piano, Prática de Conjunto e Música de Câmara no Conservatório Estadual de Música de Uberlândia e de Araguari, e trabalhou em Uberlândia por mais de 30 anos. Ela identificou esse seu talento e passou a estimulá-lo sem muitas cobranças, como a mãe dele queria, o que favoreceu sua criatividade. Essa habilidade com a música ele levou por onde passou, não se intimidando diante de grandes cantores e plateias, e sobressaia ao ficar diante de um piano, o que o tornou um mestre na arte de tocar, que agora silencia para sempre.

O pai, Jayme de Oliveira, foi bancário em São Paulo nos anos 1950, gostava de música, fez sapateado em teatros paulistas e retornou a Araguari, tendo falecido em Brasília, em julho de 1962.
 
Piano de brinquedo e travessuras
A infância e juventude foram na pacata Araguari, e seu despertar musical foi no pianinho de brinquedo que ganhou de seu pai, que tinha predileção pela gaita, que tocava muito bem e incentivou o filho na arte da música. Antes de se casar, Jayme morou por uma temporada na casa do irmão Joaquim de Oliveira, quando ensinou a cunhada Elisa Chiovato de Oliveira a tocar gaita, fato esse que hoje, já com 90 anos, ainda toca para alegrar seus bisnetos. Simpático e envolvente, Jayme Júnior carregou esse pianinho para onde ia e guardou para si a gaita que foi do pai, que depois também aprendeu a tocar. Jayme morou também com as irmãs no retorno de São Paulo, e participou, na casa de Alaora Naves, de saraus musicais, “reuniões familiares muito gostosas. A gente cantava durante horas”, recorda-se a prima Júnia Helena Vieira.

Logo após a morte de Jayme de Oliveira, o irmão Joaquim, acompanhado do filho mais velho, Ricardo, que era afilhado do tio, fez uma visita à cunhada Myrian, e os dois ficaram impressionados com a apresentação do pequeno sobrinho naquela noite. “Tocou (de ouvido) maravilhosamente bem em um pianinho de brinquedo. Nasceu sabendo tocar piano, pois tinha apenas seis anos de idade naquele momento”, disse Ricardo, que posteriormente se tornou padrinho do primo.

Conterrânea, a empresária Maria José Silva Cunha, dona das lojas Modinha e Arezzo em Goiânia, conheceu a família na década de 1960 e se lembra da insistência da mãe para Jayme Júnior estudar piano e a relutância dele em ir às aulas. “Queria ficar praticando em casa, sozinho, sem ter que ler as partituras”, disse. Eles voltaram a se encontrar na Capital goiana, alguns anos depois.

A morte do pai, quando eram crianças, tornou Jayme Júnior e Maria Regina muito próximos e unidos, inclusive, muitas vezes, dormindo na mesma cama. Ela passou a chamá-lo de Dindão. A mãe, que tinha apenas 26 anos, voltou a estudar, pela manhã, deixando os dois em casa e com isso tornaram essa rotina criativa, com jogos e brincadeiras que inventavam. “Aproveitamos muito juntos. Éramos muito levados, fazíamos muita arte e apanhamos muito juntos. Fomos muito grudados”, disse, para explicar que a mãe, viúva, assumiu o papel de pai e mãe, exigindo muito. “Era brava e rígida, e ao mesmo tempo nos deu uma criação muito boa”, afirmou.

Certa vez Jayme Júnior tirou notas baixas na escola e a mãe o repreendeu, dizendo que iria apanhar para aprender. Ele foi para o quintal, que era grande, fez uma armadura de lata, que colocou no corpo e, por cima, a roupa. A mãe, sem notar diferença, começou a aplicar o corretivo, ouvindo um barulho e ele não chorava; só depois é que descobriu o invenção dele. Noutra vez, mandou buscarem varas para lhes aplicar uma correção; ele pegou a sua vara e a quebrou em algumas partes, que, quando a mãe começou a bater nele, partiu-se, caindo ao chão.

Ele era cheio de cismas, que, para muitos, foram herdadas da avó paterna, Francisca Cândida Naves de Oliveira, nascida no Triângulo Mineiro, na segunda metade do século XIX. Lembrou-se de três historietas que lhe contaram: ela recolhia a roupa limpa que estendia no varal quando ouvia o barulho de avião; e lavava bem as mãos depois de fazer suas doações a pessoas carentes, do alto de sua ‘janela da esmola’. A terceira, foi a tragédia que vitimou dona Francisca: na década de 1920 sua família tinha uma fábrica de fogos de artifício em Araguari; certa manhã, quando a avó estava debaixo de uma parreira de chuchu, produzindo os explosivos e os colocando numa bacia grande, um fruto caiu justamente no meio dessas unidades, que explodiram, matando-a.
 
Visitas a Araguari e caminhonete com piano
Toda vez que chegava em Araguari movimentava a cidade, e era o único que conseguia essa façanha, de reunir todos. Ele preservava as amizades, desde a adolescência. Sempre criativo, uma vez ele arrumou uma caminhonete, colocou o piano na carroceria, chamou a turma e foram fazer serenatas, o que repercutiu por muito tempo, pela criatividade e pelo inusitado nessa pequena cidade.

Todos gostavam dele, que liderava a sua turma, e manteve por toda a vida essas amizades. Conterrâneo, o engenheiro civil Janfredo Nader o conheceu em 1968 e desde então se tornaram amigos inseparáveis. “Além de músico precoce, pois já naquela época, então com 12 anos, tocava todo tipo de instrumento, era um amigo indispensável nas nossas serenatas, por ser também um excelente cantor”, justificou.

Ainda, nessa ocasião, era um ótimo desenhista e também inventor. Certa vez criou uma luz estroboscópica com uma luz negra, um disco de vinil com um furo e um motor velho de algum eletrodoméstico, instalou nas festas que realizavam e era a sensação. “Um dia a festa durou mais que previsto, a luz esquentou, derretendo o disco que pingou quente nas pessoas que dançavam embaixo. Ele sempre lembrava disto com aquela gargalhada que lhe era peculiar”, afirmou Janfredo.
 
Viagem internacional e Goiânia
A primeira viagem internacional aconteceu como parte de um programa de intercâmbio com os Estados Unidos, em 1972, aos 16 anos, quando ficou em Michigan por um ano. Não tinha um mês que não chegava na república dos colegas, que saíram para estudar em Belo Horizonte, cartas e alguma novidade musical que ele descobria e enviava.

Na volta, morou com amigos no Rio de Janeiro, onde concluiu o Científico. Em 1976 ele se mudou para Goiânia, no ano seguinte ingressou na Universidade Católica de Goiás, para cursar Administração de Empresas, e lecionou inglês no Euroamérica, ali ficando por um ano. Em 1978 conseguiu o primeiro emprego com carteira assinada, na Distribuidora Cometa, de materiais para construção, de Leôncio Barbosa da Silveira – que depois se transformou na Comaq, quando conheceu e ficou amigo do filho do empresário, Helder Valin, trabalharam juntos, consolidaram uma amizade e mais tarde voltaram a atuar no mesmo local. Foi gerente da Comag e acompanhou o empresário em outras atividades.

Em 1976, no baile da aleluia, um primo, Luiz Henrique, foi o responsável por apresentá-lo a Margareth, prima de Alexandra, que se casou com Janfredo. Depois, o tio Márcio de Araújo Braga insistiu para levá-lo à casa dos pais dela, para um lanche, dizendo que a mãe fazia comidas muito saborosas, e logo eles começaram a namorar.

Nesse período, 10 anos após a morte do pai, a mãe decidiu se casar, com um viúvo, Clarimundo Rodrigues da Cunha Filho, que também tinha um casal de filhos, quando as filhas se dividiram quanto à cidade em que iriam morar: Maria Regina, filha de Myrian, queria ir para Brasília; e a filha dele, Sandra, pretendia ficar em São Paulo. Como ele tinha fazenda em Britânia, GO, e os custos ficariam muito altos, propôs que todos viessem morar em Goiânia, que já dispunha de bons colégios. Myrian não se adaptou na Capital goiana e tiveram que voltar para Araguari.

Todos os meses Jayme Júnior ia à sua cidade natal e antes ligava avisando quando chegaria, o que era sempre motivo para reunir a turma toda sem hora para acabar a festa. Ele se reunia também com os familiares, em encontros organizados pela mãe, tias e primas.
 
Casamento e a rainha
Em 1982 Jayme Júnior se casou com Margareth Gebrim, sua conterrânea de Araguari, mas que conheceu em Goiânia. Ela começou Pedagogia na Universidade Federal de Goiás, que não concluiu; trabalhou por 25 anos na Telegoiás, na área de Comunicação Social, por oito anos, e depois secretariando a Presidência, por 17 anos, deixando a empresa no PDV; em seguida, trabalhou na Secretaria da Fazenda do Estado, por oito anos, na Goiás Fomento e atualmente se encontra no Tribunal de Contas do Estado (TCE).


 

“Ele sempre me tratou como Rainha. Todo mês ele me levava um ramalhete de flores”, disse Margareth, com a voz embargada. Tiveram uma vida intensa nesses 44 anos. “Os dois tinham um relacionamento muito bacana, com muita cumplicidade. Eles se completavam”, destaca Leandro de Oliveira, que se reencontrou com o primo na década de 1980.

“Depois de muitos anos, ele já namorando a Marga e morando na Capital goiana, começamos a nos encontrar. Trabalhamos juntos, pois ele gerenciou nossa unidade da Vitral em Goiânia. Tivemos, desde então, um relacionamento fraterno muito intenso. Agora, ficou um imenso vazio, pois conversávamos constantemente”, disse o empresário Ricardo de Oliveira, formado em Administração de Empresa e que, aos 26 anos, assumiu o comando da empresa quando o pai faleceu, em 1976.
 
A convivência com o primo, e muita música
Mineiro de Araguari, onde nasceu em 1955, Leandro de Oliveira mudou-se com a família para Brasília em 1962. Conhecia o primo, mas se falaram pouco durante algum tempo. Formou-se em Engenharia Civil, não se dedicou à profissão e logo assumiu uma diretoria na Vitral – grande empresa especializada em vidros planos, fundada em 1950 em Araguari pelo seu pai, Joaquim de Oliveira, que se transferiu para a Capital Federal em 1958 e na década de 1970 instalou unidades em Uberlândia, MG, e Goiânia.

Já casado com a artista plástica Elca Cascão, brasiliense, eles se mudaram para a Capital goiana em 1984, quando os primos se aproximaram e passaram a se encontrar com maior frequência, durante 10 anos. Descobriram as muitas afinidades, sendo a maior delas a sensibilidade pela música. Leandro toca violão, cavaquinho e piano, o que os uniu ainda mais. Com frequência, aos sábados eles passaram a se encontrar às 19h e não tinham hora de parar; geralmente iam até às 5h da madrugada, tocando, cantando, bebendo, tirando música.

Músico nem sempre é organizado e por isso um pequeno detalhe marcou essa convivência. Nesses saraus iam reunindo um monte de letras e canções diversas, que Margareth, sempre presente e muito atenciosa com Jayme Júnior, começou a organizar e catalogar tudo, passando as folhas a limpo e por fim encadernando esse rico material para ele. Essa iniciativa deixou Leandro com muita inveja do primo por esse cuidado dela. A prima logo cuidou de providenciar três outros cadernos e os presenteou a Leandro, acompanhados de uma linda dedicatória, que os guarda até hoje com muito carinho. “Um dos melhores presente que já ganhei”, disse.
 
Uma noite especial, que não incomodou os vizinhos
Dois momentos especiais aconteceram na residência do jornalista Jales Naves quando ele e sua mulher, Heloísa Machado Naves, receberam Margareth e Jayme Júnior, amigos e familiares para uma noite musical em seu apartamento no edifício Tennessee, no Setor Oeste, em Goiânia, no final dos anos 1980. Eles tinham conhecido o casal por meio da irmã do anfitrião, Fátima Rosa Naves, que era casada com o araguarino Eduardo Carlos de Oliveira Santos, engenheiro, boêmio e que gostava de cantar. Nessa noite tudo correu naturalmente, sem qualquer incidente, pois Heloísa e Jales sempre tiveram a preocupação em não incomodar os vizinhos, o que não é muito comum entre moradores de apartamentos.

Qual não foi a surpresa deles, no dia seguinte, ao conversarem com o jovem casal, que morava no apartamento ao lado, Liliane Perilo e Georthon Philocreon, com os quais ainda não tinham intimidade, sobre o evento da noite anterior, e eles, sorridentes e felizes, agradeceram:

“Foi uma noite maravilhosa, de pessoas que apreciam a música. Sentamos no sofá em nossa sala e curtimos cada música tocada, como se tivéssemos sido convidados. Gostamos muito”, disseram.

Nessa noite, um dos convidados, o médico Luciano Sanches de Siqueira, como num desafio, começou a pedir músicas, uma depois da outra, como se estivesse testando o pianista, e sendo atendido em todas as solicitações.

“Fado você não toca?”, indagou.
Tranquilo como sempre, Jayme Júnior perguntou se tinha violão, que o anfitrião logo providenciou, e ele entoou a canção portuguesa.

“Depois dessa tenho que ir embora”, arrematou, satisfeito com a bela apresentação daquele novo amigo.
 
Volvo e o pioneirismo na venda de importados
         Amigos desde a infância, Jayme Júnior e Alarico Assumpção Júnior sempre estiveram próximos. No início dos anos 1990, quando o Governo Collor abriu as importações de carros, a empresa da qual Alarico Júnior é acionista, Jaíba, que depois se tornou grupo Suécia, trabalhava com a Volvo na comercialização de caminhões e ônibus, e passou também a negociar automóveis. Foi quando Jayme Júnior assumiu a representação em Goiânia e Brasília, vendendo carros, primeiro para as embaixadas e depois para as pessoas de melhor capacidade financeira. Ele fez a prospecção desses clientes e introduziu a marca na região, comercializando os primeiros carros importados, trabalho que perdurou por uns cinco anos, quando a indústria foi vendida para a Ford, sendo mantida a concessão. Empresário de sucesso, Alarico Júnior é o atual presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

“Jayme Júnior é uma melodia em minha vida”. Dessa forma, como dois apreciadores da boa música, Alarico Júnior resumiu sua admiração pelo amigo, que primava pela gentileza e pelo cuidado ao conversar com as pessoas, dizendo que numa discussão era preferível ser gentil do que ter razão. Reafirmou o importante trabalho de relacionamento que realizou em Goiânia para a Volvo, quando conheceu muitas pessoas e famílias, “que até hoje são meus amigos”, disse. Ao participar de reuniões no exterior, Alarico Júnior não deixava de assistir a shows com artistas famosos, sempre se lembrava do amigo distante, telefonava para relatar o espetáculo e mesmo colocá-lo para ouvir as músicas que estavam sendo executadas, que ele gostava e aplaudia. A empresa atuou por 17 anos em Goiânia.
 
Uma comemoração especial em Brasília
O tio Marcos Antônio de Araújo Braga, 77 anos, fazendeiro, teve com ele um dos melhores relacionamentos. “Eu o amava muito e a sua morte, para mim, a ficha ainda não caiu”. Ele o considerava um pai. “Júnior era uma pessoa super especial, um gentleman. Estimado por todos”. Quando o pai morreu e ele era muito criança, o tio dispensou-lhe uma grande atenção. “Era humilde e muito atencioso com todos, nada passava despercebido. Logo se tornou um grande pianista e ao tocar era muito aclamado”, como recordou.

Um momento especial foi quando, depois de realizar um excelente negócio, Jayme Júnior o convidou para comemorar e foram a um dos melhores e mais badalados lugares de Brasília naquela época, o Gilberto Salomão. “Estávamos em sete pessoas, inclusive o meu querido pai, já falecido”, anotou. “Entramos no Beer Fast, que tinha um pianista tocando, um pouco sem graça. Depois que nos acomodamos pedi ao maitre para o meu sobrinho tocar”. Foi prontamente atendido. Algumas músicas depois o restaurante ficou lotado, com todos o aplaudindo. Até propuseram contratá-lo. “Amanhecemos o dia naquela comemoração, que ficou marcada para o resto da minha vida. Paguei a conta com o maior prazer”, disse.
 
O apoio do amigo que virou político
Nos últimos 15 anos ele se reencontrou com Helder Valin, político por seis mandatos, eleito consecutivamente a partir de 1992 – dois como Vereador em Goiânia, um pelo Partido Trabalhista Renovador (PTR) e outro pelo Partido Social Democrático (PSD), e quatro como Deputado Estadual, pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), quando ocupou a Presidência da Assembleia Legislativa do Estado em dois momentos, 2009/2011 e 2012/2014 – em 2013, como Presidente do Poder Legislativo, assumiu interinamente o cargo de Governador do Estado, nas viagens do titular, Marconi Perillo, à Europa, e do vice-governador José Éliton à América do Sul. Foi líder do Governo no Parlamento e renunciou ao mandato parlamentar para ser empossado no cargo de conselheiro do TCE. Em 2010 foi o Deputado Estadual mais votado, com 49.120 voto.

Conhecendo Jayme Júnior por mais de 40 anos e seus predicados, como honestidade, competência e responsabilidade, levou-o em 2010 para a assessoria da Assembleia, onde ficou por nove anos e foi Diretor Financeiro, em 2013 e 2014, e Diretor Administrativo, em 2015; saiu em 2019 para assumir novo posto, no TCE, que deixou quando adoeceu.

“Construímos uma amizade bem próxima”, afirmou Valin, fazendo questão de ressaltar que só tinha boas lembranças dele, que o admirava muito. “Ele era muito dedicado aos amigos, que sabia cultivar, participava de muitos grupos que se reuniam com frequência”. “Grande músico, estava sempre de bem com a vida”, recorda-se. “Grande ser humano e alma muito boa”, disse, para falar que residiam no mesmo condomínio há 17 anos e se encontravam bastante. “Nós nos conhecemos desde quando, na década de 1970, ele morou uns seis meses em minha casa. Eu o tinha e tenho como irmão. Era da minha família, da minha casa. Tinha e tenho um amor muito grande por ele, que me ensinou muitas coisas na minha vida”, frisou. “Meu amigo e irmão de todas as horas”, completou.
 
Confrarias
Ao longo da vida ele foi reunindo amigos, criando oportunidades de encontros e novos encontros, e participando desses grupos, alguns chamados de confraria.

O médico Cairo Alberto de Freitas foi das turmas do Whisky e da Quinta. “Minha convivência com Jayme Júnior iniciou nas reuniões da família da Marga, de quem era amigo, por intermédio do Bráulio, então namorado da Adriana, irmã dela. Tive bons momentos com o sr. Waquim e dona Teresa, pais da anfitriã. Nessa época minha convivência com ele era esporádica, mas sempre o admirava, pois era o centro dessas reuniões. O tempo passou e nos reencontramos como vizinhos no Aldeia do Vale. Nos nossos encontros, especialmente nos almoços que se tornavam jantares, era sempre o grande protagonista musical. No final de cada almoço íamos pro piano. Ele, com sua simplicidade de sempre, tomava conta do ambiente. A Marga sempre de olho e às vezes enciumada pelo ‘abuso’ que faziam de sua capacidade de fixar a atenção de todos nas músicas e a procura pelo repertório nos seus cadernos”.

Cairo inventou a famosa Festa do Whisky 1515 e desde a primeira edição o amigo foi um dos protagonistas. “Todas as edições da festa tinha seu ritual próprio. E era grande o ciúme de seu piano”.

A Turma da Quinta se encontra semanalmente há 37 anos – dos quais Jayme Júnior participou durante 26 anos –, no almoço, e consolidou a união entre esses 32 amigos. Como ressaltou Léo Normanha, “era uma preciosidade em pessoa. Todos nós agradecemos por ter tido a chance de conhecê-lo. Seu espírito ficará guardado nos nossos corações pelo bem que ele nos trouxe”. Para Cairo de Freitas, quando Jayme Júnior não aparecia para o almoço, tinha sempre o argumento de estar com Margareth. “Foi uma das pessoas mais humildes, gentis, prestativas, que conheci”, frisou.

Deputado estadual por dois mandatos consecutivos nos anos 1970 e conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), aposentado, o contador e jornalista Wander Arantes tinha uma paixão em comum com Jayme Júnior: o gosto pela música.

Integrantes da Turma da Quinta, eles eram amigos há 30 anos e sempre se encontravam para conversar e ouvir músicas. Wander gravou um CD, coletânea com 16 canções que os dois selecionaram e Jayme Júnior distribuiu aos amigos em Araguari, na comemoração de 60 anos. “Era uma pessoa extraordinária: digno, sério, educado, gentil, com muito talento musical”, afirmou.

O empresário Mário Henrique Fonseca de Queiroz, diretor da Navesa, concessionária Ford em Goiânia, conheceu Jayme Júnior na Turma da Quinta. “Foram longos e prazerosos anos de convívio, muitas conversas e músicas boas. Nos almoços da turma sempre me sentava ao seu lado para apreciar sua boa prosa. Essa turma se reunia todo final de ano, aí sim com nossas esposas, para a festa da Quinta. Ele era o maestro que aglutinava os 60 participantes. Muita saudade!”.

O médico e empresário João Maurício Normanha, da Turma da Sauna, acrescentou “vários outros valores deste amigo inesquecível: lealdade extrema, discrição, honestidade, pureza de alma. Nunca demonstrou rancor por ninguém. Era frequente com os amigos. Uma pena perdê-lo”.
 
Maximiliana Queiroz Moraes e Márcio Belluomini Moraes os conheceram na casa de amigos comuns, Roberto Luciano e Godiva. “Naquela noite eu não estava me sentindo bem e nem deveria ter saído de casa, mas aceitamos o convite. Causei péssima impressão a eles, o que me rendeu consequências, pois desfazer a má impressão, especialmente com Margareth, demandou tempo. Felizmente, contei com a generosidade do próprio Jayme Júnior, incapaz de guardar rancores ou maus sentimentos em seu coração, e que me serviu de advogado perante aquela que se tornaria minha irmã de alma, a Marga”, escreveu Max.

A afinidade acabou nascendo do convívio proporcionado pelo fato de morarem no mesmo condomínio e desfrutarem de tantas amizades comuns. “Um encontro mensal era infalível, pois frequentávamos a confraria dos amigos do Aldeia, um grupo de 13 casais que nos reuníamos para celebrar a amizade e a vida! A longevidade dessa confraria, interrompida agora pelo distanciamento social, se deve, entre outras coisas, ao fato de que nossos encontros eram musicais, animados pela sonoridade nata, pela voz grave e harmoniosa, pelos livros de capa vermelha, pelo charme e delicadeza, pelo bom gosto e elegância, pela presença e simpatia do Jayme Júnior”.

“Ao som de Jayme Júnior ao piano ou violão passávamos horas inesquecíveis de alegria e de excelente convivência! Quantas vezes não saíamos, altas horas, para serenatas maravilhosas… ou quantas outras vezes fomos ‘soca’ das festas, incapacitados de dar por encerrada nossa cantoria de altíssimo nível, pelo menos aos nossos ouvidos! Jovem guarda, bossa nova, MPB, Beatles, Piaf, Charles Aznavour, Sinatra, enfim, the best da música de nosso já pretérito tempo”, justificou.

“Márcio e eu nos afeiçoamos de forma muito profunda ao casal Marga e Jayme Júnior! Desenvolvemos grande empatia e comprometida amizade. Ele partiu em meio a essa terrível pandemia, o que não nos permite, ainda, dimensionar a dor que sua ausência nos fará nos nossos encontros sociais. Como ele era muito mais que nosso maestro, como o amávamos como irmão, restou em nós uma infinita saudade e um firme compromisso de apoiarmos aquela que ele tanto amou, amou mais que tudo! A Margareth, nossa irmã”, completou Max.

Amigos desde 2009, quando Geraldo Faria, que tinha transportadora, começou a construir sua casa em frente à dele no condomínio onde morava, os dois gostavam de viajar, estavam sempre conversando a respeito, tomando um lanche e convivendo no grupo do Aldeia do Vale. Num desses momentos eles identificaram um amigo comum, Evaristo Bueno, que tinha participado do intercâmbio que Jayme Júnior fez aos Estados Unidos em 1972, e que estava morando em Anápolis, GO. Marcaram um jantar, que aconteceu na casa do Geraldo, e eles puderam recordar aqueles bons tempos, de jovens sem maiores compromissos.

Geraldo tem muito para falar do amigo, tornaram próximos, mas ainda sente a sua perda e está com dificuldades para conversar sobre ele. Estavam sempre criando um motivo para trocar ideias, sobre tudo, fazendo confidências, e lanchando – Jayme Júnior sempre pedia, para começar, dois salgados e os comia com o maior prazer, como uma criança, e logo pedia autorização para pedir mais. Num desses momentos, há dois anos, falaram sobre morte. Questionado sobre como a encarava, ele disse que já tinha vivido muito, não tinha medo de morrer, e sim de ficar doente numa cama, imóvel, dando trabalho. Encarava tudo com muita tranquilidade.

Geraldo o acompanhou nesses últimos meses, inclusive o levou para o transplante no Araújo Jorge, e ele estava esperançoso de voltar para casa. Já tinha planos, em especial para viajar, e o primeiro projeto seria conhecer a Serra da Canastra, ouvindo atentamente o que o amigo lhe contou sobre a visita que fez ao local.
 
Centro das atenções, em Araguari
Em 2016, por iniciativa de Jayme Júnior, foi realizada uma grande festa em Araguari para comemorar os 60 anos dos amigos e que reuniu um grande número de pessoas. “Mais uma vez ele foi o centro de todas as atenções, com o seu talento musical”, anotou Janfredo. “Ainda hoje tenho sempre o pressentimento de que vou receber uma ligação dele, que estará chegando a Araguari e quer reunir a turma toda”, completou.

“Estamos falando de um coração gentil e generoso, incapaz de um comentário sequer que não fosse de extremo afeto ou de afeição ao interlocutor, seja quem fosse. Afeição ou educação, como mineiro de Araguari, é difícil discernir”, explicou seu vizinho Álvaro Nicolás.
 
Leucemia e transplante
Jayme Júnior teve leucemia, que exigiu um transplante de medula óssea, o que se tornou uma via crucis por vários centros médicos – começou pelo Hospital Anis Rassi, onde ficou 10 dias; Hemolabor, por alguns meses; estava se preparando para ir para São Paulo, mas sua médica, a hematologista Reginara Dias Fernandes, não recomendou, por receio de contaminação pelo covid-19; e acabou fazendo o transplante no Hospital Araújo Jorge, de Goiânia. A doação, 100% compatível, foi feita pela irmã Maria Regina, mas ele não resistiu, falecendo no dia 29 de abril deste ano.

“Deus foi tão maravilhoso que me deu oportunidade de ficar com Jayme Júnior em seus últimos tempos. Ele descobriu a doença no dia 18 de novembro de 2019, cheguei uma semana depois, no dia 26, e não mais nos separamos”, disse Maria Regina. “Ficamos cinco meses confinados em hospitais. Conversamos bastante, resgatando os bons momentos desde quando éramos crianças, perdemos o nosso pai e nos tornamos muito unidos. Agora, nesse período, dava banho, comida e um dia acabei deixando ele cair, criando uma grande confusão”.

“Era uma pessoa especial, foi tudo para mim: pai, irmão, confidente. Uma pessoa maravilhosa, um grande coração, muito especial. Um anjo, um espírito muito evoluído. Um anjo que passou pela terra para cumprir sua missão, de dar alegria, amizade e amor. Simples e humilde, onde chegava era só alegria, transformava o ambiente. Nunca encontrei uma pessoa com tantas amizades. Participava intensamente da vida deles todos. Era uma amizade de coração. Vi amigos dele, homens, chegarem para abraçá-lo e lhe dar um beijo no rosto”, disse Maria Regina, para acrescentar: “Nunca o ouvi falar um único palavrão”.

Todos acreditavam em sua recuperação, ele especialmente. Prático, montou um escritório no apartamento do hospital, quando fazia anotações e planos, muitos relacionados a comida, pois gostava muito de comer, e viagens. Não parecia que estava num hospital, pois a todo momento chegava alguém para conversar, pois ele sempre tinha uma palavra boa, uma mensagem para transmitir, e falava de tudo.

Feitos os testes, apenas os exames de Maria Regina mostraram compatibilidade para o transplante, e das outras duas irmãs não. Muito despachada, disse para ele: “a hora que você sair a Margareth vai achá-lo muito agitado, diferente da pessoa tranquila que sempre teve ao seu lado”.

Quando começou a agonia dele “e nossa agonia”, como relatou, Cairo de Freitas o visitava todo dia no Hospital Anis Rassi, depois no Hemolabor, na UTI do Anis Rassi e Hemolabor de novo. “Dizia sempre que era visita de médico e que não podia durar muito. Ele sempre otimista e falava que queria vender sua casa no Aldeia quando saísse do hospital”. Quando chegou a pandemia, o amigo suspendeu as visitas e disse que era para não levar algum risco. Não pôde acompanhar seus últimos momentos, pessoalmente, no Hospital Araújo Jorge, só por relatos da equipe médica.

Nesse périplo pelas diversas unidades de saúde ele manteve o mesmo carisma e a mesma cordialidade com todos que o atendiam, e recebiam um tratamento especial. Certo dia, a médica Reginara Dias Fernandes chegou, fazia algumas anotações no postinho quando ouviu “Adiós Nonino”, uma música que lhe era marcante, tinha sido tocada em seu casamento, nunca mais a esqueceu e, emocionada, ficou ali curtindo. Só depois é que soube que era do apartamento dele que vinha aquela música e foi lá agradecer.

Depois desses episódios, Margareth recebeu uma carta muito bonita do Hemolabor, com a assinatura de médicos e pessoal de apoio, afirmando que nunca tivera um paciente como ele. Também a psicóloga que o atendeu chegou a convidá-lo para, quando saísse, fizesse uma palestra para o grupo de profissionais de sua área sobre como encara a vida e faz para sobreviver com essa fé inabalável. 

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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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A Redação  Goiânia – O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Goiás) alcançou seu melhor resultado na série histórica no Indicador de Desempenho da Avaliação Profissional (IDAP), com nota 8,3. O resultado, divulgado terça-feira (27/10) pelo Departamento Nacional, supera a meta de 7,9 e a média brasileira de 8,1, conforme dados do Sistema de Avaliação […]

Meio Ambiente
04.11.2026
Prefeitura de Aparecida inicia projeto de educação ambiental em unidades da rede municipal de ensino

A Redação  Goiânia – A Prefeitura de Aparecida de Goiânia iniciou na última semana o projeto de educação ambiental Reciclar para Transformar, que vai envolver unidades da rede municipal de ensino em ações de coleta seletiva, reciclagem e conscientização ambiental. A iniciativa é desenvolvida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), em parceria com a […]

Investigações
04.11.2026
Homem é preso suspeito de armazenar conteúdos de violência sexual infantojuvenil em Goiânia

A Redação Goiânia – Um homem foi preso em Goiânia suspeito de armazenar e compartilhar conteúdo com violência sexual infantojuvenil na internet. A prisão foi realizada pela Polícia Federal, na terça-feira (3/11), durante a 11ª fase da Operação Voz da Infância. As mídias digitais apreendidas serão submetidas à perícia, a fim de identificar possíveis outros […]

Esporte
04.11.2026
Goiânia recebe Campeonato Brasileiro de Basquete Master com 1.900 atletas de todo o país

A Redação Goiânia – A Capital goiana sedia, até sábado (7/11), a 41ª edição do Campeonato Brasileiro de Basquete Master, que reúne cerca de 1.900 atletas de todo o país, distribuídos em 187 equipes. Com apoio do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Seel), a competição contempla categorias […]

Investigações
04.11.2026
Polícia Civil mira suspeitos de golpe envolvendo carro de luxo em Goiás

Ludymila Siqueira Goiânia – Uma operação da Polícia Civil, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4/11), mira grupo suspeito de golpe envolvendo um carro de luxo em Goiás. Segundo os policiais civis, os investigados estariam envolvidos em esquema de receptação, adulteração veicular e golpe conta seguro. Ao todo, são cumpridos 12 mandados de busca e apreensão […]

Solenidade
03.11.2026
Santa Casa de Goiânia completa 90 anos com programação comemorativa e entrega de melhorias

A Redação Goiânia – A Santa Casa de Misericórdia de Goiânia completa 90 anos nesta quarta-feira (4/11). Para celebrar a data, a instituição realiza uma programação especial nos dias 3, 4 e 6 de novembro, com missas em ação de graças e uma solenidade que marcará a entrega de melhorias na estrutura hospitalar, além do […]

Trabalho
03.11.2026
Feirão de Empregos reúne mais de 1,1 mil vagas para serviços e comércio

A Redação Goiânia – A Secretaria de Estado da Retomada promove nesta quinta-feira (5/11), das 8h às 17h, um feirão de empregos com mais de 1,1 mil oportunidades para contratação temporária, estágio e Jovem Aprendiz. A ação será realizada na Central Mais Empregos, localizada no centro de Goiânia, com entrevistas presenciais conduzidas por representantes de […]