Nádia Junqueira
Rio de Janeiro – Para quem vê de fora, a Rio+20 envolve, apenas, chefes de Estado, autoridades e empresários que discutem como equilibrar desenvolvimento econômico e sustentabilidade, tendo como um dos objetivos a erradicação da pobreza, certo? Os jovens goianos da Casa da Juventude Padre Burnier contam à Redação que ali, ao lado dessa discussão, os movimentos sociais e populares estão presentes na Cúpula dos Povos em pleno debate, ora concordando, ora discordando das discussões e decisões da Rio+20. Eles acreditam, sobretudo, que as mudanças que devem acontecer, de fato, para atender os objetivos do encontro, devem ter atores sociais como protagonistas e não governos.
Os movimentos sociais fazem do espaço um momento para definir uma agenda em comum com um único interesse: reiventar o mundo com um desenvolvimento econômico que garanta justiça social e ambiental. Uma das maiores atividades desses movimentos sociais presentes na Rio+20, na Cúpula dos Povos, será hoje (20/6) com a marcha em defesa dos bens comuns e contra a mercantilização da vida. Serão mais de 10 mil pessoas marchando pelas ruas do Rio a partir das 15 horas.
Os goianos da Casa da Juventude (Caju) participam das discussões na Cúpula desde o fim de semana e mostram que jovens de todo o mundo, de diversas representações, estão reunidos discutindo propostas para o planeta que essa geração quer viver e deixar para as próximas. São mais de três mil jovens de todo o Brasil e mundo (sobretudo América Latina e Europa) envolvidos em assembleias e debates todos os dias. E Goiás está presente nesse espaço defendendo que o modelo econômico da modernidade não dá conta do desenvolvimento social e sustentável. Nesses espaços, violência e sustentabilidade, por exemplo, estão no mesmo debate.
Poder de participação. Não de deliberação
O estudante de Ciências Sociais da UFG, João Paulo, tinha apenas um ano quando aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO92), quando começou a ser desenvolvida a ideia de desenvolvimento sustentável e de um modelo econômico menos consumista. Provavelmente, se João Paulo tivesse seus 21 anos àquela época, estaria participando perifericamente da Eco92, quando as Ongs se reuniam marginalmente ao encontro, no Aterro do Flamengo. Hoje, representando a Casa da Juventude Padre Burnier, de Goiânia, João Paulo junto a milhares de jovens debatem propostas na Cúpula dos Povos.
Alessandra Miranda de Sousa, coordenadora do Projeto de Juventude e Cidadania da Caju e do Projeto Juventude e Economia Solidária das Cáritas, avalia que hoje os movimentos sociais tiveram certas vitórias políticas e conquistaram algum espaço. “Há 20 anos eram vários movimentos sociais apostando numa utopia para dar conta dos problemas sociais. Hoje já temos esse governo dito democrático e popular”. Por outro lado, para Alessandra, 20 anos depois da Eco92 não há nada que ainda consiga efetivar as ditas utopias.
“Temos algumas certezas, espaços como esse, por exemplo. Mas não é o governo sozinho que vai dar conta de garantir a justiça e direitos sociais. Esse encontro (Rio+20) tem sua importância política, mas estamos aqui para dizer que é insuficiente”, contesta Alessandra. A Eco92, para a Cúpula dos Povos, foi aquilo que deveria ter sido o início da reversão das situações de miséria, injustiça social e degradação ambiental e que acabou em frustração da boa parte das esperanças depositadas nesse processo.
As propostas, frutos dos debates na Cúpula dos Povos, não chegarão ao alto escalão e contribuirão com documento oficial da Rio+20. A importância dessa discussão e do documento que estão elaborando reside, para Alessandra, no fortalecimento dos interesses comuns entre os movimentos sociais. A partir disso, propostas que podem vir a ser, a médio e longo prazo, políticas públicas. “Vivemos um momento de fragmentação. São várias lutas: dos negros, das mulheres, sem teto, sem terra. Em que momento a gente convergiria? Esse momento é agora”, disse Alessandra elogiando a Cúpula dos povos. Para a jovem, esse espaço dentro da Rio+20 representa, em si, a própria pressão que o Estado sofre pelos movimentos sociais.
Divergências
As discussões na Cúpula dos Povos indicam para uma divergência dos debates que ocorrem ali ao lado, entre empresários e chefes de Estado: a chamada Economia Verde. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) define: uma economia que "resulta numa melhoria do bem-estar humano e da equidade social ao mesmo tempo em que reduz de forma significativa os riscos ambientais e a escassez ecológica. Na sua expressão mais simples, uma economia verde pode ser entendida como uma economia de baixo carbono, uso eficiente dos recursos e inclusão social".
A discordância, de acordo com Alessandra, se deve ao fato de que esse modelo não muda o processo de produção nem de consumo. “Continua produzindo e consumindo muito. E parte desse capital vai gerar sustentabilidade”, argumenta Alessandra. O que os movimentos sociais defendem é um outro modelo de desenvolvimento social, outro modelo de economia, a chamada economia solidária. “O eixo fundamental dessa economia é a produção compartilhada em que os direitos humanos estão na base do trabalho”, defende a goiana. A economia solidária, no Brasil, já é oficializada como política pública, havendo uma secretaria para a mesma dentro do Ministério do Trabalho.
Violência em pauta
Lançada dia 14 desse mês, pouco tempo antes de partirem rumo ao Rio, a campanha “A Juventude quer viver” da Casa da Juventude é uma das bandeiras que os goianos têm apresentado nas discussões. “Apresentamos nas principais mesas e debates essa bandeira pelo direito à vida e ao desenvolvimento sem violência”, afirmou João Paulo.
Alessandra conta que em diversas mesas se discutiu “O Estado que temos, o Estado que queremos”. Nesses espaços, violência foi um tema inevitável. Afirma, ainda, que violência contra jovens em Goiás, em especial, também foi tema das discussões. “Apareceu essa discussão dos jovens em Goiás serem vítimas de violência policial”, conta. Para Alessandra, discutir esse tema na Cúpula dos Povos é imprescindível para se pensar o modelo econômico que vivemos.
“Esses jovens vítimas de violência são pobres, negros. Têm endereço e são da periferia. Esse modelo econômico que adotamos não é inclusivo, mas excludente, e é necessário excluir esses indivíduos para fazer essa sociedade mais organizada”, justifica. Amanhã, às 9h, haverá mesa em uma tenda no Aterro do Flamengo, sob o comando da Casa da Juventude com o tema “a juventude quer bem viver”.