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Quando a cabeça fica zoada

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14.06.2012 - 12:16:04


Consigo trabalhar sob as condições mais adversas possíveis. Com sono, com fome, cansado, virando noite, com o PA de um show do Sepultura gritando na minha orelha, com o Goiás tomando uma goleada, com criança chorando… Tenho um interruptor cerebral de concentração que me desconecta do mundo externo e consigo manter o foco naquilo que precisa fazer. Sento no computador e, com o mundo caindo, estou completamente atento àquilo que necessita ser resolvido. Acho que é coisa de jornalista. Somos forjados no caos das redações. O pau quebra, a gritaria reina e você tem que parir oito mil caracteres para fechar uma página no prazo que o editor exige. Cada profissão tem seu drama. O nosso é o tal do deadline. Mas tudo na vida tem limite. Esse poder de concentração vai para o saco quando a cabeça fica zoada. Aí não tem santo que resolva.

A cabeça fica zoada quando o acúmulo desses perturbantes da rotina profissional são somados aos problemas pessoais que todos temos. O resultado dessa adição é o que aqui chamo de cabeça zoada. Quando alguém próximo atinge esse temível estágio, saia de perto. Imagine para a mulher quando esse patamar de estresse é alcançado concomitantemente com a TPM. O pau de arara deve ser mais prazeroso do que viver tal infortúnio.

Esquecer de compromissos, esquecer de agendar os compromissos, irritabilidade excessiva com qualquer pequeno problema, sem paciência para telefonemas que não levam a lugar nenhum, dores no corpo onde você nunca sentiu nada… Tudo isso é consequência direta da famigerada cabeça zoada. Nesse estágio, até aquilo que é insignificante ganha proporção monstruosa. Sua percepção dos problemas não é apurada e o que é micro fica gigante, sem que você nem consiga avaliar com precisão o que realmente está acontecendo.

Vivo um momento sério de cabeça zoada. O excesso de atividades profissionais desse período acabaram com minha qualidade de vida. E em respeito total à lei que disputa com a da Gravidade o título de a mais precisa de toda história, a Lei de Murphy, as piores notícias de âmbito pessoal chegam exatamente no meio do caos profissional. Quem cabeça não fica zoada com essa sequência?

Como já tenho alguma experiência com cabeça zoada, desenvolvi algumas técnicas para amenizar seus efeitos. Por exemplo, não combino nada por telefone. Sei que estou conversando com alguém, mas pensando, na verdade, nas 80 mil outras coisas que tenho que fazer. Logo, é mais que certo que vou esquecer aquilo que estou combinando. Então sempre peço para a pessoa me mandar um e-mail me recordando do que acertamos. Caso contrário, é mais fácil o Corinthians ganhar a Libertadores do que eu lembrar daquilo que me comprometi. Outro bom remédio é fugir do que notoriamente é barca. Eventos sociais que você não se sente à vontade, mas que tem que estar lá por algum tipo de obrigação, são aporrinhações em qualquer tipo de ocasião. Só que quando você vive um momento de cabeça zoada, o desgaste é multiplicado por mil. Manter distância é mais saudável.

O bom mesmo é quando a turbulência passa, sua produtividade volta a um padrão humano, a criatividade floresce novamente e você não fica mais irritado como se fosse uma questão de vida ou morte com algo fora do lugar em seu quarto. Enquanto o tempo da serenidade não volta, todo cuidado do mundo com a cabeça zoada. E que me período de zoação mental acabe logo!

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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