Atualizada às 20h do dia 5/4
Yuri Lopes
Goiânia – O ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou uma foto de uma história da Turma da Mônica para tirar sarro da China em relação sotaque dos chineses, em postagem no Twitter, neste sábado (4/4). Após a repercussão negativa do caso, o ministro apagou a postagem e não falou mais sobre o assunto.
Citando o personagem Cebolinha, o ministro escreveu um texto trocando o R pelo L, característica do personagem criado por Mauricio de Sousa e traço do sotaque ridicularizado por Weintraub.
“Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”
Relações estremecidas
A postagem do ministro da educação é mais um episódio de atrito diplomático de membros do governo Bolsonaro e a China. O primeiro caso ocorreu no dia 18 de março, quando o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, postou no Twitter que a China era a culpada pela crise do novo coronavírus.
Eduardo, que é presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, que tem a missão de analisar projetos de lei e outras ações de política externa brasileira, disse na mesma postagem no Twitter que a China havia escondido “algo grave” sobre o coronavírus.
A reação do governo chinês veio no mesmo dia, com carta resposta da Embaixada da China no Brasil, direcionada a Eduardo Bolsonaro. O texto afirma que o deputado “contraiu vírus mental”, e sugere que o filho de Bolsonaro procure “informações científicas e confiáveis nas fontes sérias como a OMS, úteis para ampliar a sua visão”.
Após a insatisfação pública da China por causa das afirmações de Eduardo Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se posicionou através de carta onde diz que a postagem de Eduardo não reflete a posição do governo. O ministro também criticou o embaixador da China no Brasil, a quem acusou de ter compartilhado postagens ofensivas ao presidente do Brasil.
Bandeira branca
A operação para tentar apaziguar os ânimos entre as autoridades chinesas e brasileiras teve a participação do vice-presidente, Hamilton Mourão, que afirmou que Eduardo não falava em nome do governo. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que a posição do governo brasileiro é de amizade com a China.
Até mesmo o presidente Bolsonaro atuou para tentar se desculpas pela crise causada pelo filho. Bolsonaro ligou para o presidente da China, Xi Jinping, no dia 24 de março, e disse que “reafirmamos nossos laços de amizade, troca de informações e ações sobre a covid-19 e ampliação de nossos laços comerciais”.
Tiro no pé
A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2018, 26,7% das exportações brasileiras tiveram a China como destino. Somente entre 2003 e 2019 a China investiu cerca de US$ 79 bilhões no Brasil. Segundo o Ministério da Economia, o comércio bilateral entre Brasil e China saltou de US$ 3,2 bilhões em 2001 para US$ 98 bilhões em 2019.
A turbulência diplomática causada por Eduardo, e agora agravada por Weintraub, pode ter contribuído para a China ter cancelado compras feitas pelo Brasil da China de equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras e gorros, que seriam usados no combate ao novo coronavírus.
Em coletiva de imprensa na última quinta-feira (2/4), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que os Estados Unidos enviou 23 aviões cargueiros para buscar os mesmos materiais que o Brasil adquiriu e teve os pedidos cancelados.
“Nós tínhamos comprado, quando começamos a pedir. Entregaram a primeira parte. Na segunda parte, mesmo com eles contratados, assinados, com o dinheiro para pagar, quem ganhou falou: não tenho mais os respiradores, não consigo te entregar. Então, nós voltamos de algo que a gente achava que a gente já tinha, demos um passo para trás”, afirmou Mandetta em coletiva de imprensa.