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22 de novembro: Santa Cecília e a Música

20.11.2019 - 18:18:51
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Othaniel Alcântara Jr.

Conforme a tradição do catolicismo romano, no dia 22 de novembro comemora-se o dia de Santa Cecília, data que supostamente corresponde ao seu nascimento. Santa Cecília é considerada a padroeira dos músicos e da música sacra por muito provavelmente ter tido, durante sua existência, grande habilidade musical. Seu nome, inclusive, encontra-se vinculado a várias irmandades (confrarias) de músicos, tanto no Brasil quanto no exterior. 

 

Tela à esquerda: "Santa Cecília" de Francisco da Silva Romão (Salvador, 1834-1895)
Tela à diteita: "Personificacão da Música" de Francesco Trevisani (Capodistria, 1656-1746)
Fonte: Carin Zwilling (researchgate.net)

 

Cecília Metelos é venerada como “santa”, pelo menos desde o século V. Segundo a Encyclopedia Early Christianity, ela teria sido proclamada padroeira da Academia de Música de Roma, no ano de 1584. Mas, com base em uma comunicação da investigadora Ana Paula Tudela, a referida Academia de Música de Roma trata-se da primeira irmandade de músicos oficializada por meio da bula Rationi Congruit de 01/05/1585, durante o papado de Sisto V (1585-1590) – sucessor de Gregório XIII (1572-1585). O nome original dessa confraria é Congregazione dei Musici sotto L'invocazione della Beata Vergine e dei Santi Gregorio e Cecilia, ou seja,  a mesma instituição que, depois de várias reorganizações e mudanças de nomes, transformou-se na instituição conhecida como Academia Santa Cecília de Roma.

 

Quem foi Cecília?
 
É provável que a história contada sobre Santa Cecília seja um amálgama de fatos reais e de outros oriundos da tradição popular. Na realidade, as poucas informações conhecidas sobre ela provêm de um documento datado do século V, chamado Passio Sanctae Caeciliae (Paixão de Santa Cecília).
 
Vale destacar que existem informações discrepantes no que se refere à biografia de Cecília, como o ano de seu nascimento, por exemplo. Antonio Auggusto João, autor do livro Mulheres de Deus, acredita ser 150 d. C. Porém, Carin Zwilling prefere abrir o seu artigo "Santa Cecília: um percurso da arte e da devoção" especulando sobre algum momento do início do seculo III. Também, sabe-se que Cecília nasceu em Roma, era filha de um senador e que em algum momento de sua vida foi prometida em casamento, pelos pais, a um jovem nobre chamado Valerian (Valeriano). 
 
Apesar disso, diz a lenda que a bela Cecília professava, desde muito jovem, a fé cristã. E, mais: numa época marcada por perseguições aos adeptos da religião cristã, teria feito um voto de castidade para “viver o amor de Deus”. Diante desse fato, obviamente, decidiu-se então, pela não consumação de seu casamento. Tal decisão, entretanto, desencadearia uma série de eventos trágicos. Considerando a discrepância supramencionada, tais eventos teriam ocorrido durante o governo do Imperador Marco Aurélio (161-180 d.C) ou de Alexandre Severo (222 a 235 d.C).
 
 
O dia das núpcias
 
Conforme atestam os autores pesquisados, aconteceu que, no dia das núpcias, Cecília teria confidenciado ao noivo Valeriano o fato de que se encontrava sob a proteção direta de um Anjo, o qual a protegia e também guardava a sua virgindade. Ademais, teria dito “Não queiras, portanto, fazer coisa alguma contra mim, o que provocaria a ira de Deus contra ti”. O jovem Valeriano, embora fosse pagão, mostrou-se compreensivo com sua amada. Apesar disso, o marido cético “disse que somente acreditaria se contemplasse um anjo”. 
 
Após uma experiência divina (relatada por Zwilling), Valeriano se converteu, manifestando seu intento de respeitar a noiva em sua decisão. Na mesma noite, foi batizado. Em seguida, compartilhou o ocorrido com seu irmão, Tibúrcio, que, por sua vez, igualmente impressionado, também se converteu. Como consequência dessa conversão, ambos decidiram distribuir seus bens aos pobres.
 

A primeira canção de Santa Cecília
 
Durante os festejos de seu casamento, Cecília, vendo as maravilhas que Deus estava operando por meio dela, agradecida, cantou: “Senhor, guardai sem manchas o meu corpo e a minha alma, para que não seja confundida”. A tradição popular registra que aquele momento de inspiração tocou profundamente o coração de todos os presentes. Para o autor, “daí vem o fato de ela ser considerada a padroeira dos músicos cristãos” (Auggusto João).

 

As condenações de Valeriano e Tibúrcio
 
Os autores citados concordam que, naquele tempo, não era permitido aos cristãos sepultar seus mortos. Mesmo assim, os irmãos Valeriano e Tibúrcio se dedicaram à tarefa de recolher cadáveres martirizados e sepultá-los. Por tal contravenção foram presos e conduzidos à presença de Turcius Almachius (Túrcio Almáquio), então prefeito de Roma. Esse administrador, que já sabia da conversão dos jovens, exigiu que os dois abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. E, pelo fato de não renunciaram à fé cristã, foram realmente condenados à morte por decapitação.

 

A condenação e martírio de Santa Cecília
 
Em seguida, por cometer a mesma transgressão sepultando os corpos do marido e do cunhado, Cecília foi presa e levada a julgamento. Em sua versão dos acontecimentos, Auggusto João revela que, antes de mais nada, Cecília foi “intimada a revelar onde se achavam escondidos os tesouros” de Valeriano e Tibúrcio. Furioso por saber que já se encontravam nas mãos dos pobres e, diante da negativa de Cecília de abandonar a fé cristã, o prefeito determinou sua tortura e morte.
 
No encadeamento dos relatos, a bela Cecília foi condenada a morrer no caldário do palacete de Turcius Almachius. A acusada teria sido, então, colocada em banho fervente que provocaria a sua morte, ou asfixiada pelos vapores d’agua ou queimada. Conta a lenda que, mesmo agonizando, Cecília cantava devotadamente. Milagrosamente nada lhe aconteceu. Todos os que testemunharam esse evento ficaram impressionados pela forma como aquela frágil jovem enfrentava a morte.
 
Ao constatar que aquele martírio não seria suficiente para executá-la, o cruel prefeito ordenou que cortassem a cabeça de Cecília. Contudo, a lenda narra que o experiente carrasco, mesmo depois de três golpes, não conseguiu sucesso em seu intento, o que fez com que, naquele momento, o algoz – integrante da guarda romana -, de joelhos, aceitasse a fé cristã.
 
Cecília permaneceu viva por mais três dias, recebendo visitas, aconselhando e convertendo amigos e admiradores. Nesse espaço de tempo, ciente de sua iminente morte, Santa Cecília doou a maioria de seus bens aos mais necessitados. Sua casa, em particular, foi doada aos cristãos pobres e perseguidos dos primeiros séculos para se transformar em local de encontros religiosos. Por fim, convencida de que havia cumprido sua missão, dedicou seus últimos momentos ao canto de louvores a Deus.
 
 
A Basílica de Santa Cecilia in Trastevere
 
A casa de Cecília, localizada no antigo bairro de Trastevere – em Roma -, foi transformada em Igreja e, depois, em Basílica (século V). Atualmente, é conhecida como Santa Cecilia in Trastevere, uma das muitas igrejas em Roma dedicadas a esta Santa. Foi também nesse terreno que Cecília foi sepultada, em segredo, por cristãos romanos. Desde então, passou a ser venerada como mártir. 
 
Para Carin Zwilling, foi o próprio Papa Urbano I, Pontífice da Igreja Católica entre 222 e 230, quem depositou o corpo de Cecília naquele local. Sabe-se que o mesmo terreno se transformou, posteriormente, no conhecido cemitério de São Calisto (Catacumbas de São Calisto), no qual encontram-se os túmulos de diversos papas dos séculos III e IV.
 
A localização do túmulo de Santa Cecília permaneceu oculto até o século IX, quando, em sonho, Cecília apareceu para o Papa Pascoal I (pontificado de 817 a 824) que, à época, se ocupava com a reforma do Santuário. Nas palavras de Zwilling, a Santa revelou-se ao Papa “para indicar-lhe onde estavam seus despojos. Logo se encontrou o caixão de cipreste que guardava suas relíquias e, ao abri-lo, descobriu-se que o corpo da Santa estava ‘intacto’. Cuidadosamente, ele fez com que o corpo fosse transportado para a cripta da Basílica.
 
Já finalizando, renomados pintores e escultores, ao longo do tempo, prestaram homenagens a essa personalidade que “ficou conhecida como uma santa virgem e exaltada como modelo perfeitíssimo de mulher cristã” (Zwilling). Em geral, embora não existam indícios históricos atestando que tivesse tocado algum instrumento em específico, é representada, em suas imagens, sempre segurando um ou mais instrumentos musicais. Uma dessas obras artísticas, mais precisamente a de autoria do italiano Rafael Sanzio (1483-1520), tem o mesmo título do texto “O êxtase de Santa Cecília”, postado em 11/11/2019.

Leia também: 

(Texto publicado em 11/11/2019)

The Ecstasy of St. Cecilia (c.1514)
Raffaello Sanzio (1483-1520) e ajudantes
Fonte: wikimedia.org

Referências:

 
JOÃO, Antonio Auggusto. Mulheres de Deus – Volume II. São Paulo: Antonio Auggusto João (Editor), 2016, 158 p.
 
TUDELA, Ana Paula. Irmandade da Gloriosa Virgem e Mártir Santa Cecília dos Professores da Arte da Música da Corte de Lisboa (1603-1834). Évora, 2014. 14 p. Comunicação apresentada na Residência Cisterciense 2014, no Convento de São Bento de Cástris, Évora, Portugal. Disponível em: <https://independent.academia.edu/AnaTudela>. Acesso em: 18 nov. 2019.
 
WHITE, Cynthia. Cecilia (verbete). In: FERGUSON, Everett. (Ed.). Encyclopedia Early Christianity. 2. ed. New York: Garland Publishing, 1998, pp. 227-228.
 
ZWILLING, Carin. Santa Cecília – arte e devoção através da música. TEOLITERARIA – Revista de Literaturas e Teologias, [S.l.], v. 5, n. 9, p. 147-183, jul. 2015. ISSN 2236-9937. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/teoliteraria/article/view/23441>. Acesso em: 18 nov. 2019. 
 

Título: Santa Cecília com um anjo segurando uma partitura (1617/1618).
Autor: Domenico Zampieri – Le Dominiquin  (1581–1641).
Local atual: Departamento de Pinturas do Museu do Louvre.
Fonte: commons.wikimedia.org

 

Outros textos do autor:

O violino e sua representação no Renascimento (postado em 12/7/2019)



O violino e suas origens (postado em 2/8/2019)

Os 24 Violinos do Rei (postado em 20/4/2019)

Les Petits Violons (postado em 16/9/2019)

La Grande Écurie (postado em 2/10/2019)

A música na corte do "Rei-Sol" (postado em 3/10/2019)

Lully e o "cajado" da morte (postado em 18/9/2019)

A família francesa do violino (postado em 9/3/2020).

“O que é uma orquestra?” (postado em 14/3/2019).   

Conjuntos pré-orquestrais (postado em 22/3/2019)
 

A “Orquestra” de Monteverdi (postado em 4/4/2019)

A batuta (postado em 23/5/2019) 


Atribuições do regente de orquestra (postado em 12/7/2019)

 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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