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Pequenos Milagres

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25.05.2012 - 19:38:33

O câncer causado pelo amianto mata. O Senhor Kaufmann morreu assim. Ele cuidava do parque, onde costumava brincar com as crianças, quando eram pequenas. Havia trabalhado durante muitos anos em uma fábrica da Eternit e quando foi cuidar do parque, já estava doente. Algumas pessoas que frequentavam o lugar sabiam, outras não. Aquele parque era seu paraíso possível. Sua forma particular de lutar contra a doença, infelizmente imbatível.

O Senhor Kaufmann era uma pessoa especial, cuidava do enorme parque como se fosse sua própria casa. A cada planta dedicava um tratamento único, cada detalhe merecia sua atenção. Criava coelhos para as crianças admirarem com grandes olhos, preparava ninhos para os patos do laguinho colocarem seus ovos e não se cansava de inventar festas e brincadeiras para as famílias do bairro.

No Natal, criava um presépio com animais de verdade, vacas, ovelhas, burrinhos  e montava carrosséis antigos, movidos à mão. No verão, no dia da festa nacional, soltava centenas de balões vermelhos, onde cada criança escrevia um desejo. Além de uma grande fogueira, músicos tocando acordeão e as brincadeiras de corrida de saco, pula pula, pau-de-sebo. Nada disso era óbvio, em nenhum outro parque da cidade havia tantas festas, tantas brincadeiras, como no nosso.

Dizem que o câncer causado pelo amianto é cruel, antigamente conhecido como “pulmão de pedra”, leva pouco a pouco à perda da capacidade respiratória, causando a morte – uma morte lenta. Não existem terapias ou formas de amenizar o sofrimento. Naquela época, quando ainda cuidava do parque, muitos dos seus antigos colegas de trabalho já haviam morrido.

Desde a década de 1940, comprovou-se cientificamente que o amianto é causador desse tipo de câncer. Por isso, ele é proibido em 66 países. A Noruega foi o primeiro país a proibir em 1984, a Suíça em 1990 e a França – onde ainda há processos que se arrastam na justiça –  apenas em 1997. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 107 mil pessoas morrem, anualmente, vítimas de câncer causado por amianto em todo mundo. A estimativa é de que, entre 1995 e 2009, cerca de 250 mil pessoas teriam morrido só na Europa.

Em fevereiro desse ano, os proprietários e fundadores do grupo Eternit, o suíço Stephan Schmidheiny e o barão belga Jean-Louis de Cartier, foram condenados a 16 anos de prisão na Itália. No Processo de Torino, como ficou conhecido, o tribunal considerou-os responsáveis pela morte de cerca de três mil pessoas, nas fábricas italianas do Grupo Eternit.

Os juízes concluíram – em 733 páginas – que os acusados agiram em plena consciência, enganando gravemente a sociedade com relação aos riscos ligados ao amianto e por isso nenhuma medida atenuante seria levada em conta. “Os acusados agiram motivados por uma vontade criminosa”  foi a conclusão.

Desde que soube disso, me pergunto – porque no Brasil não existe nenhuma proibição?  A minha infância foi marcada pelas propagandas das famosas telhas Eternit e muitas são as famílias que ainda hoje vivem sob telhas de amianto e bebem água de caixas d’água Eternit.  Em Goiás – Minaçu – se encontra a única mina de amianto ainda em atividade no Brasil. Muitos parlamentares, médicos, lobistas e cientistas colaboram em um vergonhoso jogo de interesses,  no qual  muito pouco  valor é dado à vida humana.

Infelizmente, tenho ouvido nos últimos tempos, em diferentes situações, o seguinte raciocício – nosso planeta está superpovoado, se algumas pessoas morrerem, não é assim tão trágico. Não consigo escutar essas palavras sem sentir um frio na coluna. Um amargo na boca. Como se estivesse em um encardido filme nazista, com alguém tentando explicar, por uma lógica ilógica, as atrocidades cometidas.

Não engulo. A boca trava. Sinto-me em um pesadelo do qual gostaria de acordar, mas não consigo. Não se pode banalisar a vida humana, sob nenhum pretexto. É negar a própria existência. Negar laços de mãe e filho, de avós, tios, primos, irmãos, negar amizades antigas, negar o primeiro amor, o primeiro beijo. Pois todo ser humano vive seus pequenos milagres diariamente. E toda vida é intocável. Sempre.

O nosso parque hoje não é mais o mesmo, depois que  o Senhor Kaufmann  morreu com apenas 58 anos. Ainda existem suas grandes árvores, seu escorregador, suas flores, mas transformou-se em um parque normal, sem festas, sem carrossel, sem fogueira. Pouco antes de morrer, quando já estava muito fraco para trabalhar, mas ainda morava em uma casinha dentro do próprio parque, fizemos-lhe uma pequena homenagem.

As crianças desenharam, com traços coloridos e fortes, os momentos mágicos, inesquecíveis, que ele nos havia proporcionado. As lembranças dos dias de festa em seu pequeno paraíso terrestre. Fizemos um livro, com uma bonita capa de couro que ele recebeu emocionado e agradecido. Havia uma dedicatória da qual não me lembro, mas que poderia ter sido escrita assim – Descanse em paz, amigo, alguns anjos de plantão se ocuparão de espalhar sua história, como prova de quantos pequenos milagres uma única vida é capaz.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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