Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Os Borges Naves, que formam um dos núcleos familiares mais antigos em Goiás, vindos de Monte Santo de Minas, no sudoeste de Minas Gerais, vão realizar o seu terceiro encontro no dia 15 de novembro, no Clube Campestre da Associação dos Funcionários do Fisco do Estado (Affego), no Jardim Decolores, em Trindade. Todas as providências já estão adiantadas para um dia de atividades sociais e de confraternização, como também os contatos para localização de parentes próximos, para que participem. As duas primeiras reuniões, em 2017 e 2018, foram realizadas na fazenda do casal Marta e Otávio Borges Filho (Borginho), em Brazabrantes, GO, e a expectativa é que supere esses dois eventos, em termos de presenças, diante do interesse demonstrado pelos familiares já contatados. Antecedendo os encontros houve em 2016 uma tarde de jogos de futebol nessa fazenda.
Esse núcleo, como ressalta Walter Borges Naves, chegou em Goiás no início do Século XX, fixou-se na região Sul, mais precisamente em Buriti Alegre, Morrinhos e Caldas Novas, e tem uma característica: o casamento entre parentes próximos, muito comum entre eles. Cita como exemplo o casal pioneiro nessa busca por novos espaços, Antônio Romão Naves e Maria Vitória Naves, que eram primos primeiros. Walter, conhecido como ‘Pretinho’, que colabora com os organizadores do evento, nasceu em Anicuns, GO, e fez uma carreira brilhante no Fisco estadual, sendo o único a ocupar, em duas gestões, o cargo de diretor da Receita Estadual, o mais importante na estrutura da Secretaria da Fazenda do Estado, nos governos de Irapuan Costa Júnior e de Henrique Santillo. Aposentou-se em 1988.
Pioneiro
Natural de Monte Santo de Minas, município cujas raízes históricas remontam à época da mineração do ouro em Jacuí no século XVIII, Antônio Romão Naves seguiu a trajetória de seus ascendentes que, com a exaustão das jazidas na região e o seu consequente empobrecimento, passaram a procurar terras férteis nas proximidades para praticarem a agricultura. Filho de Constância de Souza Naves e Antônio Ferreira Maia, foi batizado em 12 de março de 1878, com 13 dias, tendo como padrinhos os tios João Naves de Souza e Lucinda Cândida de Souza.
O espírito empreendedor logo o fez buscar novos espaços e o destino seguinte foi mais longe, o Sul de Goiás, mais precisamente o município de Buriti Alegre, uma região promissora, com grande potencial e que começava a despertar o interesse de desbravadores. Foi o primeiro da família a se aventurar em busca de novas terras, nas quais pudessem tocar lavouras e criar gado, e logo teve a companhia do primo e cunhado Guilherme Naves de Souza.
Casou-se com a prima Maria Vitória, filha dos tios Luzia Clara Naves e João Cardoso de Souza, que tinha o apelido de ‘João Patrício’, e com essa iniciativa manteve um ritual de matrimônio entre parentes, como aconteceu muito entre seus familiares mais próximos. O casal teve sete filhos: João Naves de Sousa, que nasceu em 1960 em Igarapava, SP; José Naves de Sousa (Zé Branquinho); Analzira Naves de Sousa; Geralda Borges Naves; Irondino Romão Naves; Agnelo Romão Naves; e Maria Abadia de Jesus (Badiinha), além de criar João Bueno.
Analfabeto, mas bom de cálculo
Já instalado em Goiás, Antônio Romão recebeu um recado de que sua cunhada, Calista Naves de Souza, que se casara em 1894, tinha ficado viúva de Joaquim Borges de Carvalho, com 10 filhos e queria ficar mais próxima da irmã, Maria Vitória. Pegou o cavalo e foi buscá-la e às crianças. Calista e seus filhos, que assinam Borges Naves, nasceram em Igarapava, SP; ela, de 1866; o primeiro, Pedro, de 1895; Maria (Miloca), de 1896; Otaviano, 1898; João, 1900; Vespasiano, de 1902; Adriano, de 1905; Vitoriano, de 1906; Otavino, de 1907; Vitor, 1908; e Otávio, de 1912.
Calista comprou terras no município de Caldas Novas, onde se instalou com os filhos, em área hoje ocupada pela cidade de Rio Quente. Inclusive, há um ribeirão com o nome dela, que nascia em sua fazenda, onde plantou lavoura e criou gado. Um campinho onde jogavam futebol atualmente faz parte da área urbana dessa cidade.
Mais uma vez, prevalecendo seu espirito inquieto, sempre voltado para a exploração de terras agricultáveis, Antônio Romão Naves resolveu, com os filhos, deslocar-se para a cidade de Anicuns, onde abriu um comércio de tecidos para dar atividade ao filho mais novo, Agnelo Romão Naves, e adquiriu terras no município de Palmeiras de Goiás, GO.
Mais tarde, com o aumento da família em Goiás, esteve visitando, nos anos 1940, a região do Mato Grosso Goiano, com terras até então localizadas no município da antiga Capital, devolutas, pertencentes ao Estado, antes de decidir onde adquiri-las para instalar a todos. A opção foi pela área atualmente entre São Luiz de Montes Belos e Firminópolis, denominada ‘Córrego da Costa’, região de matas e boa fertilidade, de cultura, ligeiramente ondulada e cheia de guarirobas e bacuris, onde se instalaram filhos e genros.
Novamente coube a ele incentivar a cunhada Calista e seus filhos a virem explorar as terras do Mato Grosso Goiano, fixando-se no município de Anicuns, onde permaneceram os Borges Naves: Adriano, Otávio, Otavino, Vitor, João Borges, Vitoriano e Maria Miloca, cultivando terras e criando suas famílias. A viagem de Caldas Novas até o município de Anicuns durou 18 dias, de carro de bois, tocando animais de lida, gado etc.
Antônio Romão Naves, para ficar mais próximo dos filhos e sobrinhos, resolveu em 1947 mudar de Anicuns para Firminópolis, então um povoado com uma praça e uma Igreja. A mudança foi transportada em carro de bois, em duas longas viagens, que demoraram uns dois dias, numa distância de 100 km. Quando as crianças cansavam da lenta caminhada desciam do carro de boi e iam a pé ouvindo o cantar do carro.
As famílias tinha na agropecuária o seu meio de subsistência. A produção agrícola era transportada em carro de bois para Pires do Rio, última estação da Estrada de Ferro em Goiás, e ali comercializada, quando adquiriam querosene e sal. Nesta empreitada sempre foram requisitados José Naves de Sousa, que tinha o apelido de ‘Zé Branquinho’, por ter a pele muito clara, e João Borges Naves como carreiros.
Calista morava com o filho Otavino na fazenda Sapezal, onde faleceu já velhinha.
Antônio Romão Naves fazia questão de falar que era analfabeto e gostava de disputar com os netos quanto a cálculos matemáticos, para os quais tinha muita facilidade – falava o valor de um capado e a percentagem de ganho, fazia as contas de cabeça e anunciava antes deles. Na época, era comum os pais entregarem seus filhos para os avós criarem. Residindo em Firminópolis e cercado por prole numerosa, faleceu aos 93 anos de idade.
Participação na política
A família Borges Naves engrossou as fileiras da União Democrática Nacional (UDN), lutou pela emancipação política de Firminópolis, e a instalação se deu no dia 1º de janeiro de 1949, no Governo do udenista Jerônimo Coimbra Bueno, na presença do senador Alfredo Nasser e do deputado federal Wilmar da Silva Guimarães. O genro e sobrinho Vitoriano Borges Naves foi o primeiro Prefeito, nomeado pelo governador Coimbra Bueno, a quem coube implantar o município, e pioneiro numa iniciativa, o mutirão – para abrir ruas e construir melhorias para a cidade – que, mais tarde, ganharia fama pelas mãos do parente dele, Iris Rezende Machado. Voltou ao cargo depois, pelo voto direto.
Outro sobrinho, Otávio Borges Naves, também Prefeito, realizou um importante trabalho pelo município. Dentre as obras, a construção da estrada ligando Firminópolis a Paraúna, ao abri-la no espigão, onde não tinha córregos, o que não exigia obra de arte, como pontes etc.; e a abertura da estrada para o distrito de Campo Grande. Sua administração chamou tanto a atenção dos políticos que o então candidato a Senador por Goiás pelo Partido Social Democrático (PSD), Juscelino Kubitschek, fez questão de ir, na campanha, a Firminópolis, então uma cidade muito pequena e sem maior expressão política.
Muito correto e preocupado com as finanças municipais, Otávio vendeu sua fazenda para quitar compromissos da Prefeitura Municipal, e depois se mudou para Araguaína, então no norte de Goiás, onde comprou terras, formou fazendas e se instalou com a família. O primo Josino Naves, empresário e na época Prefeito de Buriti Alegre, orientou-o a não vender a propriedade rural em Firminópolis, mas ele foi irredutível.
Otávio implantou fortes raízes políticas no norte goiano, que fertilizaram: suas filhas Calista, advogada e professora, foi vereadora em Araguaína; Maria Helena, servidora do Banco da Amazônia S/A (BASA); e Otávia, diretora da Faculdade de Medicina. Seu irmão Romeu foi vereador em Muricilândia, onde hoje seu filho Alessandro é Prefeito Municipal, com boa performance administrativa.
Dos netos, filhos de Vitoriano Borges Naves, quatro fizeram opção pela carreira no setor público, passando em concurso para o Fisco estadual, e mesmo assim tiveram que enfrentar o jogo político, sendo perseguidos e lotados em cidades distantes. O primogênito, Valdivino, ingressou em 1960, como coletor estadual e foi transferido para Uruaçu, GO. O terceiro, Waterloo, também auditor fiscal do Estado, entrou em 1963, depois de ter sido jogador de futebol, como profissional, no Firminópolis Esporte Clube e no Galo da Montanha, de São Luiz de Montes Belos, e foi lotado em Ceres, GO. Wanderlei exerceu o cargo de agente fazendário na Secretaria da Fazenda. Todos já se aposentaram por tempo de serviço.
Vitoriano Filho formou-se em Medicina e exerce seu trabalho como médico oftalmologista.
Gestão tributária
Especialista em gestão tributária, trabalho a que se dedicou a vida inteira, o segundo filho de Vitoriano, Walter ‘Pretinho’, começou seus estudos no Grupo Escolar ‘Princesa Isabel’, em Firminópolis, onde fez o curso primário. Depois, mudou-se para Goiânia, concluindo o curso básico na Escola Técnica Federal de Goiás, em 1953/56, e o curso técnico de Contabilidade no Colégio Cinco de Julho, em 1961.
A sua carreira política ganhava os primeiros contornos, ele se articulava bem e tinha liderança na cidade, como mostraram as duas eleições para vereador que conquistou, ambas pelo PSD: em 1958, com a maior votação, e em 1962. Poderia se candidatar a Prefeito nas eleições seguintes, quando resolveu interromper a atividade política. Optou por exercer na sua plenitude o cargo para o qual fora concursado, com nomeação assinada pelo governador Mauro Borges.
Já casado em 1968, mudou-se em definitivo para Goiânia, onde cursou a Faculdade de Direito da Universidade Católica de Goiás.
Em novembro de 1988, ao ser indicado pelo governador José Wilson Siqueira Campos, do Partido Democrata Cristão (PDC), para ser o primeiro Secretário da Fazenda do Tocantins, Renê Pompeu de Pina convidou Walter ‘Pretinho’ para a Diretoria Geral dessa Secretaria, para organizar a estrutura administrativa e tributária do novo Estado. Como conhecia bem esse assunto, trabalhou de forma incansável para a sua implantação, o que possibilitou o pagamento dos 19 mil funcionários públicos do Tocantins já no dia 25 de janeiro de 1989.
Com o término do Governo, achando que não ficaria no Tocantins, foi surpreendido pelo convite do governador eleito Moisés Avelino, que era de agremiação adversária, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), para dar sequência ao trabalho que estava estruturando e implementando. Outra surpresa aconteceu em 1993, com a eleição do novo Prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos, do PDC, que o convocou para implantar a cobrança de impostos do município, o que foi feito a contento. Em 1995, eleito novamente Governador do Estado, Siqueira Campos o nomeou Diretor da Receita Estadual, quando concluiu a implantação de órgãos e unidades. Em 2004, eleito Prefeito de Palmas pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Raul Filho o convidou para retornar, mais uma vez, para a gestão tributária do município, como Diretor da Administração Tributária, quando deu continuidade à obra iniciada em 1993. Com o sentimento do dever cumprido a contento, em 2014 retornou em definitivo a Goiás, “ostentando com muito orgulho o título honorífico de cidadão palmense”, enfatizou.
“Saí chorando para voltar sorrindo”, afirma agora, depois de uma longa e rica trajetória, sempre com resultados positivos.