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Primeiras eleições municipais em Goianira e a trajetória de Waldemar Pires

17.07.2019 - 17:53:08
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Cidade pequena, pacata e com uma vida até então tranquila, Goianira viveu um clima tenso e agitado em suas primeiras eleições municipais, em outubro de 1960, menos de dois anos após sua emancipação de Goiânia, pois era distrito da Capital desde 1935. 
 
No confronto, as duas agremiações que já disputavam o poder político no antigo povoado de São Geraldo: a União Democrática Nacional (UDN), de oposição, com forte liderança local, de um lado, e, de outro, o Partido Social Democrático (PSD), então no poder. Todos se conheciam, a população se dividia e os grupos não se misturavam: os udenistas em seu canto e os pessedistas no deles.
 
Nesse primeiro pleito, as partes logo estavam unidas e começaram a escolher os nomes que disputariam a preferência do eleitorado, para preencher os cargos de Prefeito Municipal e de vereadores, sete no total, estes para o curto mandato de dois anos, e a afinação dos discursos.

O tempo de campanha era relativamente curto, em especial para os que ainda não tinham prática na área, e os palanques representavam o momento de maior ligação dos candidatos com os eleitores, quando expunham suas ideias e propostas e desferiam seus ataques aos adversários.

 
Quem se recorda dessa movimentação política, que vivenciou num momento de definições em sua vida pessoal, então com 23 anos de idade e sem formação escolar, é Waldemar Martins Pires, 81 anos, que optou pelo Serviço Público, como fiscal arrecadador do Estado, aposentando-se em 1991.

Em depoimento a este jornalista, que planeja um livro sobre a história do Legislativo de Goianira, ele relatou sua curta militância partidária: havia tido algumas experiências de trabalho, sem se fixar especificamente numa, e conseguiu uma proeza na sua primeira incursão pela política – a eleição, pela UDN, para integrar a primeira Legislatura da Câmara Municipal e, logo em seguida, ser eleito o primeiro Presidente do Legislativo goianirense, que conduziu até ser convidado para atuar na Prefeitura, na área de fiscalização.

       
Ele credita seu sucesso eleitoral a quem sempre acompanhou: José Rodrigues Naves Júnior, “que organizava tudo no vilarejo, de reuniões sociais a encontros políticos. Era uma pessoa solidária com todos e encontrava solução aos muitos pedidos que recebia.

Foi ele quem me deu o primeiro emprego, em meados da década de 1950, como escrevente juramentado no Cartório de Registro Civil, do qual era titular, e me convidou a ingressar na UDN, partido que liderava no povoado, sendo responsável pelas principais conquistas do distrito, inclusive a emancipação política e a instalação da Comarca”, disse, para completar: “Ele fazia tudo pela comunidade, onde chegou quando ainda era a vila de São Geraldo”. 

 
Seguiu também a orientação do pai, Bertholdo Martins Pires, que era amigo leal e companheiro de luta de Naves Júnior, sempre surgindo nos momentos de maior tensão política para apoiá-lo e lhe dar a devida proteção. Simples, calado e valente, Bertholdo quase não saía de casa e se impunha sem precisar mostrar força. Todos o respeitavam.

“Tinham medo dele”, afirmou. Lembrou-se também que no final da década de 1940, certa vez, policiais da Delegacia Estadual de Captura, de Goiânia, compareceram ao povoado para intimidar os políticos, em especial os da oposição, quando prenderam alguns integrantes da UDN, mais com ameaças do que com violência. Uma recomendação do delegado local, Josias Januário da Silva, foi repassada aos policiais, para não tocarem em duas pessoas: o líder ‘Zé Navinho’, “ordens do dr. Pedro, que admira e respeita o trabalho dele”, e Bertholdo.
 


(
Jales Naves e Waldemar Martins Pires. Foto: Divulgação) 
 
Seu começo
Primogênito de sete irmãos, Waldemar nasceu em 5 de dezembro de 1937, na vila de São Geraldo, viveu e conviveu com as crianças daquela época, pois os pais moravam perto da praça da Igreja, na então região central do povoado, fez o curso primário no Grupo Escolar ‘José Rodrigues Naves’, e chegou até a ser aprovado no exame de admissão ao ginásio, mas não prosseguiu os estudos.
 
O pai, nos tempos da construção de Goiânia, conduziu diversos carros de boi com madeira para as obras da nova Capital, em especial para erguer o Palácio das Esmeraldas, uma edificação que chamava a atenção de todos. Ele não sabe precisar quanto de madeira foi retirada da fazenda Boca da Mata, mas se lembra que foram muitos carregamentos. 
 
Na volta a São Geraldo trazia produtos de primeira necessidade, como açúcar, sal e querosene. Depois, o pai foi sapateiro. A mãe, Brasilina Resende Pires, cuidava da casa e da criação dos filhos; os outros seis: Wilmar, Waldomiro, Wilma, Wanderley. Walter e José Martins Pires, mesmo nome do avô paterno.

Bertholdo, que nasceu e cresceu na fazenda São Domingos, e Brasilina se casaram quando ela tinha apenas 13 anos; a cerimônia foi celebrada pelo padre Pelágio Sauter. Convocado, em 20 de junho de 1956 foi servir ao Exército brasileiro, no 6º Batalhão de Caçadores de Ipameri, no sudeste de Goiás, e ali ficou até 7 de maio de 1957, saindo como reservista de primeira categoria.

Entre agosto daquele ano e janeiro de 1959 foi secretário da Prefeitura Municipal de Córrego do Ouro, a convite do prefeito Belmiro Alexandrino da Costa, que conhecia o pai dele, Bertholdo, que, quando jovem, trabalhara na fazenda do político, em Trindade. 

 
Ainda em 1959 trabalhou nove meses na construtora Kosmos, de asfalto, em Goiânia, mudando-se em novembro desse ano para Brasília, para trabalhar como auxiliar administrativo na Empresa Brasileira de Engenharia (EBE), por quatro meses, quando retornou a Goiânia, indo para a Sogomac, como vendedor, durante nove meses, onde ficou até janeiro de 1961.
 
Envolvimento com a política
Nesse meio tempo ele já estava envolvido com o processo eleitoral, atuando com Durval de Assis Pereira, que tinha um taxi e era bem relacionado. Logo construiu e afiou um discurso, que atacava duramente a liderança do PSD, mostrando que o partido “era mais de falação e intriga do que de realizações em benefício da população”.

“Tentou atrapalhar a emancipação, bandeira da UDN, não conseguiu, e depois quis usufruir dessa importante conquista para o pequeno distrito, a sua independência administrativa e financeira, já permitindo alçar vôos maiores, conforme o desejo de sua população”, afirmou. 

 
Logo viu a aceitação de suas falas, que foram correspondidas nos votos Na apuração, a UDN fez quatro vereadores, contra três do PSD, e logo a legenda sobressaiu, fazendo mais proposituras e conquistando espaço. A primeira sessão ordinária da Câmara Municipal de Goianira foi realizada no dia 1º de fevereiro de 1961, em salão do Grupo Escolar, com assoalho de tábuas e que ficava na praça central.

O vereador Dorvalino Pereira da Silva, da UDN, apresentou Projeto de Resolução instituindo o regimento interno da Câmara, que foi aprovado por unanimidade. Seguiu-se a formação das comissões técnicas, com a função de realizar estudos e a análise das propostas apresentadas pelos vereadores e encaminhamento de parecer para apreciação do Plenário do Legislativo.

 
Nesse mesmo dia foram eleitos para compor a Mesa Diretora no primeiro ano do mandato os vereadores Waldemar Martins Pires, da UDN, como presidente; Geraldo Luiz de Almeida, do PSD, 1º secretário; e Dorvalino Pereira da Silva, 2º secretário.
Waldemar apresentou poucos projetos, que foram aprovados, como o que denominou a praça da Igreja de ‘Padre Pelágio’, em homenagem ao pároco que deu muita assistência espiritual na região e ajudou na construção da vila de São Geraldo, e o que deu o nome de ‘José Antônio Gabriel Filho’, um pioneiro, à rua que ia da rodovia estadual, em frente ao cemitério, ao centro da cidade, e que, poucos meses mais tarde, receberia a sede dos três poderes do Município.
 
Como a função de Vereador não era remunerada, decidiu aceitar o convite do primeiro prefeito eleito, que era da UDN, João Augusto Gonçalves, e foi nomeado Fiscal Geral da Prefeitura Municipal, quando se licenciou da Câmara, sendo substituído pelo vereador Antônio Romeu Larozzi.
 
Waldemar ficou menos de dois anos no cargo, deixando-o para acatar convite do prefeito de Goiânia, Hélio Seixo de Brito, e ali trabalhou no segundo semestre de 1962. Em dezembro desse ano resolveu assumir outra tarefa, indo para a Enac, por 18 meses, de onde saiu para trabalhar nas lojas Credilar, como vendedor. 
 
Retornou à Prefeitura de Goianira, por seis meses, que deixou em janeiro de 1966 para assumir, dois meses depois, na Cooperativa de Consumo dos Servidores do DERGO, um modelo coletivo de fornecimento de bens de consumo, de primeira necessidade, a preços mais em conta para seus cooperados, onde ficou até janeiro de 1969.

Na época, havia prestado concurso público, o primeiro no Estado, para exator do Fisco, da Secretaria da Fazenda do Estado, foi aprovado e nomeado em fevereiro daquele ano, no Governo de Otávio Lage, cargo no qual ficou até se aposentar. 
 

Casou-se duas vezes: com Luzia Alves Nepomuceno teve dois filhos – Robson, funcionário da Universidade Estadual de Goiás, e Leila, professora, já aposentada; e com Neusa Tavares dos Santos teve outros dois filhos, ambos médicos: Lucas especializou-se em Gastroenterologia, na Residência Médica no Hospital Sírio Libanês; e Leandro, clínico geral, atuando em Ceres, está se transferindo para o Paraná, onde passou em concurso público para Médico Legista.

Jales Naves é escritor e jornalista

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por Jales Naves

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