Logo

A transformação do varejo e os desafios dos lojistas

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.04.2019 - 14:07:00

O varejo mundial passa, atualmente, por um momento de transformação que tem impacto no setor de shopping centers. Não é por outro motivo que os centros de compras vêm investindo em lazer e serviços, bem como no comércio eletrônico, interligado com as lojas. Não obstante este quadro, é necessário destacar que os shopping centers são uma realidade mundial, bem como possuem uma significativa relevância no varejo.
 
Mesmo quando analisados os números sobre os fechamentos de empreendimentos do gênero nos Estados Unidos, percebemos que são pequenos, comparados com a quantidade de shoppings existentes por lá. Além do mais, em que pese as oportunidades, os imóveis de rua não garantem a mesma performance, no que diz respeito ao fluxo de consumidores.
 
Neste contexto, ao observar o mercado brasileiro atual, vale constatar que, depois de crescer exponencialmente na última década, há um gargalo no setor, fruto da crise sem precedentes que vivemos e o chamado “custo Brasil” (como exemplo, temos as quantias impeditivas cobradas de IPTU pelos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro), além da concorrência predatória verificada em algumas praças.
 
Centros de compras em situação de alta vacância, baixo fluxo de consumidores e inadimplência elevada são uma realidade. Soma-se a esse cenário o fato de que muitos lojistas estão insatisfeitos com a gestão dos centros de compras no que tange aos valores cobrados a título de custo de ocupação: aluguel mínimo e percentual, aluguel em dobro em dezembro, condomínio/encargos comuns, fundo de promoção e despesas específicas. Além da pouca flexibilidade nas negociações.
 
Diante deste quadro, é relativamente comum os lojistas em expansão conseguirem condições especiais de entrada nos centros de compras, como o custeio da obra de instalação do estabelecimento e formatação diferenciada do “custo de ocupação”. Ademais, mesmo empreendimentos antes campeões de venda, hoje apresentam dificuldades em angariar marcas de destaque. Não há dúvida que, salvo exceções, nos dias atuais os aluguéis das lojas novas são menores que os valores pagos pelos inquilinos que estão funcionando nos empreendimentos desde antes da “crise”.
 
O lado cruel é que, de fato, os lojistas antigos vêm enfrentando forte resistência dos shoppings em reduzir os aluguéis e, assim, viabilizar as suas operações. A impressão é que os bons e fiéis lojistas estão compensando as perdas naturais da crise e do setor. Infelizmente, além do crescimento das ações de despejo, este cenário levou ao aumento do número de ações judiciais promovidas nas quais se buscam proteger os pontos e ajustar os aluguéis, medidas cruciais para a sobrevivência das operações varejistas.
 
E, neste ponto, verifica-se uma vantagem do shopping, pois, ao contrário do comerciante, tem em seu poder todas as informações sobre os valores dos locativos praticados em seu empreendimento e dos faturamentos das lojas. Isto é, esta assimetria de informações confere poder de negociação em favor dos locadores de espaços, lembrando que o setor é oligopolizado por natureza, o que, igualmente, enfraquece o poder de barganha dos comerciantes, que dependem dos shoppings para escoar seus produtos.
 
Sob estes ângulos, com o objetivo de evitar a fixação de quantias irreais de aluguéis nas ações revisionais de aluguel e renovatórias de contratos de locação, é fundamental conceder um peso maior às lojas novas nas avaliações judiciais dos aluguéis, tendo em vista que as operações antigas estão numa base que não condiz com a realidade de mercado atual. Cumpre registrar que nas avalições judiciais de aluguéis o método consagrado pelas normas técnicas é o “comparativo direto”, por fatores e/ou inferência estatística.
 
Por fim, também com a finalidade de não gerar situações de enriquecimento sem causa em prol dos locadores, é importante que nas avalições judiciais sejam levados em conta os descontos temporários dados eventualmente nos locativos dos lojistas e permitir em pé de igualdade a abertura das amostras, entenda-se os contratos/aluguéis que serão utilizados na comparação pelo perito judicial.
 
*Daniel Alcântara Nastri Cerveira é advogado, sócio do escritório Cerveira Advogados Associados, autor do livro "Shopping Centers – Limites na liberdade de contratar", professor do curso MBA em Varejo e Gestão de Franquias da FIA – Fundação de Instituto de Administração, professor de Pós-Graduação em Direito Imobiliário do Instituto de Direito da PUC/RJ e em Direito Empresarial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, integrante da Comissão Jurídica da ABF – Associação Brasileira de Franchising 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Daniel Alcântara Nastri Cerveira

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]