Logo

Simplificando o divórcio

01.03.2019 - 14:07:00
WhatsAppFacebookLinkedInX

No começo de um relacionamento a euforia não deixa ninguém reparar as falhas do outro. Pretende-se enxergar unicamente as virtudes, desviando-se o olhar dos pequenos deslizes. Esse deslumbramento é chamado, pelo cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, de cegueira otimista. Nela, “assume-se a biografia do par com a calmaria entusiasmada. Há uma generosidade no contrato, tudo pode ser resolvido, consertado, arrumado.”
 
Contudo, quando na “balança dos sentimentos”, a união apresenta mais desvantagens do que vantagens, o casal começa a discutir a separação. Na linguagem poética de Carpinejar, isso ocorre quando “não se fala dele ou dela como uma novidade, mas como uma doença antiga, uma enxaqueca, uma tia distante, ou quando reclamam um do outro com uma indiferença mortuária.” Nesse estágio, “são mais cansados do que casados.”
 
O Direito, com a objetividade que lhe é peculiar, ministra apenas um remédio amargo a esse desalento: o divórcio. Hoje, o único requisito necessário para se divorciar é o desafeto, a vontade de não mais se relacionar com aquela pessoa que, um dia, tanto se amou. Já não mais se exige que se aguarde determinado tempo para se divorciar e nem tampouco se impõe qualquer outro empecilho para dissolução do casamento.
 
Por conta dessa evolução social, o sistema jurídico tem simplificado cada vez mais o doloroso processo de divórcio. Atualmente, é possível se divorciar até mesmo num cartório de tabelionato de notas, bastando, para tanto, que haja consenso entre os cônjuges e que inexistam filhos menores ou incapazes, podendo constar na própria escritura a partilha dos bens do casal, bem como a eventual fixação ou a renúncia de pensão alimentícia.
 
Se o casal tiver filhos menores ou se não houver consenso sobre a partilha dos bens, a pensão alimentícia, a guarda e as visitas dos filhos, o divórcio deverá ser feito pela via judicial. Nesse caso, pode-se propor uma ação de divórcio consensual, quando, apesar de possuírem filhos menores, as partes não têm nenhum conflito de interesses acerca da divisão de bens, da guarda, da pensão e da visitação dos filhos, cujo processo, embora judicial, tende a ser mais simplificado e rápido. Entretanto, se houver divergência sobre alguma dessas coisas, esse conflito de interesses só poderá ser dirimido por um Juiz de Direito por intermédio de uma ação de divórcio litigioso, cujo processo é desgastante e demasiadamente longo.
 
Um processo de divórcio que se inicie litigioso pode-se converter em consensual, desde que as partes entre em um acordo sobre os pontos em que divergiam. De toda sorte, não é possível que um cônjuge se oponha ao próprio divórcio, isto é, que retire do outro o direito de pedir a dissolução do casamento. Só se pode divergir sobre questões relacionadas ao divórcio, como a partilha dos bens comuns, a guarda, as vistas e os alimentos dos filhos, por exemplo. Mas, o direito que qualquer cônjuge tem de pedir o desfazimento do casamento, não pode ser obstado pelo outro cônjuge.
 
Nessa perspectiva, o Novo Código de Processo Civil trouxe a possibilidade do Julgamento Antecipado Parcial do Mérito. Dessa forma, mesmo em um processo de divórcio litigioso, é possível que o Juiz dissolva o matrimônio logo no começo do processo, ordenando que se expeça mandado de averbação ao cartório em que foram celebradas as núpcias para alteração do estado civil dos ex-cônjuges, prosseguindo-se o processo para dirimir os conflitos relacionado à partilha dos bens, à pensão alimentícia do ex-cônjuge e dos filhos, bem como à guarda e às visitas destes.
 
*Lucas Coutinho é advogado do escritório Dayrell, Rodrigues & Advogados Associados, especialista em Direito de Família. 
 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Lucas Coutinho

*

Postagens Relacionadas
Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]