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Deixem o artista morto em paz

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27.04.2012 - 12:07:39


Foi assunto geral no mundo pop o “show” de Tupac Shakur no encerramento do festival Coachella, realizado no último final de semana nos EUA, mais especificamente na Califórnia. O rapper teria subido ao palco junto de seus parças Dr. Dre e Snoop Dogg, deixando a multidão boquiaberta. E o verbo ter está nessa conjugação na última sentença pelo simples fato de que Tupac está morto desde 1996. Tem muita gente que diz que o cara está vivinho da Silva pela quantidade gigante de trabalhos póstumos lançados por ele. Vai saber. Mas, até que se prove o contrário, o fato é que o cara tomou quatro balaços em Las Vegas há 16 anos, após ter assistido uma luta de boxe de Mike Tyson. E o “show” do último final de semana só possível por conta de um efeito de ilusão ótica. O tal do holograma.

Bastou cair na internet a notícia do “show” de Tupac que a boataria tomou conta. Vários artistas que já nos deixaram estão com turnês especuladas. Os urubus não param de ver lucro no óbito alheio. Os primeiros nomes da lista de defuntos que podem “subir” aos palcos novamente são os dos reis do pop e do rock, Michael Jackson e Elvis Presley. É muita necrofilia para meu gosto.

A família de Michael já divulgou que planeja uma turnê do Jackson 5 com a presença virtual do membro familiar mais famoso. Por outro lado, Elvis se juntaria a Justin Bieber para shows ao redor do mundo. Até mesmo uma extensão do que rolou no Coachella, com o holograma de Tupac junto da presença real de outros rappers, foi cogitada. Repito: é necrofilia demais para mim. Acho a mais pura falcatrua a proposição de tais turnês. E acho a mais pura idiotice pagar um ingresso caríssimo para assistir um holograma. Mas é preciso dizer que penso que tais iniciativas serão bem sucedidas comercialmente falando. O fã gosta de ser enganado. E a prova cabal disso é o sucesso que várias bandas covers fazem mundo afora. Em uma capital periférica como Goiânia de um país que só agora entra pesado na rota dos grandes shows internacionais, banda cover tem status redobrado.

Nunca entendi direito esse fetiche pelo cover. Acho que gente assim, na ausência de mulheres, se satisfaz com travestis. Afinal, o travesti é a mulher cover. É quase tudo igual como o original. Só um detalhe é o que diferencia ambos. O problema é que nos dois casos, das bandas e das mulheres, o detalhe é fundamental. E, como dizem, o diabo mora nos detalhes. Uma banda cover não tem aura, aquele negocinho que Walter Benjamin nos ensinou há décadas. No caso do holograma, a coisa é mais séria ainda. Se trata de um simples playback com uma imagem artificial se contorcendo à frente. Malandragem de quem propõe e estupidez de quem compra.

Mas como dinheiro de trouxa é matula de malandro, as turnês de holograma vão rolar soltas. Serão rentáveis e bombarão mundo afora. Enquanto a galera vai lá ver efeito de luz, eu prefiro ficar torcendo para os velhinhos decrépitos cujo trabalho eu amo venham tocar no Brasil. Prefiro ver o real em decadência física e estética do que o falso no auge.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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