Logo

O “velho” e o “novo” na política brasileira

12.02.2019 - 18:45:18
WhatsAppFacebookLinkedInX

Com a discussão acalorada que ocorre nos últimos tempos sobre o “velho” e o “novo” na política, exacerbada pela disputa da presidência do senado brasileiro, vale a pena indagar: seria sempre o “novo” melhor que o “velho”? Ou, melhor ainda, alguém “novo” seria um inovador? Nos parece que vale a pena enfatizar a distinção entre os conceitos.
 
Inicialmente, vamos contextualizar: Renan Calheiros foi derrotado na corrida ao cargo de presidente de senado, marcado como representante da “velha política”, viciada e incapaz de trazer benefícios à Administração Publica. Foi eleito para o cargo, após um verdadeiro show de horrores protagonizado pelos senadores, Davi Alcolumbre, representante da “nova política”, alguém que traria nova face às ações do senado. 
 
Nada mais equivocado. Alcolumbre não tem nada de “novo”: investigado por mal feitos, a única novidade em Alcolumbre é o seu nome. Ninguém jamais tinha ouvido falar dele fora de Brasília (e talvez nem mesmo lá). Contudo ele foi apoiado pelo novo Ministro da Casa Civil, concretizando assim a sua chegada a presidência da casa.
 
Contudo, uma coisa é certa: não se espere inovação em suas ações. Para Lynn, a inovação no governo estaria devidamente definida como uma transformação fundamental, disruptiva e original das tarefas essenciais da organização. No entendimento deste autor, a inovação muda estruturas profundas, modificando-as permanentemente. Alguém, em sã consciência, espera que o “novo” presidente do senado se encaixe nesta descrição?
 
O autor Henry Mintzberg, em sua clássica obra “O Processo da Estratégia”, argumenta que mudar uma visão ou uma estrutura sem mudar mais nada é tolo, apenas um gesto vazio. Em outras palavras, onde quer que você intervenha nessa equação, tem que mudar tudo que está embaixo. Alcolumbre claramente não tem a intenção de mudar estrutura ou trazer uma nova visão na Administração Publica. Ele é apenas um instrumento em uma ação, até o momento, descoordenada e caótica da nova gestão. Descoordenada, pois ele não era a escolha prioritária de outro ministro influente do novo governo, Paulo Guedes (este optara pelo “velho” Renan).
 
Vejamos como outro país, referência para a nova gestão, enfrenta a questão? Nos Estados Unidos da América, os congressistas “novos” são chamados de backbenchers (em tradução literal, banco de trás) pois não assumem o protagonismo das ações do congresso (por esta razão ficam posicionados nas ultimas fileiras).

Aos congressistas “velhos” são reservadas as posições privilegiadas, e as ações relevantes partem destes atores. A experiência acumulada por estes congressistas ao longo das legislaturas é apreciada e colocada em posição de destaque. Muitas condutas inovadoras, inclusive, partem das proposições dos “velhos” políticos. Aos “novos” resta observar e aguardar a sua oportunidade. Se forem reeleitos, os “novos” vão galgando as fileiras do congresso, chegando paulatinamente às cadeiras da frente do congresso. Como podemos ver, lá o “velho” é melhor que o “novo”.
 

Em razão de uma cultura totalmente distinta e da perpetuação do patrimonialismo, no Brasil os “velhos” congressistas não encarados sempre como a “pior” alternativa. Sua experiência em temas administrativos não é considerada e o político “novo”, mesmo com pouca experiência e pouco trato com assuntos legislativos, é a escolha da população.
 
Cabe aqui um pequeno comentário sobre a política de nomeação dos novos ministros: para atender demandas de grupos que o apoiaram durante a campanha, o presidente adota o discurso do “novo” contra o “velho”. Contudo, ao assim o fazer, ele desvirtua a política de trocas (legítimas) entre o Palácio do Planalto e o Congresso, causando um previsível desgaste em votações vindouras de projetos de interesse do governo. Ao agraciar o discurso da famosa bancada BBB (Bala-Biblia-Boi) em detrimento dos anseios dos partidos políticos, a nova gestão se coloca em posição de risco em projetos de relevante interesse nacional. Alguém tem que avisar que a campanha já terminou…
 

*André Luis Fortes Unes é Mestre Profissional em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública e Empresas da Fundação Getúlio Vargas (EBAPE/FGV). Autor da dissertação
“Por que Mudar? A virada de jogo na fiscalização da ANS”.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por André Luis Fortes Unes

*

Postagens Relacionadas
Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]