Logo

Temer encerra ciclo e monta base para sucessor

WhatsAppFacebookLinkedInX
30.12.2018 - 08:49:35

Brasília  – Os 963 dias de governo de Michel Temer marcaram uma mudança brusca nos rumos da política econômica até então adotada pelo PT desde 1.º de janeiro de 2003. Por isso mesmo, anteciparam em mais de dois anos e sete meses a entrada em vigor de um projeto liberal na economia, desestatizantes e fiscalista, que agora deverá ser adotado e ampliado pelo governo de Jair Bolsonaro. 
 
Com Temer, o Estado intervencionista idealizado por Dilma Rousseff e por seu partido, que praticamente quebrou a Petrobrás pelo controle de preços na tentativa de não impactar a inflação (sem contar os problemas com a corrupção), anárquico no controle dos gastos públicos e na busca do equilíbrio fiscal, deixou de existir. 
 
Portanto, o modelo de administração adotado por Temer acabou por se tornar, involuntariamente, na melhor transição de governo que Bolsonaro poderia desejar. Sem contar que o País foi retirado da recessão mais profunda pela qual passou desde o governo de Fernando Collor. A economia cresce lentamente, mas cresce, e há até uma recuperação do emprego. As contas públicas estão sob controle e Bolsonaro pode, daqui para frente, fazer o barco navegar.

Quando Temer chegou à Presidência, em maio de 2016, depois de servir a Dilma Rousseff como vice-presidente por 5 anos, 4 meses e 12 dias, ele não teve de correr atrás de um modelo de governo, já que o de Dilma apontava para um rumo só: o precipício. Temer já tinha uma proposta de governo pronta. Não que pensasse em dar um golpe, como o PT espalhou por tanto tempo. Nada disso. O que houve é que Temer e o PMDB (hoje MDB), do qual era presidente, percebendo que a política econômica dos petistas não se sustentaria, e que a apoio político no Congresso estava ruindo, decidiram se divorciar do parceiro e se preparar para as eleições municipais de 2016 e presidencial, de 2018.
 
Para tanto, precisavam de um programa de governo muito diferente do que o PT vinha adotando e que estava levando tanto o partido de Dilma Rousseff quanto seus parceiros para a bancarrota. A queda da credibilidade e da confiança do eleitor no PT era previsível, pois os escândalos de corrupção envolvendo líderes do partido se somavam à incapacidade de gestão. E Dilma Rousseff se encalacrava mais a cada tentativa de mudança na política econômica. 
 
Ponte. A Fundação Ulysses Guimarães, ligada ao PMDB, encomendou então estudos a vários economistas para a criação de um modelo de governo que pudesse ser apresentado aos eleitores nas eleições que viriam a seguir. Os peemedebistas acreditavam que recuperariam a credibilidade ao romper com os petistas, o que poderia lhes dar a oportunidade de voltar ao poder pelo voto. Portanto, tinham de arrumar um programa de governo que fosse radicalmente oposto ao do PT.
 
Em novembro de 2015 o projeto foi divulgado num evento festivo, no Hotel Nacional, em Brasília. Chamava-se “Uma ponte para o futuro”, e entrava de vez no liberalismo econômico. Pregava, entre outras coisas, a criação de um programa de desestatização, o fim dos subsídios da política industrial e de comércio exterior, reformas trabalhista, da Previdência e tributária, equilíbrio fiscal, com a aprovação e uma lei de responsabilidade orçamentária, aumento acentuado do superávit primário, fim do regime de partilha para o pré-sal, fim do controle da Petrobrás sobre o pré-sal, criação de um estatuto para as estatais, foco na aliança comercial com grandes potências e desburocratização, entre outras coisas.
 
À exceção da reforma da Previdência e algumas questões na política externa, Temer conseguiu realizar quase tudo durante seu governo de dois anos, oito meses e dezoito dias. E a reforma previdenciária só não foi aprovada porque a Procuradoria-Geral da República apresentou duas denúncias contra Temer, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da justiça – uma terceira foi protocolada no dia 19 (mais informações nesta página). Com as denúncias, Temer teve de suspender o foco na reforma da Previdência para preservar o próprio mandato. Conseguiu fazer com que a Câmara mandasse as duas denúncias para o arquivo, mas seu governo perdeu força claramente.
 
Antes de se complicar nas questões jurídicas, por causa do vazamento de uma conversa com o empresário Joesley Batista, o governo de Temer ia muito bem no Congresso. Presidente da Câmara por quatro vezes, líder do PMDB por anos seguidos, o presidente que agora deixa o cargo conseguiu montar uma excepcional base de apoio a seu governo. O que lhe deu condições para aprovar até a emenda constitucional que estabeleceu o teto de gastos para o setor público a partir do índice de inflação do ano anterior. 
 
Essa sustentação muito forte, claro, foi toda ela construída com base no “toma lá, dá cá”, usada por todos os governos do período democrático. Temer não teve dificuldades para costurá-la porque conhecia como poucos como o Congresso funciona. Só para se ter uma ideia de como foi a montagem de seu ministério, seu ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho (PE), só foi nomeado quando Temer estava a caminho do Palácio do Planalto para assumir o governo, no dia 12 de maio de 2016. 
 
Um pouco antes o Senado havia aceitado o pedido de impeachment e expedira dois mandados: o primeiro, para avisar à presidente Dilma que ela deveria se afastar pelo prazo de 180 dias, ou até o final do julgamento do processo; o segundo, para comunicar a Temer que ele deveria assumir a Presidência, que vagara. O PSB havia sido chamado a fazer parte da coalizão de governo e ainda não dera a resposta. Quando esta veio, pegou Temer no meio do caminho. De dentro do veículo que o transportava ele assinou a nomeação de Coelho Filho. 
 
PT. O afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República e a ascensão de Temer tiveram uma preciosa contribuição do PT, por mais absurdo que esse fato possa parecer. Com receio de que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ), preso e condenado na Lava Jato, aceitasse a abertura de processo de impeachment, isso no final de 2015, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também preso e condenado na Lava Jato, e os então ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) fizeram uma negociação de cúpula com o emedebista. Por ela, o PT, que tinha três votos no Conselho de Ética da Câmara, onde Cunha respondia a processo por quebra de decoro parlamentar, votariam pela não abertura de processo contra o presidente da Câmara. 
 
Acontece que a base do PT era contrária e refugou. O Conselho de Ética abriu o processo contra Cunha com os votos dos petistas. E Cunha, em represália, aceitou o pedido de impeachment. E Temer chegou ao poder. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Kamylla Rodrigues

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Trânsito
04.11.2026
Equatorial Goiás contabiliza quase 3 mil acidentes com postes de energia de janeiro a outubro de 2026

A Redação Goiânia – Entre janeiro e outubro deste ano, a Equatorial Goiás já contabilizou 2.922 ocorrências de colisão envolvendo postes de energia elétrica em todo o estado. O desrespeito às leis de trânsito, falta de atenção ao volante e falhas de manutenção nos veículos geram a maior parte dos acidentes que impactam diretamente sobre […]

Educação profissional
04.11.2026
Senai Goiás alcança melhor nota na série histórica de avaliação da qualidade do ensino

A Redação  Goiânia – O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Goiás) alcançou seu melhor resultado na série histórica no Indicador de Desempenho da Avaliação Profissional (IDAP), com nota 8,3. O resultado, divulgado terça-feira (27/10) pelo Departamento Nacional, supera a meta de 7,9 e a média brasileira de 8,1, conforme dados do Sistema de Avaliação […]

Meio Ambiente
04.11.2026
Prefeitura de Aparecida inicia projeto de educação ambiental em unidades da rede municipal de ensino

A Redação  Goiânia – A Prefeitura de Aparecida de Goiânia iniciou na última semana o projeto de educação ambiental Reciclar para Transformar, que vai envolver unidades da rede municipal de ensino em ações de coleta seletiva, reciclagem e conscientização ambiental. A iniciativa é desenvolvida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), em parceria com a […]

Investigações
04.11.2026
Homem é preso suspeito de armazenar conteúdos de violência sexual infantojuvenil em Goiânia

A Redação Goiânia – Um homem foi preso em Goiânia suspeito de armazenar e compartilhar conteúdo com violência sexual infantojuvenil na internet. A prisão foi realizada pela Polícia Federal, na terça-feira (3/11), durante a 11ª fase da Operação Voz da Infância. As mídias digitais apreendidas serão submetidas à perícia, a fim de identificar possíveis outros […]

Esporte
04.11.2026
Goiânia recebe Campeonato Brasileiro de Basquete Master com 1.900 atletas de todo o país

A Redação Goiânia – A Capital goiana sedia, até sábado (7/11), a 41ª edição do Campeonato Brasileiro de Basquete Master, que reúne cerca de 1.900 atletas de todo o país, distribuídos em 187 equipes. Com apoio do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Seel), a competição contempla categorias […]

Investigações
04.11.2026
Polícia Civil mira suspeitos de golpe envolvendo carro de luxo em Goiás

Ludymila Siqueira Goiânia – Uma operação da Polícia Civil, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4/11), mira grupo suspeito de golpe envolvendo um carro de luxo em Goiás. Segundo os policiais civis, os investigados estariam envolvidos em esquema de receptação, adulteração veicular e golpe conta seguro. Ao todo, são cumpridos 12 mandados de busca e apreensão […]

Solenidade
03.11.2026
Santa Casa de Goiânia completa 90 anos com programação comemorativa e entrega de melhorias

A Redação Goiânia – A Santa Casa de Misericórdia de Goiânia completa 90 anos nesta quarta-feira (4/11). Para celebrar a data, a instituição realiza uma programação especial nos dias 3, 4 e 6 de novembro, com missas em ação de graças e uma solenidade que marcará a entrega de melhorias na estrutura hospitalar, além do […]

Trabalho
03.11.2026
Feirão de Empregos reúne mais de 1,1 mil vagas para serviços e comércio

A Redação Goiânia – A Secretaria de Estado da Retomada promove nesta quinta-feira (5/11), das 8h às 17h, um feirão de empregos com mais de 1,1 mil oportunidades para contratação temporária, estágio e Jovem Aprendiz. A ação será realizada na Central Mais Empregos, localizada no centro de Goiânia, com entrevistas presenciais conduzidas por representantes de […]