Gabriela Louredo
Goiânia – No vaivém de carros e pessoas habituadas à sua rotina, uma cena chama atenção: um homem deitado encolhido sobre um colchão na calçada em uma rua do Setor Sul de Goiânia. Cabelos brancos, corpo franzino, ele dorme. A maioria que passa, ignora o que vê. A presença de pessoas em situação de rua tem se tornado frequente nessa região da capital, nas proximidades da Praça Cívica.
Seja à luz do dia ou à noite, sem qualquer constrangimento, rendem-se ao vício e acendem o cachimbo de crack. O que acontece em seguida, já quando estão sob o efeito das drogas, pode representar perigo para a sociedade.
Dona de um restaurante localizado na Rua Doutor Olinto Manso Pereira, no Setor Sul, Márcia Cordeiro diz que a situação é "complicada". Ela já perdeu as contas de quantas vezes o estabelecimento foi furtado. Somente neste ano, já entraram oito vezes, sempre durante a madrugada, pelo telhado.
"Já levaram forros de mesa, talheres e dois botijões", conta. "Agora, só deixo as mesas do lado de fora", acrescenta. A comerciante desistiu de registrar ocorrência na delegacia depois de perceber que os furtos continuavam. "O governo pode dar apoio, oferecer uma casa de recuperação, mas eles não são obrigados a mudar de vida", lamenta.
Vizinho de Márcia, Ícaro Jordan é proprietário de uma joalheria. Ele observa que muitas pessoas sentem medo quando percebem a presença dos mendigos e preferem atravessar a rua para seguir caminho.
Segundo ele, aos finais de semana, a região fica deserta e eles "pintam e bordam". Chegam até a fazer suas necessidades fisiológicas na porta de casas e estabelecimentos comerciais. A joalheria também foi alvo de furtos, da mesma forma como aconteceu no restaurante de Márcia. Da primeira vez, o prejuízo foi de R$ 6 mil. Levaram as jóias expostas na vitrine, após conseguirem ter acesso pelo telhado. Na segunda tentativa, o crime foi mal sucedido.
Apesar disso, Ícaro defende que sejam construídos mais abrigos para acolher os moradores de rua, para que eles recebam um tratamento digno e uma chance de recomeçar suas vidas. Para ele, a repressão pelas forças de segurança não é a solução para o problema.
Assistência social
O secretário municipal de Assistência Social, Robson Azevedo, afirma que geralmente no final do ano percebe-se o aumento das pessoas em situação de rua na capital, uma vez que nesta época as pessoas costumam estar mais solidárias e propensas a dar esmolas.
Os moradores de rua se concentram em alguns pontos de Goiânia para fumar crack. Além do já citado, outros exemplos são a região da Rua 44, no Setor Norte Ferroviário; próximo à Rodoviária, na Avenida 85, sob o viaduto da Avenida T-63; Praça Joaquim Lúcio, em Campinas. A preocupação é de que a cidade se torne uma cracolândia a céu aberto.
"Esse é o nosso grande receio. É um problema sério. Por isso, estou aumentando as nossas equipes para fazer esse monitoramento", reconhece. Robson analisa que esse problema social se agravou nos últimos anos diante da crise financeira que o país atravessa, que deixou milhões de desempregados. Parte considerável dessas pessoas foi para a rua.
A Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) conta com duas equipes formadas por educadores sociais, psicólogos e assistentes sociais, responsáveis pelo trabalho de abordagem das pessoas em situação de rua. Elas conversam e tentam convencê-las a ir para a Casa de Acolhida, em Campinas, que hoje abriga cerca de 200 pessoas, sendo muitos dependentes químicos.
Até o final de 2018, Robson diz que espera inaugurar a Casa da Acolhida 2, no Setor Leste Universitário, com 50 vagas. Apesar do apoio, alguns recusam ajuda, como é o caso do senhor apresentado no início da reportagem. Aqueles que precisam de tratamento médico são encaminhados para unidades de saúde.
O caminho é dar oportunidade
O comandante do Policiamento da Capital, coronel Ricardo Mendes, disse que a Polícia Militar percebeu um acréscimo do número de moradores de rua nessa região do Setor Sul. No entanto, num primeiro momento, segundo ele, os andarilhos não podem ser tratados como criminosos, mas sim como doentes, visto que muitos sofrem de dependência química. "A não ser que eles cometam delitos e que a polícia tome conhecimento. Nesse caso é claro que nós vamos agir", afirma.
Já para o titular da Semas, a rotina deles se baseia no tripé: abrigo (vivendo sob marquises ou pontes), negócio (relações sexuais ou tráfico de drogas) e a alimentação que conseguem mendigando, o que acaba se tornando um círculo vicioso. "A ideia básica é não ter o assistencialismo e sim uma assistência social que os oportunize a sair desses meios, como um curso ou um emprego", afirma. "O caminho jamais será a violência, é a educação, é dar oportunidades. É o diálogo, ensino e motivação para que eles deixem essa situação", finaliza.