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A dor das mudanças

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16.04.2012 - 11:15:33

 

Toda mudança gera um certo desconforto. No geral, sempre é melhor ficarmos do jeito que já estamos. Quando toca o alarme pela manhã avisando que é hora de saltar da cama e começar o corre nosso de cada dia, nossa vontade é mandar tudo para as cucuias, abraçar o travesseiro e dormir por mais longas e incontroláveis horas. Mudar do bem estar da cama para a selva de pedra da cidade é dolorido. Mesmo assim, fazemos isso diariamente. A obrigação nos impele encarar essa mudança. Esse exemplo simples mostra que a comodidade de ficar onde estamos sempre é mais convincente do que o risco inerente ao novo.

Eu gosto de novidades. Elas me seduzem, atraem e estimulam. Gosto de ter uma rotina clara só para, eventualmente, quebrá-la no meio e deixar a vida me levar. Inclusive, esse é o maior legado que o mestre Zeca Pagodinho me ensinou: deixar a vida me levar é uma arte. Eu surfo na onda conforme a onda vem, deixando sempre a vida me levar. Já que não existe força para domar a onda e a enquadrarmos naquilo que planejamos, o mais sensato é tentar entender a onda para que possamos tirar o máximo de proveito daquela circunstância que a vida coloca. Surfar na onda que mais longe lhe levar também é uma arte.

Conheço gente que sofre com qualquer mudança. Das mais significativas às mais simplórias, tudo é motivo de sofrimento. Se a pessoa precisa mudar de emprego, sofre. Se precisa mudar de casa, sofre. E se precisa mudar a cor do esmalte da unha, sofre do mesmo tanto. É muito sofrimento para pouco prazer. Tenho dificuldade em entender gente assim, embora conheça tipos que agem dessa forma em penca. É plenamente possível se divertir com as mudanças. São novas oportunidades de conhecer realidades diferentes, pessoas fora do seu círculo tradicional, experimentar outros prazeres, sentir novos sabores. Mas tem gente que não consegue enxergar por esse prisma. Essa galera sempre foca no transtorno. Ou seja, só observa as dificuldades e problemas que a mudança vão gerar. Nunca observam que coisas interessantes também podem aparecer. Viver assim deve ser, além de dolorido, extremamente sacal.

É dolorido porque, querendo ou não, a vida lhe impõe mudanças das quais você não tem como fugir. Mesmo que você não mude de emprego, a empresa em que você trabalha pode mudar de sede, de foco ou até de ramo de atividade. E você, novamente querendo ou não, tem que se adaptar a essa realidade imposta. E é sacal porque, cá entre nós, conviver com pessoas que querem/fazem/pensam tudo igual o tempo todo deve ser de um tédio gigantesco. Sério, se for desse jeito, é melhor se relacionar com um poste. Sem a imprevisibilidade humana, tão sedutora e necessária, a vida perde um bom tanto de sua graça.

 

 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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