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Quando a decisão é difícil demais

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02.04.2012 - 18:59:46

 

Eu já quis ser muita coisa na minha vida. De jogador de futebol a engenheiro civil, de bancário a artista de rua. Acho que acabei no jornalismo por ser possível fazer a interlocução entre todos esses mundos tão distintos. Entre esses devaneios profissionais, sonhos possíveis, sonhos doidões, perspectivas realistas, perspectivas insanas, passei pelo curso de Direito. Prestei vestibular para essa graduação na UFG quando vivia um período de crise em minha carreira de jornalista. No momento em que as coisas voltaram ao seu lugar no jornalismo, já havia feito dois anos de curso. No início do terceiro ano, larguei para nunca mais voltar. Nem tranquei, larguei. Não me arrependo. Hoje não faz parte de meus sonhos voltar a estudar Direito. Repito: hoje.

Enquanto eu estudava Direito, também sonhei em ser muita coisa dentro da carreira jurídica. A perspectiva que mais me seduzia era a promotoria. A possibilidade de investigar a fundo determinadas questões que considero aviltantes e botar quente para cima dos malandros me fascinava. Também pensei em outras possibilidades dentro do Direito. Contudo, nem naquele instante do mais completo delírio sonhei em ser juiz. A magistratura nunca me pegou. Considero a responsa pesada demais ter que decidir sobre algo. Nunca quis sequer cogitar a possibilidade de ter comigo o astral negativo de ter destruído a vida de alguém por conta de uma decisão equivocada. Eu não suportaria a barra.

E tenho medo também das decisões difíceis. Classifico como uma decisão difícil aquela em que os argumentos dos dois lados são muito bons e você não consegue se posicionar a contento. Você ouve um lado e percebe que os pleitos são justos e pertinentes. Quando você ouve o outro lado, entende que as demandas também são reais e legítimas. E no meio desse fogo cruzado de bons argumentos, você tem que tirar uma decisão que seja razoável para todos envolvidos. Acho essa missão casca grossa demais para mim. Tenho muito mais dúvidas que certezas e não gosto de ser encurralado para decidir sobre algo que não domine muito bem.

Outro ponto que complica minha tomada de decisão e me inviabilizaria de ser um magistrado é a falta de compromisso que tenho com minha própria opinião. Se hoje eu penso determinada coisa sobre um certo assunto, não tenho o menor compromisso de pensar a mesma coisa amanhã. Acho que reconsiderar é um ato nobre. E o pratico diariamente. Reconsidero tudo, pois penso que ter a mesma velha opinião formada sobre tudo é o primeiro passo para a morte. E ainda pretendo incomodar longos bons anos por aqui.

Por isso admiro quem consegue tirar um juízo desse tipo de situação. Admiro à distância, pois não quero minha pele naquele posto. Tal qual admiro quem empreende loucuras como, por exemplo, escalar o Everest. Acho legal nos outros, mas não é para mim. Não mesmo. Nem a pau.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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