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Poesia e drama social

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14.06.2018 - 09:16:00

Goiânia – No início da gestão do ex-prefeito da cidade de São Paulo, e possível candidato a governador do estado homônimo à sua capital, João Dória, medidas foram tomadas para tentar minimizar os problemas sociais decorrentes do estrato do inferno de Dante que existe naquela capital, conhecido pela peculiar toponímia de Cracolândia. Literalmente, terra do crack. Mais absurdo até do que a existência daquele antro de miserabilidade humana superlativo foi a postura de segmentos artísticos, políticos e ideológicos que à época defenderam a manutenção do status quo repulsivo daquele ambiente que só poderia existir no campo da ficção.


Para muitos dos defensores da cracolândia, em última instância, o ser humano teria o sagrado direito à autodegradação suprema e o Estado não teria nada a ver com isso. Poderia até ser assim, caso a drogadição não representasse um flagelo que se espraia pelo tecido social como um todo, funcionando como o epicentro de um terremoto que produz uma tsunami que se abriga sob a rubrica geral de violência. Embora a defesa que um ou outro artista faça daquele caos social, em momentos diversos da cultura brasileira existiram representantes das artes que denunciaram a degradação humana.
 

Um exemplo disso é o poeta Manuel Bandeira. Modernista ligado à primeira geração desse movimento artístico de 1922, Bandeira escreveu o poema “O Bicho”, que se caracteriza no conjunto de sua obra como uma denúncia do absurdo do sofrimento humano oriundo das desigualdades sociais. Em “O Bicho” se lê:

 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

 

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

 

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

Em “Os Miseráveis”, Victor Hugo apresenta, na metade do século 19, os quadros sociais parisienses decorrentes da pobreza e das misérias humanas em fortes tintas com que o poema de Manuel Bandiera dialoga de maneira emblemática e incisiva. Neste contexto, o jornal “A Redação” trouxe em seu espaço a notícia de um incêndio ocorrido no dia 12 último em residência abandonada no centro de Goiânia, à Rua 7. O jornal informa que testemunhas afirmam que a casa era utilizada como refúgio para moradores de rua e usuários de drogas. Diz ainda, a notícia, que os motivos do incêndio não foram esclarecidos.
 

Se a poesia pode ser utilizada para denúncias de aspectos sociais, como o fez Manuel Bandeira, em muitas outras oportunidades ela também é utilizada para dar asas ao imaginário do poeta e do seu leitor, num processo singular de interpretação de aspectos da realidade. O escritor mineiro Bueno de Rivera, também ligado ao modernismo e de forte influência drummondiana, escreveu um poema que no universo da verve poética remete ao incêndio da residência da Rua 7. Em “O Suicídio pelo Fogo”, registra o poeta:

 

Certos incêndios em tua cidade não se explicam:

Pontas de cigarro? Curto-cuito? Brasa?

Por que arde uma casa inteira se ninguém

lhe atiça fagulha?

Por que os sábios peritos não encontram

nos escombros os rastros ou sinais

de acidente ou crime?

 

A combustão

nasce do ódio visceral, do cerne

da madeira que se inflama

e se queima em protesto,

mostrando a sua fúria em labareda.

 

É o fogo punitivo

que obedecendo ao grito de vingança: É AGORA!

irrompe violento e a um só tempo

em berços, cômodos, armários.

estantes e poltronas,

aparelhos sonoros, teto e chão.

 

As árvores em chamas transformadas

tomam os passeios, investem

contra máquinas e povo, devorando

em pânico a cidade.

 

Tinge o olfato o pranto das resinas.

Não te assustes: é o suicídio coletivo

do mundo vegetal

que se liberta da inércia pelo fogo

 

É o protesto vermelho da madeira

contra a servidão

ao Homem-Térmita.

 

Assim, do aspecto físico das agruras sociais a poesia pode transcender para a metafísica do inesgotável veio do imaginário, suavizando o impacto de realidades dantescas como a de pessoas que são levadas a viver nas ruas à custa de paraísos artificiais que intimamente mascaram infernos exteriores cruciantes.

 

Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.

 

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por Gismair Martins Teixeira

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