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Não se deram conta de que Goiânia cresceu

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26.03.2012 - 23:42:29

Todo mundo conhece alguém que não se deu conta de que cresceu. E como isso dá trabalho! Uma criança que insiste em não largar a mamadeira, que não entende que não dá mais para correr para a cama dos pais toda noite. Aquele quase adulto que não consegue dar conta de suas responsabilidades, sempre delegando aos pais. Mal arruma seu próprio quarto e vai às aulinhas de inglês, ainda, porque os pais insistem. E fica p* da vida quando o pai diz que não vai pagar o conserto do carro que ele mesmo bateu (bêbado). Eu acho que Goiânia está nesse grupo.

A cada semimudança que tentam por aqui eu penso que ninguém se deu conta de quem é Goiânia. Ela já cresceu e um berço não cabe mais uma criança grandinha. Passando em frente ao aeroporto semana passada me veio isso em mente. Racionalmente, é quase de rir aquela reforma no estacionamento que, nem pronta está, e já é cômico o quanto é insuficiente. É como dar um vestido novo “Lilica Repilica” tamanho quatro anos para uma adolescente de 16. Essa jovenzinha merecia ganhar um notebook ou, no caso, um estacionamento subterrâneo dez vezes maior do que o que ainda não foi entregue.

– Vivi a vida toda numa cidade de mais de um milhão de habitantes.
– Um milhão?
– É…
– Deve ser muito grande.
– Pois é. Mas nem metrô tem.

Repeti esse diálogo por muitas vezes nos últimos meses. Uma cidade de um milhão de habitantes (estou ignorando Trindade, Aparecida, Senador Canedo e outros anexos) tem direito a muita coisa. E a cada diálogo desses eu pensava que Goiânia merece muita mais. Ela é digna de muito mais que um Eixão, um rio poluído e esquecido, ginásios parados, museus às moscas. Vá lá que o número de parques tem aumentado, mas ainda é absolutamente insuficiente para seu tamanho.

Quando vi o aeroporto me lembrei quando resolveram construir as trincheiras da Avenida 85, como tentativa de solucionar o trânsito na região. Isso aí foi como dar um sapato para criança. Fica lindo quando você acaba de dar o presente. Em seis meses já está um pouco ridículo o calcanhar ali para fora. Depois não faz mais sentido algum a sandália naquele pé. A tristeza é que Goiânia ainda tem de calçar um sapatinho 28 num pé 39. Lembro-me da frase de um arquiteto que, na altura, disse que aquilo serviria somente para jogar o trânsito para frente. Batata! Ano passado, logo ali à frente, mais interferências no trânsito entre T-63 e Av. Circular, resultado do empurrãozinho que a trincheira deu ao congestionamento. Daqui a pouco, mais para frente, mais reforminhas.

Daí que semana passada (mais uma vez) vi as rotatórias da praça universitária passando por um processo de diminuição para caber mais carros passando por ali. E aí que a única praça que ainda tem um espaço digno nessa cidade (e, por sinal, está sem projeto que dê mais vida àquilo há anos) começa a dar espaço para o utilitarismo que guia o trânsito dessa cidade. Eu diria a alguém que não conhece Goiânia: Praça do Ratinho, Praça Nova Suiça e Praça do Bandeirante. Três importantes praças de Goiânia. Pela localização, já deixaram de ser praça há muito tempo, dando vez aos carros, tirando os espaços de convivência dessa cidade. E olha lá a Praça Universitária indo no mesmo rumo.

Lembrei-me quando cheguei em Lisboa e passei ali na Praça do Comércio, um espaço gigantesco, livre, aberto, para as pessoas caminharem e contemplarem o mar, apenas. Um brasileiro fez uma boa piada: “se existisse um espaço desses no Brasil já se pensaria: nossa, olha o tamanho e localização disso! Dá para fazer um shopping, ou colocar umas banquinhas aqui, ali…” A velha ótica utilitarista e o viés consumista que guiam toda a lógica da cidade. Se temos um problema de trânsito e há muito espaço livre, para lazer, que dane-se esse lugar de ócio e vamos resolver esse problema.E daí que acabamos com dois no colo. O problema do trânsito em dois anos (sendo otimista) já está dando suas caras novamente. E a cidade cada vez menos tem seus espaços de lazer e cultura, sempre marginais na lógica do consumo.

Goiânia é bem nova, isso é bem verdade. Mas é daquelas que teve que se virar sozinha, crescer rápido, prematuramente, porque não tinha ninguém por perto. Longe de tudo, recebendo um estado inteiro em seu seio (para não dizer um país), nem um planejamento de Ludovico estava pronto para a vida que estava guardada para essa menina. Se para nascer ela precisou ter um planejamento, para sobreviver e crescer ela precisa de outro. Pensar a longo prazo, mais do que quatro em quatro anos.

Os pais pensam no futuro que querem para os filhos. E até planejam. Só que a vida não é tão previsível e esses planos podem ficar obsoletos ou impossíveis. Aí outros planejamentos são necessários. E aí que essa jovenzinha foi crescendo e ninguém prestou atenção de que o plano inicial para vida dela não cabia a realidade que enfrentava todo dia. Continuou menina, interiorana, provinciana, só que grande.

Sou filha dessa menina e amo como quem gosta de uma mãe. Amor de origem. E por esse sentimento, parece que consigo ver essa menina chorando pelos cantos de não ser tratada como deveria. Porque ela cresce sem saber como agir, por onde ir e nesse caminho vai se perdendo. Ela só quer que saibam que ela cresceu, mas mesmo assim não quer perder seu jeito carismático Goiânia de ser, suas memórias e história. Quem quer chegar aos 80 anos sem se lembrar de suas histórias de vida? Das suas tradições e tudo que te ensinaram? É quase uma dor de Alzheimer. E um crescimento desordenado pressupõe perda de memória. Porque, mais um pouco, até o Anhanguera sai do meio daquela avenida. Morrendo na contramão, porque atrapalhava o tráfego.

Goiânia merece mais do que um puxadinho e campo de aviação. Merece uma, duas, três linhas de metrô. Merece menos filas em hospitais e menos espera por vagas em creche. Merece praças, parques e todos lugares mais que as pessoas possam conversar, pensar, produzir, fazer arte e não ver o tempo passar. Porque o que faz uma cidade ser o que é não é só o resultado do trabalho de oito horas de seus cidadãos. É a vida que se faz fora das fábricas e firmas: a arte, a tradição e a cultura de uma cidade. São os momentos para conservar o que temos e produzir o que não temos ainda. E, sinceramente, muito me orgulho dos vizinhos nas ruas sentados em tocos de árvore te dando bom dia. É essa simpatia que Goiânia não pode perder. E é dando-lhe estrutura digna para crescer que isso se preserva.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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