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Me dei bem!

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19.03.2012 - 01:38:38

Eu me lembro bem da primeira vez que me deu um clique que o problema de corrupção vai muito mais além de um mero Congresso Nacional ou Câmaras e Prefeituras. Eu tinha 16 anos e estava no terminal de ônibus em Christchurch, Nova Zelândia, onde morei três meses. Eu fui a primeira a chegar à plataforma onde passava o ônibus 83. Mas fiquei esperando ao lado da porta e não em frente. Chegaram outras pessoas para esperar o transporte e quando, finalmente chegou, a fila se formou naturalmente na ordem de chegada das pessoas à plataforma. E, na mesma época, observei que quem tentava ser espertinho entrando na frente, era constrangido moralmente.

Não que não exista corrupção na Nova Zelândia, é muito provável que haja. Mas certo é que não é um problema com as mesmas proporções como aqui. E então pensei que as coisas funcionavam bem por lá não só pelo fato do Estado garantir os direitos sociais aos cidadãos, mas porque eles mesmos sabiam se portar de forma que esses direitos fossem, de fato, garantidos e perpetuados. Ou seja, não basta que o Estado garanta o essencial a nós, mas que cada indivíduo saiba bem agir, pessoalmente, diante disso.

Poderia falar do Cow Parade e da obra de Siron Franco que foi pichada. Mas não é aqui que quero chegar (mas sei que isso pode ter passado na sua cabeça). Eu quero falar do irritante jeitinho espertinho de ser que se abate em nossa cultura. Bato no peito para falar que somos o povo mais feliz do mundo (pois é, a pesquisa da FGV mostrou isso recentemente). Que temos talento de sobra, somos trabalhadores demais (outro dia quero falar sobre isso), generosos, mas, espertinhos. E isso, minha gente, pode ser muito grave!

Olhe bem para o trânsito. Não há curso de Detran de 700 horas que consiga educar o motorista. Porque ele é, com o volante na mão, da mesma forma que ele é fora do carro. Por que tem aquele que sempre corta pela direita ou se enfia em uma fila? Porque é espertinho. Ele tem sua vida, seus horários apertados, está tudo corrido demais e ele tem que se dar bem. Para isso, tem que ser espertinho no trânsito. E, já diria Lenine, gentileza é fundamental. Mas ela não cabe entre tantos carros, poucas ruas e escasso tempo e paciência. E, me diga, um motorista que sai “se dando bem” e burlando todas as regras, agiria diferentemente enquanto político?

A verdade é que, quando adolescente e vivi esse episódio em Christchurch, pensei que as proporções e oportunidades apenas mudam. Daquele colega que recolhe o dinheiro da turma da faculdade para a festinha e diz que R$20 para cada um é suficiente. Sobram R$400 no fim das contas, mas ele não conta nada a ninguém e fica com o lucro. E o pior é quando se acha (no silêncio) no direito de fazer isso porque foi ele quem organizou tudo da festa. Só não contou que queria ser remunerado por isso. Em grandes proporções isso pode ser aceito naquela famosa frase sobre um político: “rouba, mas faz”. E toda corrupção será perdoada.

E, para mim, tudo começa desse jeito esperto de ser de querer “se dar bem”, não importa como, quem vou usar para isso, que tipo de regrinhas pequenas vou burlar. Ou, minimamente, o cara só quer tirar onda porque foi mais esperto que você. “Pagou R$2,50 na latinha aqui? Ih, vacilona, paguei R$5 em dois latões ali na frente”, uma frase seguida de uma risada malvadinha. Um cara, que nunca vi na vida, soltou para mim sexta passada, quando estava no conhecido Chorinho na Avenida Goiás. Ele só queria me mostrar que foi mais esperto que eu.

E o que não falta é gente para te mostrar que é mais esperto que você e que “se deu bem”. Aquele cara que tira onda com sua cara porque você teve que estudar para passar num concurso, sendo que ele está ali porque tem aquele tio que deu uma forcinha. Ou o colega que ri de você que passou a madrugada em claro para tirar a mesma nota que ele num trabalho que ele pagou só dez reais para alguém fazer.

Mas, sinceramente, muito me irrita quando isso envolve questões culturais. É porque, por natureza, já é delicado misturar arte com dinheiro. Desde os frankfurtianos que desceram o pau na indústria cultural, vamos lidando para que esse casamento não tenha sacanagem. E nesse fim de semana passei raiva. O dono de um estabelecimento (onde as pessoas foram procurando arte e lazer), é claro, sabe o número de pessoas que comporta nesse espaço, se é aberto, se vai chover na noite ou não e para quantas pessoas a cerveja a ser vendida será suficiente.

E, pronto, sucesso! A casa está cheia. Permite-se entrar mais gente que o possível e o resultado é que o único feliz ali é o dono do lugar que encheu os bolsos de dinheiro. A cerveja acabou, a chuva chegou (interditando os espaços abertos) e, de repente, o pub vira um curral. Um monte de gado tentando sair. As pessoas só queriam pagar suas contas e sair daquele inferno. Sem estrutura e organização, o gado se empurra para ir embora. Como num terminal do Eixão às 7h da manhã. Mas a casa poderia ter impedido a entrada de mais pessoas assim que atingiu a lotação, garantindo uma boa noite a todos lá dentro. Bom, mas o importante é que o dono se deu bem!

E grandes problemas de convivência e até mesmo políticos começam assim, com as pessoas querendo sempre se dar bem. É por isso (e por outros motivos) que sempre achei sem sentido caminhadas contra corrupção. Sendo que, no cotidiano, tantos participantes são pequenamente corruptos tentando se dar bem. O sujeito não levanta da cadeira exclusiva para idosos para ceder o assento a uma senhora, mas desce o pau no deputado. Quem sabe um dia um deles se torne um desses políticos e esteja fazendo o mesmo. E no fim do dia de trabalho em que alguma maracutaia seja bem sucedida vai pensar: me dei bem!

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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