São Paulo – As fabricantes de aviões Embraer e Boeing anunciaram nesta quinta-feira, 21, que estudam uma "potencial combinação", mas sem deixar claro que tipo de negócio seria esse. De acordo com a nota conjunta divulgada pelas empresas, as bases de um potencial acordo ainda estão em discussão, e "qualquer transação estaria sujeita à aprovação do governo brasileiro".
A notícia fez as ações da Embraer dispararem na Bolsa de Valores de São Paulo: fecharam em alta de 22,5%. Reportagem do jornal americano The Wall Street Journal aponta que a empresa americana teria interesse em adquirir o controle da companhia brasileira.
Mas essa posição deve enfrentar resistência dentro do governo, principalmente nas áreas militares. O comando da Aeronáutica, por exemplo, afirmou considerar a Embraer "uma empresa estratégica e fundamental para a soberania nacional". Numa conversa com o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o comandante da Aeronáutica, Nivaldo Rossato, nesta quinta-feira, durante a reunião de cúpula do Mercosul, o presidente Michel Temer teria dito que a Embraer é "inegociável".
O que preocupa principalmente o meio militar é que a Embraer, junto com a produção de jatos comerciais leves, tem um braço de indústria aeronáutica de defesa com grande conteúdo tecnológico. Há um receio de que, estando sob o comando da Boeing, essas linhas de produção possam ser interrompidas por influência do Congresso norte-americano, que tem total controle sobre a indústria de defesa local.
Na área econômica, porém, a venda do controle da Embraer não enfrentaria tanta resistência. Uma fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast avaliou que seria uma operação complicada, porque a Embraer tem muita participação no Brasil em desenvolvimento de tecnologia e na produção de equipamentos militares. Mas disse, porém, que perder o controle da companhia não seria um problema para o governo.
Um acordo entre as duas companhias teria de passar pelo aval do governo brasileiro por conta de uma ação especial (chamada de golden share) que a União detém desde que a Embraer foi privatizada, em 1994. Essa ação especial dá direito de veto em decisões importantes, como a criação ou alteração de programas militares e a transferência do controle acionário.
Apesar do direito de veto, o governo não é um acionista tão relevante da Embraer: tem uma participação de apenas 5,4%, por meio do BNDESPar, o braço de participações do BNDES. A Embraer, na verdade, é uma empresa sem controlador definido. Seu maior acionista é a consultoria de investimentos americana Brandes, com 15% das ações. A maior parte dos papéis, 64,5%, está diluída no mercado.
O anúncio de negociação para uma combinação de negócios entre a americana Boeing e a Embraer fez as ações da companhia brasileira dispararem nesta quinta-feira, 21, na B3 (nova denominação da Bolsa paulista). Com o salto de 22,5% ao fim do pregão, para R$ 20,20, o valor de mercado da Embraer superou R$ 15 bilhões, ou R$ 3 bilhões a mais do que na véspera. Na máxima, o papel chegou a R$ 23, com valorização de 40%.
O grande interesse da Boeing na Embraer reside no segmento de aviação regional, atendido por aeronaves com cerca de cem lugares, disse André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company e especialista em aviação. "Embora a Embraer tenha bons produtos de uso militar, a Boeing é um colosso no setor", disse. "Os aviões da Embraer no setor são mais de transporte e treinamento do que, propriamente, de combate, o que fez o Brasil comprar caças suecos."
O movimento da Boeing também seria uma forma de a americana se proteger do acordo firmado entre a franco-alemã Airbus e a canadense Bombardier, nesse mesmo segmento, em outubro. Conversas nesse sentido foram noticiadas pela colunista Sonia Racy em 21 de outubro, logo após o acordo entre Bombardier e Airbus. Para Jorge Leal, especialista em aviação e professor da USP, a Embraer teria menor necessidade de formar uma parceria do gênero.
"A Embraer vem se dando melhor no mercado do que a Bombardier", disse. Na visão de analistas de mercado, a potencial união com a gigante americana poderia ser benéfica à Embraer. O BTG Pactual calculou que o prêmio ante a avaliação atual da empresa brasileira poderia chegar a 50% e estimou o negócio em US$ 15 bilhões (mais de R$ 50 bilhões). O BTG lembrou, porém, que as ações da Embraer vinham sendo negociadas em patamar bastante baixo.
Com as dificuldades enfrentadas no ano passado, a empresa viu o preço de seu papel perder quase 50% – saindo de R$ 29,19, ao fim de 2015, para R$ 15,54, em dezembro de 2016. Ao longo deste ano, mesmo com a melhora dos dados do balanço, o ânimo dos investidores com o papel foi bem limitado. Entre 1.º de janeiro e 20 de dezembro de 2017, o papel ON da Embraer havia avançado 6,11%, para R$ 16,49, uma alta de pouco mais de 6%. O desempenho da fabricante ficou bem abaixo do Ibovespa, que acumulava ganho de mais de 20% até quarta-feira.
Prós e contras
Ao se associar à Boeing, a Embraer ganharia acesso a clientes e a capital mais barato para seus aviões de médio porte, segundo Castellini, da Bain & Company. No entanto, o especialista ressalvou que, qualquer que seja o desenho do acordo – aquisição de todo o negócio ou parceria específica na aviação regional -, a fabricante colocaria em risco uma de suas principais vantagens: a agilidade. "A Embraer é vista como uma empresa capaz de trazer bons produtos de forma rápida ao mercado", explicou. "Ao se tornar subsidiária de uma gigante, esse poder de decisão seria reduzido." (Agência Estado)