São Paulo – Em guerra declarada com o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, o presidente Michel Temer adotau um tom conciliador e defendeu a independência e maior harmonia entre os Poderes no discurso que fez na posse de Raquel Dodge. Ela é a primeira mulher a assumir a Procuradoria-Geral da República (PGR), o que também sfoi destacado na fala do presidente.
Temer não fez menção a Janot em seu breve discurso na cerimônia, na sede da instituição. Em seguida, o presidente embarca para os Estados Unidos, onde participa da Assembleia-Geral da ONU.
Alvo de duas denúncias e um inquérito apresentados na gestão de Janot, o presidente quis chamar a atenção para a participação feminina no comando de órgãos ligados ao Judiciário – além de Raquel no Ministério Público Federal, Cármen Lúcia no Supremo Tribunal Federal (STF) e Laurita Vaz no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Mudanças
A nova procuradora-geral da República toma posse com a expectativa de ter uma atuação mais discreta e menos midiática do que seu antecessor, e sob incertezas do rumo que pretende dar à Operação Lava Jato. A nova chefe do Ministério Público Federal já sinalizou que mudará a equipe e terá como um dos focos evitar vazamentos de informações dos processos – outro motivo de crítica recorrente a Janot.
Na tarde de anteontem, dois procuradores que atuam na Operação Lava Jato foram avisados de que serão dispensados em 30 dias das funções. O procurador José Alfredo de Paula Silva, coordenador do grupo de trabalho da Lava Jato na gestão de Raquel, avisou a Rodrigo Telles e Fernando Antonio de Alencar que serão dispensados da equipe. Ambos haviam manifestado vontade de permanecer no grupo de trabalho.
Raquel também já sinalizou que quer dar atenção a outras áreas, não só à Lava Jato. Exemplo disso é que seu vice, Luciano Mariz Maia, tem uma atuação voltada para questões de direitos indígenas. Ele é coordenador da Câmara de Coordenação e Revisão de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, tendo sido por quatro anos procurador federal dos Direitos do Cidadão adjunto.
Raquel também pretende incluir mais mulheres em sua equipe. Entre políticos que passaram a ser investigados durante a gestão de Janot, a expectativa em relação a Raquel é de que ela conduza os trabalhos de forma bem diferente de seu antecessor. "É uma mudança completa de postura, de uma pessoa que, espero, vá cumprir o seu dever. Não queremos o perfil de um procurador que tira foto ao lado de um cartaz dizendo que ele é a salvação do Brasil", afirmou ao Estado o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do seu partido, um dos mais envolvidos em suspeitas na Lava Jato.
Saída
Janot não participará da solenidade. Na sexta-feira, em seu último dia útil como procurador-geral, ele se despediu do cargo em uma cerimônia interna com apenas membros da Procuradoria e servidores. Janot fez um balanço da gestão e ganhou de presente um arco e flecha, enviado pela tribo Xokó, de Sergipe. O presente foi uma alusão à frase "enquanto houver bambu, lá vai flecha", dita por ele na reta final de seu mandato logo após apresentar a primeira denúncia contra Temer por corrupção passiva. (Agência Estado)