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A ministra está certíssima sobre o aborto

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09.02.2012 - 10:22:03

 

A legalização do aborto voltou à pauta do dia após a declaração da nova ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci. Se você não está ligado, ela afirmou que o aborto no Brasil deve ser visto como uma questão de saúde pública. Simples e cristalino. O debate tem que ser encarado de forma franca e racional, sem pesos de cunho ideológico ou religioso. E ela tem autoridade em todos os sentidos para dizer o que diz. Professora titular de Saúde Pública na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Eleonora Menicucci, além de acadêmica da área, declarou ter praticado o aborto em duas ocasiões. Ou seja, sabe das coisas na teoria e na prática.
 
É simplesmente inaceitável que o Brasil não tenha o direito de aborto legalizado. E, pelo amor de Deus e da santíssima Nossa Senhora: não se trata de fé, trata-se de saúde pública. Independente da vontade dos padres, pastores e líderes espíritas, as pessoas estão fazendo abortos. Nem a maior convicção na existência do inferno impede as pessoas de praticarem o aborto. E a coisa fica ainda mais grave quando colocamos sob o prisma social. Se a pessoa for rica, ainda faz em clínica chique do Bueno, Marista ou Oeste. Por outro lado, se for pobre, o aborto rola em condições mais que indignas, colocando vidas e vidas em risco. Mulheres morrem cotidianamente por conta de uma visão tacanha, temperada por ignorância religiosa.
 
É preciso esclarecer que não defendo o aborto, mas sim o direito de quem quer fazê-lo tendo as melhores condições hospitalares possíveis. Se a pessoa não quer o filho, nada vai fazê-la levar a gravidez até o fim. Nada. Nem o Estado, nem a Igreja, nem a família. Nada! Para diminuir o trauma, o Estado deve garantir esse direito à mulher. Existem pesquisas que mostram que nos estados dos EUA onde o aborto é legalizado os índices de violência são menores. O que foi deduzido é que a política do aborto impede o surgimento de famílias desestruturadas, não planejadas. Está naquele famoso livro Freakonomics. Me parece um ponto de consenso que em uma família bagunçada é mais propício o surgimento de um criminoso, não?
 
Devemos promover um debate profundo entre os profissionais da saúde acerca do prazo em que seria possível interromper uma gestação com o menor dano. Me parece que a maioria dos especialistas coloca a marca de três meses. Os países europeus que adotam o aborto como prática de saúde pública também trabalham com esse limite de 12 semanas. Daí em diante, é instituir o acompanhamento psicológico antes e depois para a mulher. Profissionais de serviço social acompanhando a família. Procedimento cirúrgico bancado pelo SUS. Em país decente, é assim que se faz. Não deixando líder religioso falar do que não entende nada.
 
O maior avanço que conseguimos foi a separação entre Estado e Igreja. Quando o Estado é teocrático, os problemas são maiores. E a experiência do Irã está aí para não me deixar mentir. O Brasil precisa avançar nesse debate sem a visão turva da fé, mas sim com uma argumentação razoável. Os fundamentos religiosos são muito bons dentro da Igreja. Fora, são temerosos. Mesmo que as bancadas da fé católica, evangélica ou espírita pensem que vivemos uma teocracia cristã, ainda vivemos em um país laico. Ainda…
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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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