Goiânia – Por onze anos, a Orquestra Filarmônica de Berlim (OFB) esteve submissa ao Estado nazista. O que teria levado esse grupo musical, extremamente orgulhoso de sua autonomia, a tornar-se ferramenta de propaganda do Partido Nacional-Socialista alemão? Alguns poderiam pensar no uso da força. Uma dedução justificada, visto que logo após a nomeação de Adolf Hitler como chanceler, em 30 de janeiro de 1933, o partido instituiu uma política de “alinhamento” dos indivíduos e instituições com os objetivos hitleristas. Contudo, não foi bem assim. Na verdade, a própria OFB tomou a iniciativa de aproximar-se do Governo do Terceiro Reich. Desta forma, a partir de outubro de 1933, depois de 51 anos de existência, esta instituição privada passou a cooperar e barganhar com o regime ditatorial e sanguinário de Hitler até a sua queda em 1945.
Esse episódio sombrio da história da OFB encontra-se relatado no livro The Reich´s Orchestra – The Berlim Philharmonic 1933-1945 (Das Reichsorchester, título em alemão), escrito em 2007, pelo canadense Misha Aster (1978). Para esse trabalho, o autor realizou uma minuciosa pesquisa documental em fontes primárias sobreviventes como aquelas encontradas em arquivos governamentais, nos registros da própria orquestra e em coleções particulares de antigos membros da Filarmônica. Foi nessa obra que busquei respostas para uma série de dúvidas sobre o assunto.
A busca pela sobrevivência
Tudo leva a crer que o fator ideológico, se existiu, foi o menos importante no processo de aproximação com o Governo do Terceiro Reich. Na realidade, o principal motivo foi o déficit orçamentário crônico da Orquestra. O modelo comercial adotado desde a fundação, em 1882, era insustentável. Tratava-se de uma associação musical autônoma que, ainda em 1903, se transformou em uma cooperativa, conhecida pela sigla Gmbh. Seus acionistas, os próprios músicos, tinham como principal meta a manutenção de um alto padrão musical. Como consequência, ao longo dos anos, fechar as contas no azul foi uma tarefa quase impossível. As despesas eram muito pesadas, a começar pelo aluguel de sua sede, a
Philharmonie. E a principal delas: a folha de pagamento. É fácil entender: os melhores salários para atrair os melhores músicos de fileira, solistas e regentes. Falei um pouco sobre as primeiras quatro décadas de história da Orquestra Filarmônica de Berlim na coluna “
50 músicos na pista de patinação”.
Abrir mão da excelência musical cultivada por tanto tempo não estava em questão. Reduzir o número de músicos? Nem pensar. Sobre isso, a administração alegava que seus assinantes estavam acostumados a grandes repertórios que exigiam uma instrumentação completa. Com as dívidas aumentando, não restou outra opção a não ser a busca por socorro governamental.
Em algum momento da década de 1920, ainda sem abrir mão de sua autonomia, a Filarmônica passou a receber modestos e esporádicos subsídios do Governo da Prússia, além de uma pequena, porém regular, ajuda da Prefeitura de Berlim. Entretanto, essa ajuda não foi suficiente. A situação financeira da orquestra continuava a deteriorar-se rapidamente. Dívidas se acumulavam, enquanto os salários atrasavam. Usando uma expressão popular: a OFB era um “saco sem fundo”.
Em 1932, para se ter uma ideia, a receita da OFB saldava apenas 40% das despesas. De acordo com uma auditoria posterior, a cooperativa já deveria ter decretado falência ou iniciado os procedimentos legais para sua dissolvência legal. Foi nessa situação que a Filarmônica acabou aceitando a proposta de fusão com a Sinfônica, uma orquestra menor e menos prestigiada, mantida pelo governo municipal. Afinal, a Prefeitura de Berlim era, até então, a principal patrocinadora do grupo. O projeto foi concretizado em 27 de janeiro de 1933, três dias antes de Adolf Hitler (1889-1945) tornar-se o novo Chanceler da Alemanha.
O pacto “fáustico”
O alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954) [foto abaixo], regente titular da principal série de concertos da OFB, desde 1922, logo tornou pública sua insatisfação com a citada fusão. A programação politicamente imposta afetava sua “sagrada” liberdade artística. Ademais, sua autoridade ficou altamente comprometida. Dos 23 músicos oriundos da Orquestra Sinfônica de Berlim, pelo menos 6 eram membros do partido nazista, incluído o ex-gerente do extinto grupo, o violoncelista Fritz Schröder; músico que liderou um movimento com o objetivo de ajustar a instituição com os princípios ideológicos do nazismo. Isso incluía, por exemplo, o pedido de afastamento dos músicos judeus, além da secretária particular do maestro, a judia Berta Geissmar. O maestro Furtwängler, por princípios, não admitia em hipótese alguma intromissões políticas em assuntos artísticos.

O principal regente da orquestra era uma celebridade na Alemanha. Um ícone muito respeitado tanto por Hitler quanto por Joseph Goebbels (1897-1945), o famoso Ministro da Propaganda nazista. Furtwängler, valendo-se de sua notoriedade e com o consentimento dos músicos e administradores do grupo, em agosto de 1933, procurou as duas autoridades e negociou a reversão da fusão com a Sinfônica, além de uma parceria com o Partido. Seu discurso girou em torno do potencial da orquestra como instrumento de publicidade. Um discurso alinhado com a visão de Goebbels sobre propaganda cultural. Mas o "Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda" não estava interessado em parceria e sim no controle total da melhor orquestra alemã para servir às suas necessidades.
Então, em 01 de novembro de 1933, com a “bênção” pessoal de Hitler, a Orquestra Filarmônica de Berlim foi oficialmente declarada uma
Reichsorchester. E em 15 de janeiro de 1934, o Ministério da Propaganda, representando o Reich, comprou as participações acionárias de aproximadamente cem músicos, adquirindo legalmente a Cooperativa (Gmbh).
Para Ibaney Chasin, autor do posfácio de Das Reichsorchester, o grupo sobreviveria aos tempos sóbrios do nazismo, mesmo que por caminhos morais infames. Coube ao conjunto nos 11 anos seguintes universalizar a grandeza da música alemã, uma das virtudes da “germanidade”.
Abaixo, um vídeo de 1942 com a OFB sob a regência de Furtwängler:
Nas próximas colunas, o que mudou no dia a dia do grupo e a situação dos músicos judeus integrantes da Orquestra Filarmônica de Berlim durante o Terceiro Reich.
Leia mais sobre a história da Orquestra Filarmônica de Berlim nas colunas:
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