Logo

Caso de pano e de polícia

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.05.2015 - 17:21:34
 
Goiânia – Esse desacontecido ocorreu há muitos anos, quando não havia ainda os celulares com câmeras e não se via a todo momento, em qualquer lugar, gente fotografando pés e pratos. Todos os dias, no caminho para o trabalho, eu passava diante de certa lojinha de tecidos, que me inspirava doces nostalgias. Em uma segunda-feira, decidi fotografá-la. Divirto-me tirando fotos e escrevendo sobre o que me sussurram ou pretextam. Postei-me do lado de fora, no passeio público. Eis, porém, que detrás do colorido dos crepes que caíam do alto, como tendas árabes, dos rolos verticais feito fantasmas molengos de musselina, saiu um dono enfurecido, para interromper o curso da poesia que livre corria, quase a transformar-se em foto e palavra.
 
Tinha ele decerto, com a fúria dos cães, suas razões.  Promoveu-me de curiosa espiã do mundo a detetive. E de mero olhar eloqüente a ouvido mudo e penico. Censurou-me por eu me apropriar, com meus olhos, de seu domínio, sem ligar ao fato de que seus tecidos entupiam a calçada, que pertence – será possível? –  aos que calçam, vestem e passam. E assim, iracundo, contou o que não lhe perguntaram. Que seu divórcio virara caso de política. E eu com isso? Mostrei-lhe as fotos na máquina digital, sem rostos humanos e sinais de identidade. Pedi-lhe até indevidas desculpas, as que ele deveria dar à Secretaria de Fiscalização Urbana do Município.
 
Quem sabe se não pensou que eu fotografava os rolos de tecido para advogados, e terríveis cálculos de partilha e pensão alimentícia? E se tantos bolados e floridos não eram senão a fachada de um marido que sobre a mulher fechava a cara de cambraia e o punho de linho? E se ela não tinha um corpo sobre o qual facilmente se escorregavam as mãos dos fregueses, liso como cetim carmim? Não, nada sei sobre isso, sobre ele e as custosas costuras da intimidade. Com a testa mais amarrotada do que anarruga, enfiei meus olhos na capanga e fui embora, ter lembranças meigas da infância em outra freguesia. Eu que queria apenas alinhavar a história de quando era menina e com minha mãe ingressava no mundo fascinante dos panos em Pontalina ou Goiânia, que desde Noel Rosa viraram rimas de piano, quando soavam os três apitos da fábrica de tecidos, e dos armarinhos-passarinhos, para inventar um vestido de aniversário ou roupa de ver Deus no domingo.
 
Agora rio, mas fiquei chocada. E tendo agido assim, com tamanha eloqüência e ira, ele acabou por tirar do sono a louca da casa, denominação que Santa Teresa dava à imaginação, segundo a escritora espanhola Rosa Montero. E desse modo ativou a tecla do “e se….”,  a poderosa tecla a partir da qual, também de acordo com a escritora, todas as nossas fantasias e histórias se criam. E se ele é assim ou assado? E se faz isso ou aquilo? E se um viajante numa noite numa noite de inverno …oh, Ítalo Calvino? Virei a noite. Virou personagem de um poema satírico.
 
E até que não estava de todo errado – sussurra-me o anjo da imparcialidade jornalística, lembrando-me o sagrado dever de considerar as três faces das moedas envolvidas – afinal, qualquer escritor ou jornalista é algo indiscreto e detetive da vida privada, tornada assim publicada. E o que não é visto, é logo por ele inventado. Mas esse senhor proprietário é também bastante imaginativo e bem relacionado. Anotou-me a placa do carro e, no dia seguinte, pela primeira vez na vida, fui convidada a depor na polícia, que nada tem a fazer decerto além de meter a colher em briga de marido e mulher, em rusgas de vizinhos, e rugas e nervuras de tecidos.
 
A louca de sua imaginação de senhor dono, que deve andar envolta, não em andrajos, mas em preciosos brocados, viu-me invadir, com máquina engatilhada e caneta em riste, o estabelecimento, como um exército de espiões e paparazzi, disposta a flagrar algo muito grave entre os metros de rendas francesas, sedas puras e popelines. E eu, a mais sensacional das repórteres sensacionalistas, faria de um corte de cetim enforcado por um pedaço de fita a principal manchete dos jornais do dia seguinte. 
 
E como gargalhou o delegado, escritor secreto, poeta inconfesso como são todos os escrivães e delegados, quando lhe contei de minhas intenções de poesia. E com que casos hilários de seu ofício não me presenteou o servidor da lei, entre eles o daquele mesmo sujeito que lhe fez apreender uma cueca usada, roubada pela ex-mulher iracunda. Ela pretendia empregá-la numa macumba com o objetivo de exportá-lo para a terra dos pés juntos. A Justiça agiu a tempo e a cueca foi confiscada, livrando-se daquele mórbido comércio com o além. O titular do DP, além de pândego, conciliador, também me aconselhou a despublicar da internet foto e poema, para evitar que eu tivesse de explicá-los diante do Juiz das Causas Importantes, Embora Bem Pequenas.

Até hoje, anos passados do desocorrido, me perscruto sobre o crime que cometi e de que fui acusada. A má sorte hedionda e inafiançável de estar na hora imprópria no lugar errado? Ou talvez o delito de enxergar a beleza nas coisas mais triviais e pretender registrá-la, sem requerer o alvará dos donos de tudo. Atitude tão condenável que talvez devesse a Justiça obrigar os fabricantes de equipamentos fotográficos a instalarem um dispositivo, que os impedisse de registrar espaços abertos, ruas, praças, prédios, paisagens, árvores, animais e pessoas, afinal, tudo nesse mundo tem seu dono sortudo ou surtado. Melhor, aliás, se o acoplassem diretamente aos olhos da gente, que assim não veriam nem belezas nem dementes. Ah, e acrescentassem outro dispositivo para aprisionar as mãozorras e as bocarras, essas perigosas máquinas de produzir palavras. Livrai-me, Deus, da minha verve Gregório de Matos! Salvai-me das minhas bobagens de Bocage! A literatura, menos ainda que o jornalismo, não conhece imparcialidade. É um demônio que nos aconselha ao ouvido: vingue-se, tanto mais fria e deliciosamente quanto for mais tarde. Transforme todos os seus desafetos em personagens. E, nunca, nunca, lhes dê a chance de recorrer a um aparte.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]