Jales Naves
Especial para o AR
Goiânia – Um fato ocorrido no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás na década de 1950, vivenciado pela professora Lena Castello Branco, quando chegou a ser ameaçada de prisão, foi relatado na palestra que proferiu quando da comemoração dos 90 anos do IHGG, no dia 7 deste mês. Ao lembrar as articulações de professores e alunos para criação da Universidade Federal de Goiás, com a realização de debates com personalidades nacionais e estrangeiras, citou o filósofo português, professor doutor Agostinho da Silva. “Anti-salazarista, pessoa de extraordinária cultura e carisma pessoal”, ele sugeriu a criação de um centro universitário onde se estudasse o Brasil, já que esses estudos eram oferecidos de maneira dispersa e fragmentada.
A sugestão despertou grande interesse e tornou-se realidade, com a criação do Centro de Estudos Brasileiros em 1962, que funcionou na casa “cor de rosa – a edificação que aí está, felizmente preservada e valorizada”. No CEB viriam a funcionar dois cursos – bacharelado/licenciatura em Estudos Brasileiros e de Cultura Goiana. Para ingressar no primeiro era exigida a conclusão do ensino médio e a aprovação em concurso vestibular; o segundo, de livre acesso, tinha o caráter de extensão cultural.
Explicou que houve grande procura para ambos; os cursos começaram a funcionar com professores convidados até que fosse possível realizar concurso público, porquanto exigências formais e burocráticas ainda deveriam ser atendidas, em Goiânia e Brasília.
Para integrar o corpo docente foram convidados professores já atuantes da Escola Técnica Federal de Goiás, do Instituto de Educação, do Liceu de Goiânia e da Universidade Católica de Goiás. Dentre outros, Bernardo Éllis, Amália Hermano Teixeira, Antônio Teodoro da Silva Neiva e Gilberto Mendonça Teles, diretor do Centro. “Fui chamada para integrar o grupo e passei a lecionar História Moderna e Contemporânea e Cultura Goiana. Eu tinha 32 anos, quatro filhos pequenos e morava no setor Sul, perto do CEB”, afirmou.
O Centro tinha grandes objetivos e planos ambiciosos – disse –, mas a realidade era de pobreza e de dificuldades. “Entre os chamados órgãos de segurança havia a suspeita de que se tratava de uma cópia ou réplica do ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros, do Rio de Janeiro, tido como instituição esquerdófila, que visaria a adesão do Brasil ao bloco comunista em plena Guerra Fria – que alcançara seu ponto máximo”.
“Em assim sendo, nós, professores e alunos do CEB – prosseguiu – éramos vigiados por “espiões” indicados e matriculados para esse fim. Fui convocada a comparecer ao 10º Batalhão de Caçadores, onde um tenente-coronel me ameaçou de prisão – dizendo ele que eu estava fazendo proselitismo vermelho quando dava aulas sobre a Revolução Russa na disciplina História Contemporânea”. Explicou que não ficou presa devido à intervenção de familiares, “militares hierarquicamente superiores ao meu anfitrião. Resumindo: o Centro de Estudos Brasileiros foi fechado, os professores “de esquerda” foram demitidos, depois aposentados. Gilberto Mendonça Teles teve de asilar-se no Uruguai, durante alguns anos; quando retornou ao Brasil fixou-se no Rio de Janeiro, onde continua como grande linguista e príncipe dos nossos poetas – louvado seja!”, completou.
Os demais professores e alunos foram transferidos para a recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFG. “No prédio cor-de-rosa foi instalado o Departamento de História e Geografia, com os respectivos cursos. Muitos dos futuros mestres e doutores da nossa Universidade Federal de Goiás estudaram ali, vindo a completar a respectiva formação acadêmica em universidades brasileiras e estrangeiras”, frisou.
Relembrando os fatos
Comemorar os 90 anos de fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás – enfatizou a professora Lena, em sua palestra – é lançar os olhos sobre as últimas décadas, “tão ricas e tão diversificadas, em seus cenários, acontecimentos e personagens. Para mim, que sou um pouco mais velha do que esta instituição, seria como voltar um a um os muitos anos vividos, recuando ao distante 7 de outubro de 1932”. “Meditando e pensando, fui reencontrando fatos do passado – qual deveria ser lembrado hoje, aqui e agora? Qual se impõe sobre os demais?”, indagou. “É quando me vem à lembrança o próprio cenário do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás – qual seja, o prédio que o abrigou quando veio transferido da Cidade de Goiás para Goiânia. Esse mesmo prédio cor de rosa (era mais tendente ao alaranjado), última edificação da Praça Cívica, ainda não totalmente urbanizada”.
Em 1952 o “assim chamado setor Sul foi aberto à construção das primeiras residências e prédios comerciais, quando artérias foram abertas no cerrado: simples arruamentos toscamente delimitados, sem meios fios, sem esgoto pluvial ou doméstico, sem água tratada”, afirmou, para completar: “Não obstante, a casinha cor de rosa lá estava, enquanto jovens casais começavam a erguer suas habitações, mediante financiamentos obtidos junto a agentes públicos e privados”.
Nessa década – destacou – empolgou a juventude goianiense a campanha em prol da criação e do funcionamento da UFG, que foi empalmada pelo diretor da já existente Faculdade de Direito, o professor doutor Colemar Natal e Silva. Nesse sentido, ele colocou “a serviço desse ideal seus bons relacionamentos pessoais e acadêmicos, e, igualmente, o prestígio de sua ilustre família”.
Ainda nos anos 1950 – enfatizou – uma comissão de docentes e alunos programou debates sobre o que viria a ser a Universidade Federal de Goiás. “Teve lugar uma série de conferências com a vinda de convidados ilustres, sendo o primeiro deles o ministro das Relações Exteriores, Santiago Dantas. Seguiram-se outros palestrantes – como Darcy Ribeiro, que discorreu sobre o novo modelo de Universidade que se cogitava de instalar em Brasília; e o professor doutor Agostinho da Silva”, que sugeriu a criação de um centro para estudar o Brasil.