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Sam Cyrous

Janeiro Branco e a Cultura da Saúde Mental

| 24.01.18 - 18:01

Goiânia – Setembro de 1939 Hitler autoriza um primeiro programa de eliminação de doenças mentais: solicita aos médicos e equipes hospitalares a negligenciarem atendimento a pacientes, até que eles viessem a morrer.
 
A chamada “psiquiatria punitiva” foi usado em várias culturas para punir pessoas diferentes. Confinamento psiquiátrico era uma forma comum de repressão na União Soviética ou a Ditadura Militar brasileira. Estima-se que só num hospício brasileiro, durante a Ditadura, houve mais de 60 mil mortos!
 
A saúde mental — com seus diagnósticos — foi usada incansavelmente por todo o espectro político e cultural com o propósito de obstruir os direitos de cidadãos e afasta-los da sociedade. E isso ajudando a aumentar o estigma de psiquiatra e psicologia tratarem de loucura e debilidade mental.
Com a reforma psiquiátrica, a partir dos anos 90, se foram consolidando as experiências de novas formas e locais de atendimento. Ocorreram também mudanças legais. 
 
Contudo, a pessoa com transtorno mental — ainda que saindo dos “hospícios” — continua sendo vista como inválida, numa nova forma de exclusão, agora social. Por vezes, intensa como o caso de muitos membros da população em situação de rua, noutras, mais velada com dificuldades de inserção no mercado de trabalho e na comunidade, em relações afetivas saudáveis e até com famílias super-protetoras.
 
A página em branco
O paradigma de saúde mental está mudando. O Brasil é a recordista latino-americana em casos de depressão e a campeã mundial no que tange à ansiedade. Então, as profissões de saúde mental começam a ser cada vez mais procuradas e, com isso, menos estigmatizadas. Contudo, o caminho ainda é longo.
 
Com isso em mente, imaginou-se o conceito de Janeiro Branco, estimulando a criação de uma “cultura da saúde mental” no mês da virada, onde repensamos a vida e o mundo e, podemos escrever e reescrever as histórias que desejarmos. 
 
A ideia foi lançada em 2014, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o Plano de Ação Compreensivo para a Saúde Mental 2013-2020. A OMS alertava que 1 a cada 4 pessoas no planeta possui algum problema a nível de saúde mental e, em 2030, estas serão as principais doenças no planeta. Mais, chamava a atenção para a segunda principal causa de morte no mundo: o suicídio!
 
O mesmo suicídio que Viktor Frankl descrevia como sinal da falta de sentido em nossa era moderna. Prisioneiro de campos de concentração, o fundador da Logoterapia, era um psiquiatra que cedo percebeu — na sua prática clínica e na vida de prisioneiro de campo — que há três elementos na vida de todas as pessoas: prazer, poder e sentido. 
 
O prazer uma consequência de vidas plenas e o poder o meio pelo qual alcançamos o que aspiramos. Mas o sentido, a meta, o propósito de vida é o que nos fortalece enquanto pessoas, é a força motriz que permite equilibrar nosso ser e nossas relações com os outros. Sem esse senso de propósito, a angústia ataca, a ansiedade chega e a depressão pode se instalar.
 
Atualmente, o conceito de loucura é fortemente questionado pelos profissionais. “Normal” e “comum” são conceitos que devem ser questionados. E o profissional de saúde mental, mais do que tratar de uma patologia, necessita compreender o princípio fundamental que todos podemos ter (e não ser) um transtorno ou distúrbio, mas principalmente, todos temos as nossas capacidades de criar, sentir e lidar com o sofrimento. 
 
Quando, na II Guerra Mundial, Frankl viu tantos de seus colegas, alguns com severos problemas de saúde mental, sofrendo nas piores condições, viu que corpo e mente podem adoecer, mas a dimensão existencial profunda nunca adoece!
 
E talvez seja essa a maior contribuição do Janeiro Branco: ajudar a cada um de nós a compreender que mesmo por trás de uma depressão, de uma esquizofrenia, de uma síndrome ou um transtorno, a pessoa humana continua lá.
 

*Sam Cyrous é psicólogo, psicoterapeuta, storyteller, coordenador da pós-graduação em Logoterapia e Análise Existencial do IPOG, secretário da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial
 

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