Jairo Macedo
Demorou 14 anos, mas o Soulfly está de volta ao Brasil. Demorou uma vida inteira, mas Max Cavalera, líder do grupo e eterno ex-integrante do Sepultura, traz sua barulheira para Goiânia. Ele está na cidade deste a quinta-feira (23) e se apresenta logo mais, na noite de sexta (24), no Sol Music Hall, antigo Clube Jaó. A turnê, que inclui, além da capital goiana, apenas São Paulo e Rio de Janeiro, traz como mote o mais recente disco da banda, intitulado Enslaved, ainda a ser lançado no dia 13 de março pela Roadrunner Records.
O Max que recebeu os repórteres para entrevista coletiva na cidade lembra o velho sujeito de sempre. Veste a mesma camisa surrada do Dorsal Atlântica e mantém os mesmos badulaques nos punhos. Só não tem a mesma cara porque, convenhamos, a idade chegou. E também porque sofreu um susto na semana passada que quase o tirou da estrada. Cavalera foi diagnosticado com Paralisia de Bell, uma anomalia no nervo facial que o deixou com os movimentos do rosto visivelmente danificados. Nada que o afaste da turnê. "Tá melhorando, estou tomando antibiótico e fazendo exercícios, resolvi não cancelar os shows porque esperei muito tempo para voltar ao Brasil, então pensei 'é, não é a paralisia que vai me tirar não, vou vir e tocar'", conta, aliviando a ansiedade da massa metaleira. O vocalista, mesmo com o rosto inchado do lado direito e a audição prejudicada no ouvido deste lado, garante que não fará diferença no show de Goiânia. "Só vou ficar ainda mais feio", ri.
O Sepultura não esteve em pauta na entrevista. Max Cavalera desconversa sobre o cogitado retorno da banda – "possível é, porque não é impossível, mas…", ironiza – e prefere se focar no trabalho atual do Soulfly. Já são oito discos desde que o grupo foi formado, há 15 anos, e Enslaved chega como um declarado retorno às raízes do metal. Max e seus amigos resgataram os velhos discos do Morbid Angel, Possessed e Cannibal Corpse para obter o timbre do novo trabalho. "É o nosso disco mais extremo, tem uma pegada mais death metal também, tem um lado de raízes mais antigas do metal que quis trazer pra fazer um Soulfly mais pesado", explica. Max classifica esse line-up do grupo, agora com David Kinkade na bateria e o chicano Tony Campos no baixo, o mais forte da história da banda.
Família no palco e disco
Mas o baterista David não veio ao Brasil. Quem cuida das baquetas nestas apresentações é Zyon Cavalera, 18 anos, filho de Max que tocou com a banda em um show na Bélgica no ano passado e, aprovado pelo pai, vem como um presente para o público brasileiro. "Como a gente tá no Brasil, nada melhor que fazer algo especial e trazer um Soulfly mais familiar", diz. "A batida do coração do Zyon, quando ele ainda tava na barriga da mãe, abre o Chaos A.D. [disco do Sepultura de 1993], né? Então ele tá na história mesmo, desde o começo", completa orgulhoso Max. Zyon foi criado ao pés dos maiores bateristas do mundo, assistindo desde moleque a turnês que o pai fez com gente do peso de um Bill Ward, do Black Sabbath.
Além de Zyon, seu outro filho, Iggor, está na cidade e faz participação especial em "Revengeance", música do novo disco que contou com os três filhos de Max na gravação. Inédita em shows, o público goiano terá o privilégio da primeira audição da música executada ao vivo. No show em São Paulo, o irmão Igor – agora adotando também a grafia Iggor – deve subir ao palco para algumas canções. Em todas as cidades, a presença de clássicos do Sepultura também é garantida no set-list. "Preciso torcer o braço dele, pagar uma churrascaria depois, alguma coisa para comprar a presença dele", brinca Max.
Autobiografia
Como se não bastasse os novos discos e turnê, Max Cavalera tem ocupado seu tempo relembrando histórias do passado. Junto ao escritor Joel McIver, ele prepara a publicação de uma autobiografia, que sairá no Brasil e exterior, chamada Garoto do Brasil. As memórias prometem abranger toda a carreira do metaleiro, desde a formação do Sepultura em Belo Horizonte, ainda em 1984, a mudança para São Paulo, a saída pelo mundo e a conquista de fãs ao redor do globo. E as polêmicas no meio do caminho, é claro. O prefácio fica por conta de Dave Grohl, líder do Foo Fighters, com quem Max mantém uma relação de amizade desde os tempos do Nirvana.
Com o irmão, Max mantém o projeto Cavalera Conspiracy, com quem não descarta uma turnê ainda neste ano. Disco novo, porém, só mais adiante. Se a vinda ao Brasil traz também alguma saudade da terra natal? "Até queria fazer um disco mais tribal para o futuro, com mais percussão, gravar e compor aqui, mas não sei quando vai acontecer". Por enquanto, Max, os filhos e os projetos continuam em Phoenix, Estados Unidos, onde tem um estúdio e todo o seu QG montado em casa. "Mas já pensei sim numa casinha no nordeste, vai saber..", diz aos metaleiros presentes, para todos à volta rirem da discrepância da figura metaleira com o litoral baiano.
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