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O que as discussões em torno de ‘O Agente Secreto’ revelam sobre o Brasil de hoje

24.11.2025 - 12:25:00
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Desde antes de seu lançamento, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, tem levantado todo tipo de discussão, seja nas redes sociais, entre o público, ou nas bolhas cinéfilas entre críticos e entusiastas. Mas isso era esperado. O filme venceu dois prêmios importantes no Festival de Cannes, passou pela rota dos festivais de cinema brasileiros e internacionais, fez de Tânia Maria uma estrela e chega com força à temporada de premiações, que culmina no Oscar 2026. O que não significa que as reações à obra sejam unânimes.

Fato é que o filme tem provocado discussões – saudáveis – que vão além do campo audiovisual e furaram a bolha da cinefilia. Não se trata de uma polêmica, e sim de um conjunto de debates sobre representação histórica, regional e as dimensões morais de um conto ambientado no Brasil de 1977. Se para uns, o filme é uma obra madura, para outros é uma oportunidade de confrontar a memória autoritária da ditadura – que não foi aproveitada em toda sua extensão.

O filme estrelado por Wagner Moura se passa no Recife dos anos 1970, e retrata o período sob a ótica da perda da memória coletiva. O ator baiano interpreta Marcelo, um professor universitário que volta para a capital pernambucana buscando se reconectar à essência e fugir de seu passado misterioso. Logo ele descobre que não está seguro, e precisa buscar novas maneiras de se salvar.

A disputa de narrativas mostra um filme que não joga com o conformismo. Entre alguns setores, a principal crítica afirma que O Agente Secreto seria excessivamente suave ao lidar com a repressão militar. Intelectuais apontam que, em um momento de reescrita das narrativas históricas, esperava-se do filme uma posição política mais explícita.

A visão foi ecoada pelo professor e ex-ministro da Educação do Brasil Renato Janine Ribeiro, que teceu uma análise elogiosa ao cinema de Kleber, mas apontou o que viu como falhas: o teor explicativo das falas da personagem de Maria Fernanda Cândido e a pouca presença direta da ditadura militar brasileira, mais representada pelo empresariado que deseja destruir uma pesquisa científica.

Ao Estadão, o ex-ministro afirma que o filme é excelente para quem viveu a ditadura ou sabe do que se trata, por reconstituir a época não apenas fisicamente, mas também em espírito e clima. “O problema é que faz poucas referências diretas à ditadura, exceto uns retratos do ditador Geisel ou algum tiranete local”, salienta.

“Então, para quem não tem boa informação histórica ou não viveu a ditadura, algo fica faltando. Tudo o que temos é um detestável explorador ítalo-paulista que quer acabar com a pesquisa científica no Nordeste e com o seu financiamento público. Isso é interessante e bom, mas é insuficiente.”

Segundo essa leitura, a abordagem ambígua de Kleber abriria espaço para que a violência estatal apareça como uma ameaça em segundo plano, e não como o trauma central da narrativa. Para outros, no entanto, essa opção é o que distingue o filme, que cria um lugar para refletir sobre a banalidade do autoritarismo e sua manutenção simbólica.

“Penso que o incômodo que o filme provoca não se deve exclusivamente à s questões da ditadura, do passado. O filme nos faz pensar também sobre o Brasil de hoje”, opina o psicanalista e escritor Sérgio Telles. “A precariedade de Recife nos anos 1970 será muito diferente da existente na periferia de qualquer grande cidade brasileira hoje? Mudou a fachada, sim, mas a estrutura não é a mesma? Acabou a violência da ditadura, mas não persiste a violência da corrupção infiltrada em todos os níveis da sociedade, a pobreza, a desigualdade frente a lei, os preconceitos contra nordestinos, a divisão norte-sul?”, questiona.

“O filme provoca uma ferida narcísica ao esmigalhar a imagem idealizada que fazemos de nós mesmo enquanto povo, nação, enquanto cultura. É nosso retrato sem retoques, no qual é duro se reconhecer.”

As reações revelam um País em que disputar a memória recente se tornou parte da luta democrática, mas também evidenciam que as propostas do filme são capazes de gerar um debate civilizado do qual toda obra se beneficia. Para o crítico Luiz Zanin Orocchio, as características levantadas, e que vêm sendo discutidas com fervor, são justamente a força da narrativa. Em suas palavras: “a disposição de não entregar nada pronto ao espectador, sua ambivalência e uso intenso de elipses”.

Complexidade e ritmo narrativo

Um segundo ponto que tem aquecido os ânimos em torno do filme é o que alguns chamam de dispersão narrativa. Em determinado momento da história, quando chega no prédio dos exilados de Dona Sebastiana, Marcelo conhece uma fila de novos vizinhos. Há refugiados angolanos, como Thereza (Isabél Zuaa) e Antônio (Licínio Januário), um jovem gay expulso de casa (João Vitor Silva) e ali acolhido, uma mulher (Hermila Guedes) e a filha escapando de um ex-marido agressivo. Além da misteriosa Elza (Cândido), ali para ajudar. Todos mudaram de nome para conseguirem se esconder.

No meio disso, o filme também brinca com os mitos urbanos que são de conhecimento do recifense, com a presença da Perna Cabeluda, e versa sobre a preocupação de Marcelo com a memória: ele busca os documentos de sua mãe que nunca conheceu e tenta fazer o filho, Fernando, não se esquecer da própria mãe, já falecida. Também tem um tom de humor, mérito de Dona Sebastiana, com traços de suspense, ação violenta, terror e drama. Ah: e tudo isso acontece no meio do Carnaval.

Para o público, isso gera duas reações distintas. Em uma delas, há os que defendem o traço como riqueza de referências históricas e políticas, sobretudo ao incluir Recife como um pano de fundo social para instigar uma reflexão sobre o Brasil e suas multiplicidades. Para outros, o excesso é visto como digressão, que escapa da narrativa central e enfraquece a história.

“Na linguagem fílmica, me preocupou que depois de um excesso de informações durante a primeira hora, uma chave de explicação aparece, não na própria trama, mas na voz de uma personagem, que surge de repente como uma deusa ex machina”, continua Janine, sobre Elza, a personagem de Maria Fernanda Cândido. No entanto, ele reforça que O Agente Secreto se mantém fiel à tradição de obras políticas, algo presente inclusive na própria filmografia do diretor.

“Esse filme prossegue na denúncia dos poderes econômicos que conquistam o poder político. Ele se situa muito bem entre os filmes do próprio Kleber, que sempre denuncia o capital que destrói coisas belas, como em Aquarius, ou destrói a própria vida, como em Bacurau”, complementa.

Para Eugenio Bucci, jornalista e professor universitário que publicou um artigo no Estadão sobre o filme, o suposto excesso é a característica que causa encantamento. Em seu texto, ele recomenda a ida ao cinema. “Nem tudo é explicado didaticamente, mas tudo flui magistralmente. Você não vai desgrudar o olho da tela. Sua respiração vai ficar presa numa passagem. Seu espírito vai se enternecer na outra”, escreve.

Há quem argumente que os supostos excessos (seja de personagens ou de duração, com suas 2h40) fazem parte da proposta. O Agente Secreto aposta no tempo como elemento narrativo, algo que atua ao mesmo tempo no acúmulo de tensões políticas e afetivas e na dissolução histórica. O núcleo de pesquisa, representado pelas personagens Flávia (Laura Lufési) e Daniela (Isadora Ruppert), simboliza este exato desgaste.

Para Telles, poder abordar tudo isso é motivo de celebração. “É um direito e um dever da cidadania preservar a memória, pois ela é fundamental para a história e a identidade de um povo. É necessário lembrar os grandes traumas causados pela violência política, apesar de serem excessivamente dolorosos”, reforça.

“É importante também ter consciência da manipulação da informação por parte do poder, seja ele qual for, que pode enfatizar ou apagar fragmentos da história ao sabor de seus interesses”, prossegue. “Nesse processo de impedir o esquecimento, a arte joga papel fundamental, como vemos com O Agente Secreto.”

Neste mesmo campo, Janine reforça que ficou feliz com o papel dado à pesquisa científica na trama. Ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ele diz que esse destaque eleva o papel da educação e da ciência como pilares do desenvolvimento econômico e social do Brasil.

“E, além dessa defesa da ciência – realizada na Universidade Federal de Pernambuco, sempre com qualidade -, há uma preocupação do filme em mostrar algo que vai além das ciências exatas e biológicas, que supostamente trariam um efeito mais direto no PIB. Ele inclui as ciências humanas, já que as personagens mais jovens procuram, através de fitas gravadas, recompor uma história da qual só restam esses registros”, ilustra.

O que os debates revelam

Vista de maneira coletiva, a multiplicidade de opiniões sobre O Agente Secreto revela um filme com capacidades plurais – um objeto através do qual se vê um Brasil tentando compreender como lidar com o seu passado, que ainda ecoa no presente. Também se vê um filme – e um cineasta – de espírito inquieto.

Neste sentido, algumas pontas soltas, perguntas sem resposta, parecem estar ali para que cada um as preencha com suas próprias memórias, demonstrando a característica intrínseca à arte de provocar e nos tirar do lugar. Assim como filmar o Recife como personagem abre um debate sobre os direitos à cidade e a quem servem as políticas urbanas, deixar os espaços em branco serve para que o público observe as lacunas da própria história.

“Eu acho maravilhoso que o filme esteja repercutindo em diversas esferas, além da crítica cinematográfica, que seja criticando ou defendendo”, opina a produtora Emilie Lesclaux. “Quando há debate nesse nível, é porque o filme provoca, instiga, talvez incomode, e esse é o papel da arte. Além dos debates, estamos chegando a 800 mil espectadores, duas semanas depois da estreia, e isso nos deixa muito felizes pois é tudo o que queríamos – que o filme fosse visto por um número grande de brasileiros.”

A mesma máxima vale para Kleber, que celebra a profusão de ideias que nascem a partir do filme. “Como observador apaixonado da mídia desde a adolescência, estou vendo que O Agente Secreto já faz parte do fluxo contínuo da Cultura no nosso País, o Brasil. Isso ocorre na porta dos cinemas, na rua, nos trabalhos das pessoas, nas redes sociais, Letterboxd, IMDb, Filmow e na imprensa tradicional, papel e tela. Foram muitos anos escrevendo, imaginando e realizando O Agente Secreto, e vê-lo agora tão vivo me dá uma sensação grande de trabalho bem feito”, encerra.

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por Agência Estado

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