Samuel Straioto
Goiânia – O retorno da MotoGP ao Brasil após décadas de ausência coloca Goiânia no centro de um dos maiores eventos do esporte a motor no mundo. Entre os dias 20 e 22 de março, o Autódromo Internacional Ayrton Senna receberá equipes, pilotos e milhares de fãs vindos de diferentes estados e países para acompanhar a etapa brasileira do campeonato mundial. A expectativa é de que o evento movimente a economia local, atraia turistas e consolide a capital goiana como destino de grandes competições internacionais.
A magnitude do MotoGP provoca transformações na cidade que vão além do circuito. A alta demanda por hospedagem esgotou rapidamente a oferta hoteleira tradicional e abriu espaço para alternativas. Moradores de Goiânia encontraram na locação temporária de imóveis uma oportunidade de lucro, oferecendo casas e apartamentos para visitantes que não conseguiram vagas nos hotéis ou buscam opções mais econômicas.
A reportagem fez uma consulta no site Airbnb, plataforma digital global que conecta viajantes a anfitriões que alugam acomodações, como casas, quartos e apartamentos. Lá, há opções de aluguel por temporada em Goiânia que vão desde R$ 300 por duas diárias até valores que ultrapassam a casa dos R$ 100 mil, também por duas diárias no período do evento. Os preços variam de acordo com a estrutura do imóvel, a localização e os serviços oferecidos, refletindo o impacto direto da MotoGP sobre o mercado imobiliário temporário na capital goiana.

Sérgio Paiva está nas últimas semanas de preparação para alugar dois apartamentos no Setor Oeste durante o evento. Ele fotografa cada cômodo, arruma detalhes, verifica a duchinha do banheiro e instala pequenas travas em móveis onde guardará seus pertences. Mora sozinho e decidiu aproveitar a movimentação para gerar uma renda extra no início do ano, quando impostos e IPTU pesam no orçamento. Com a família residindo em Goiânia, ele tem onde ficar. Os dois apartamentos, um deles com 135 metros quadrados e duas suítes, todos com ar-condicionado e cheios de plantas, ficarão disponíveis integralmente para os visitantes.
Sérgio ainda não divulgou os anúncios, mas já pensa como consumidor. “Quando eu estou buscando uma hospedagem em outro lugar, principalmente em imóveis de outras pessoas, eu gostaria que tivesse a mesma qualidade que eu tenho na minha casa”, explica. Por isso, dedica tempo às fotografias e aos ajustes. Ele reconhece que abrir mão da própria casa por alguns dias exige cuidado, mas espera que o retorno financeiro compense.

Procura surpreende moradores
Carmon Luiz Siqueira Filho conta que foi “muito assediado” para alugar seu apartamento. Ele mora sozinho e tem a possibilidade de se mudar para a casa dos pais no período. O apartamento de dois quartos fica a menos de 10 quilômetros do autódromo, tem garagem e fácil acesso. Nunca havia alugado o imóvel antes, mas a insistência de conhecidos vindos de outro estado que não conseguiram acomodação em Goiânia a preço justo o convenceu.
“O evento influenciou. Esse extra financeiro vai ser bem aproveitado para o ano”, diz Carmon. Ele preparou o apartamento como se fosse uma pousada, providenciando toalhas, alguns mantimentos e itens de conforto. A experiência determinará se ele repetirá a estratégia em eventos futuros.

Hotéis lotados e preços elevados
A rede hoteleira de Goiânia caminha para a ocupação total durante o MotoGP. A organização do evento solicitou 2 mil apartamentos ao setor. A expectativa é de que todos os hotéis estejam com lotação máxima no período da corrida.
Luciano Castro Carneiro, presidente do Sindicato da Indústria de Hotéis de Goiânia (SIHGO), explica a dimensão do evento para o estado. “O MotoGP torna o período do mês de março uma altíssima temporada para Goiás. Se fosse em São Paulo, seria mais um evento. Para nós, é o evento do ano”, afirma.
O setor reconhece que alguns hotéis elevaram os valores das diárias, o que tem levado visitantes a buscar alternativas. Segundo estudo de 2022 produzido por Goiás Turismo, ABIH-GO e Sindicato de Hotéis de Goiânia, a capital possui 170 meios de hospedagem em funcionamento, com 18.696 leitos e 8.502 apartamentos.
Charleston Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Goiás (ABIH-GO) e vice-presidente do SIHGO, contextualiza a questão dos preços. “Orientamos para que os hotéis não extrapolem no aumento, mantendo valores dentro de um limite razoável. Na baixa temporada, os descontos chegam a 50%. Um aumento de até 50% seria um número dentro do padrão para um período de altíssima demanda”, explica.
O Procon Goiás notificou dez hotéis em Goiânia no final do ano passado após receber reclamações de aumento no preço de hospedagens. O órgão solicitou planilhas de preços praticados nos últimos 12 meses, dados sobre a taxa de ocupação, informações contábeis que expliquem a eventual elevação e relatórios das reservas para a segunda quinzena de março.
Adaptações e cuidados
Sérgio está deixando todos os seus pertences dentro dos apartamentos. A pessoa que alugar saberá como ele vive. Por isso, a preocupação com pequenos detalhes. “Estou precisando fazer algumas adaptações. Preciso arrumar a duchinha do banheiro, fazer alguns pequenos reparos e colocar pequenas travas para alguns móveis para que as pessoas não abram”, explica.
A ideia de alugar surgiu pela combinação de necessidade financeira e oportunidade. “Março é começo de ano e, no começo de ano, a gente sempre precisa de mais dinheiro. Você precisa ter uma renda extra porque você vai pagar impostos, IPTU. É o início da obrigação tributária”, diz Sérgio.
A localização dos imóveis pesa na decisão de quem aluga e de quem procura. Apartamentos bem localizados, com infraestrutura completa e próximos ao autódromo têm maior procura. Carmon destaca que seu apartamento tem garagem e fácil acesso, características valorizadas por quem vem de fora.
Perfil dos hóspedes
Carmon vai alugar para conhecidos vindos de outro estado. A relação prévia oferece segurança e facilita o processo. Sérgio ainda não definiu para quem alugará, mas busca garantir que os hóspedes tenham o mesmo padrão de conforto que ele ofereceria a si mesmo.
A procura vem de diferentes perfis. Há quem busque economia em relação aos hotéis, quem prefira a privacidade de um imóvel inteiro e quem valorize a experiência de ficar em bairros residenciais, conhecendo melhor a cidade.
Impacto regional
O MotoGP não impacta apenas Goiânia. A alta procura por hospedagem provocou aumento significativo nas taxas de ocupação da rede hoteleira da capital, de municípios da região metropolitana e de polos turísticos próximos.
Com grande parte do público vindo de outros estados e do exterior, a demanda por hospedagem supera a oferta imediata das áreas mais próximas ao circuito. Visitantes buscam alternativas em bairros mais distantes e em cidades vizinhas, ampliando a circulação de renda e a movimentação no setor de serviços regional.
Destinos turísticos como Caldas Novas e Rio Quente também entram na rota de visitantes que aproveitam a viagem para estender a permanência no estado. Esses municípios reforçaram serviços, investiram em sinalização e qualificaram o atendimento para receber um público que pode combinar a corrida com períodos de lazer.
Esse alcance regional demonstra que o MotoGP funciona como vetor de integração turística. Ao atrair visitantes com poder de consumo e interesse em experiências variadas, o evento estimula a conexão entre Goiânia e outros destinos do estado.
