A indústria brasileira vive uma transformação que não faz barulho de máquinas, mas muda a engrenagem por dentro. Nos últimos anos, mais mulheres passaram a ocupar espaços estratégicos no setor industrial, e a indústria de alimentos é um dos territórios onde essa virada tem se tornado mais visível. Dados do Observatório Nacional da Indústria (ONI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostram que, em 2023, as mulheres ocupavam 39,1% dos cargos de liderança na indústria brasileira — avanço significativo em relação aos 35,7% registrados em 2013. É uma transição silenciosa, gradual, mas consistente.
No setor de alimentos, essa presença ganha contornos ainda mais simbólicos. Trata-se de uma área historicamente associada ao universo feminino no ambiente doméstico, mas que, no ambiente corporativo, sempre teve comando majoritariamente masculino. Agora, o cenário começa a se equilibrar. Mulheres estão à frente de áreas como desenvolvimento de produtos, controle de qualidade, inovação, sustentabilidade, marketing estratégico e até operações industriais — postos que exigem formação técnica, visão de mercado e capacidade de gestão.
Eventos especializados da cadeia alimentícia, realizados em 2024 e 2025, passaram a destacar a liderança feminina como pauta estruturante, não mais como exceção. Painéis voltados a executivas do setor discutem desde inovação tecnológica até inteligência de mercado e transição sustentável, indicando que a presença feminina deixou de ser pontual e passou a integrar o debate estratégico da indústria.
Embora ainda distante da paridade, o avanço de mais de três pontos percentuais em uma década nos cargos de comando revela uma mudança cultural relevante. A indústria de alimentos, um dos pilares da economia nacional, começa a refletir um ambiente corporativo mais plural. E isso não se resume à representatividade: a diversidade tem sido associada a ganhos de competitividade, maior capacidade de inovação e decisões mais alinhadas às demandas contemporâneas do consumidor.
A nova configuração do setor também dialoga com um mercado que exige sensibilidade para temas como saudabilidade, sustentabilidade e responsabilidade social — áreas em que lideranças femininas têm desempenhado papel ativo na formulação de estratégias e no posicionamento de marcas.
A indústria da alimentação brasileira, tradicional em sua base produtiva e ao mesmo tempo desafiada por transformações tecnológicas e ambientais, encontra nas mulheres uma força que combina experiência, técnica e visão de futuro. A mudança pode ser gradual, mas é concreta — e, ao que tudo indica, irreversível.
*Roberta Tibery é gerente de Marketing e Trade Marketing da GSA Alimentos