Larissa Lessa
Há pouco menos de um ano, o biomédico Marcelo Leandro Valério resolveu deixar os 11 anos de profissão em um banco de sangue para abrir o próprio negócio. Na hora de escolher onde investir o dinheiro poupado, um dado chamou a atenção do empreendedor: segundo informações da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o índice de falência de franquias é estimado entre 1% e 2% ao ano, bem menor do que a taxa de mortalidade dos negócios independentes, que chega aos 50%. Hoje, Marcelo é franqueado de uma rede de cafés na qual investiu inicialmente R$ 190 mil e emprega dez pessoas. Segundo ele, a renda mensal cresceu três vezes desde que abriu o negócio em um shopping de Goiânia.
O empresário não está sozinho. Em Goiás, há 2.063 franquias associadas à ABF, representando 2,8% do total de unidades do país. Os números colocam o Estado como o décimo do país com a maior quantidade de unidades franqueadas, com faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2011. Para este ano, a projeção da ABF é de crescimento de 15% desse mercado, que no país representa 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Como vantagens, as franquias trazem consigo um modelo “já testado e aprovado no mercado”, como afirma o diretor executivo da ABF, Ricardo Camargo. Segundo ele, também chama a atenção dos novos empreendedores o tempo médio de abertura de uma franquia, que pode chegar a dois meses, contra até um ano nos negócios convencionais. O prazo de maturação do negócio também cai: “enquanto nos modelos convencionais o empreendendor leva de quatro a cinco anos para ter estabilidade, nas franquias em menos de um ano o empreendedor está pronto para abrir a segunda unidade”, conta o diretor executivo. É o que pensa fazer Marcelo, que avalia a possibilidade de abrir uma nova unidade ou apostar em uma microfranquia, modelo no qual o investimento inicial não passa dos R$ 50 mil e que já representa 17% do total de marcas de franquia do país.
Consultoria
Em Goiás, os candidatos a franqueados têm o apoio do Programa Sebrae de Franquias, pelo qual os empreendedores conhecem os negócios e são auxiliados por consultores para escolher a franquia mais adequada para cada perfil. Segundo o coordenador do programa no Estado, Paulo Renato Fava Adorno, cerca de 50 candidatos procuram o serviço por mês interessadas em investir no próprio negócio. São pessoas que pretendem iniciar um negócio contando com a credibilidade de uma marca já conhecida no mercado. Renato conta que os empreendedores também são atraídos pelo suporte permanente do franqueador ao negócio.
Débora vai transformar o negócio em uma marca de franquia (Foto: André Saddi)
E como surgem as franquias? Quem vivencia essa experiência na pele é Débora Alcântara de Moraes e Souza, proprietária de uma rede de lojas especializada em cuidados para as unhas com a utilização de produtos 100% descartáveis. Depois de três anos na África como gerente de uma agência de turismo, Débora voltou para o Brasil decidida a abrir um negócio. Em março de 2011, ela investiu cerca de R$ 150 mil para abrir a primeira loja em Goiânia. Desde então, outras duas unidades foram inauguradas e o número de funcionários pulou de oito para 50. São cerca de 10 mil clientes cadastrados nas três lojas.
O mercado goianiense chamou a atenção da empreendedora, que procurou o Sebrae para avaliar a possibilidade de transformar o negócio em uma rede de franquias. Com o diagnóstico de que o negócio atende os requisitos para ser franqueado, Débora espera que o processo esteja concluído nos próximos meses. Segundo Paulo Renato, o segmento no qual a empresária aposta é o mais procurado no Estado, “principalmente por mulheres. Alimentação, prestação de serviços e principalmente as [franquias] que atendem o público feminino”, conta. Para o diretor executivo da ABF, a transformação de um negócio em franquia também traz economia para o empresário. “Cai o gasto inicial para a abertura de uma unidade e também aumenta a escala de compra dos fornecedores, com garantia de descontos mais vantajosos e verbas maiores para o marketing”, afirma.
Cuidados
Por outro lado, o consultor do Sebrae alerta para as desvantagens das franquias, como a flexibilidade limitada do empreendedor, que deve seguir rigidamente as obrigações estabelecidas pelo franqueador. Paulo Renato lembra também que todo cuidado é pouco no momento da escolha da marca franqueada. Se a rede tiver um sistema problemático, que acarrete atraso na entrega de produtos e equipamentos, deficiência na variedade de produtos ou pouca inovação, quem perde em rentabilidade é o franqueado. Além disso, a instalação do ponto de venda é responsabilidade do franqueador: mesmo que o franqueado tenha um bom imóvel, a escolha do local de instalação depende de um estudo de localização feito pela marca escolhida.
Para reduzir esses riscos e evitar entrar nos índices de mortalidade de negócios, o diretor executivo da ABF recomenda que o candidato avalie com cuidado a franquia ao conversar com outros franqueados, pesquisar em sites especializados ou visitar feiras de negócios. “E não pense que você vai trabalhar menos porque é o ‘dono do negócio’. Administrar uma empresa dá trabalho”, lembra o empreendedor Marcelo.