João Gabriel Freitas
Até então sem se acostumar com a alcunha de “presidente”, lhe atribuída no Goiás desde o dia 29 de dezembro de 2011, o advogado João Bosco Luz traça os primeiros passos de sua primeira administração no clube esmeraldino, em um ano novamente carregado pelo discurso da superação.
Sem levantar o caneco do Estadual há dois anos e com o retorno à Série A frustrado em 2011, torna-se natural junto à nova presidência os objetivos a serem almejados. Como buscá-los é o que João Bosco Luz começa a traçar na sua primeira semana à frente do Verdão. “Se você se escorar na dificuldade financeira para justificar um eventual fracasso, na verdade você está justificando uma incompetência”, afirma .
Em entrevista exclusiva ao jornal A Redação, João Bosco Luz falou do processo de saneamento das dívidas esmeraldinas, política interna do clube, a montagem da equipe para novamente voltar a conquistar títulos, angariar a confiança do torcedor e arrancar em 2012 o cobiçado acesso à Série A . Confira abaixo:
AR- A presidência do clube lhe veio em um momento ideal?
João Bosco Luz – Preparado eu me sinto para exercer. Ela só não veio num momento ideal para mim, para minha vida profissional (João Bosco é advogado e era procurador do Superior Tribunal de Justiça Desportivo -STJD). Isso não é o ideal. Mas preparado para lidar com o clube me considero preparado.
AR – Ao assumir o Goiás no atual momento, torna-se natural o discurso de resgate, de levar o clube novamente à Primeira Divisão, sobretudo depois da decepção no ano passado. O que é preciso de fato para isso?
João Bosco Luz – O problema é que futebol, em qualquer época que você assumir um clube, ele vai estar em dificuldade financeira. Então se você se escorar na dificuldade financeira para justificar um eventual fracasso, na verdade você está justificando uma incompetência sua. Agora, é lógico que nós passamos uma situação peculiar no final de 2010 e todo o ano de 2011, que foi onde o Goiás teve que trabalhar além de sua capacidade financeira para corrigir os erros que foram cometidos anteriormente. Após esses 15 meses de saneamento é possível já pensar num planejamento para alavancar o Goiás não nos próximos dois anos, mas nos próximos dez anos. Além de dar prosseguimento à política de saneamento do Goiás, nós já temos condições também de investir para que o Goiás possa voltar às conquistas que ele sempre conseguiu, e principalmente o acesso à Série A.
AR – Como está esse balanço financeiro? A dívida foi reduzida para uma quantia manobrável e é possível se falar em valores?
João Bosco Luz – As dívidas ainda são muito grandes, mas eu não falo de valores. Aos poucos nós estamos equacionando e pode ter certeza que nesse planejamento, dentro de um prazo razoável, nós vamos conseguir sanear o Goiás.
AR – Durante 2011, o Goiás parece ter resgatado nas rodadas finais da Série B uma postura de competitividade que se fosse aplicada desde o início do ano poderia ter garantido o acesso. Normalmente quando times de maior representatividade sofrem o rebaixamento, costuma investir pesado em marketing, para puxar o torcedor e favorecer esse processo de superação. Há algum projeto de marketing nesse sentido a ser trabalhado desde já?
João Bosco Luz – O problema nosso é que no ano passado, o início do ano ainda estava muito conturbado. Muitos problemas. O Sr. Hailé (Hailé Pinheiro, presidente do Conselho Deliberativo) pegou o clube com três meses de salário atrasado, com uma dívida enorme, então isso foi muito difícil. Só começou a dar uma clareada nos meses de junho, julho. Quanto essa questão de marketing, o maior marketing para o torcedor, para que ele abrace o time, é você mostrar um time. E é o que nós estamos fazendo. Hoje o Goiás tem um time, estamos montando uma equipe cujo principal objetivo é a conquista do Campeonato Goiano, uma boa participação na Copa do Brasil e, principalmente, o retorno à Série A. Esse é o principal objetivo: conquistar títulos em 2012. Acredito que o time que estamos montando tem plenas condições de nos dar essas vitórias.
AR – A diferença do nível técnico do Estadual com as demais competições nacionais não gera uma divisão entre o time montado agora e o que vai ter que buscar o acesso posteriormente na Série B?
João Bosco Luz – O time que estamos montando no momento é para todas as competições de 2012. A base é essa. A nossa pretensão é, dentro das necessidades, fazermos alguns ajustes, mas a base é essa. O time que estamos montando é para o Campeonato Goiano e para o Brasileiro. O que a gente espera é que durante o Goiano esse time cresça fisicamente e, com o conjunto, cresça tecnicamente. Isso para podermos entrar no Campeonato Brasileiro com um nível mais elevado do que no ano passado.
AR – Qual o perfil da atual presidência o senhor pretende imprimir nesse biênio? Pretende ser aquele presidente de maior interferência no time, proporá mudanças, acompanhando treinos…
João Bosco Luz – A função do presidente é comandar, não é executar. Quem executa são as respectivas pastas. Então, lá no futebol, quem executa é o gerente de futebol, junto à comissão técnica e, consequentemente, os jogadores. Eu acompanho os jogos por que sou torcedor, mas não há a necessidade. O que nós temos que trabalhar é comandar e dar a essas pessoas condições de exercer o seu trabalho.
AR – Haverá mudanças no quadro da diretoria de futebol? Algum nome novo a ser chamado?
João Bosco Luz – Nós não vamos nomear diretor de futebol. No futebol ficará o Marcelo Segurado, como um gerente de futebol, o qual terá a responsabilidade de intermediar o diálogo entre a diretoria, a comissão técnica e o elenco. Nós sabemos que ele é uma pessoa qualificada, com o perfil executivo da pessoa que precisamos, já que é um torcedor, que quer fazer o melhor para o Goiás e, acima de tudo, é uma pessoa honesta.
AR – Muito se falou e discutiu em 2011 sobre a construção de uma nova arena para o clube, aqui mesmo na Serrinha? Você considera a proposta viável, tanto financeiramente quanto ao local?
João Bosco Luz – Considero totalmente viável e nós vamos trabalhar em cima desse projeto e tentar de todas as formas viabilizar a construção da arena. Se viabilizada será construída aqui na Serrinha, pois será uma arena multiuso. Lá no CT, continuará como centro de treinamento, e centro de treinamento não é lugar de se construir estádio. Estádio será aqui na Serrinha, onde é uma região bem localizada, onde se poderá dar outros tipos de utilização a essa arena. O projeto já está em andamento,e a partir do momento em que se faz um projeto tem-se esse fluxo, tanto de investimento quanto de retorno. E isso está tudo previsto.
AR – Seria possível traçar uma data estimada de construção?
João Bosco Luz – Nós não temos pressa. Precisamos fazer uma coisa que não vá onerar o Goiás e que o clube apenas ganhe, sem qualquer risco de perda. Trata-se do Goiás construir sem um investimento próprio, mas é claro que o clube terá que ceder, por um determinado tempo de exploração e isso futuramente voltará a ser explorado completamente pelo Goiás.
AR – Nos últimos anos a direção do clube ficou muito marcada pela assimilação com famílias e grupos internos, como Raimundo Queiroz, Hailé Pinheiro. Como você trabalha a política interna do clube?
João Bosco Luz – O Goiás é uma associação civil, sem fins lucrativos, e tem no seu quadro de associados um número de pessoas, algumas com grandes diferenças. Mas que buscam o melhor para o Goiás. Claro que, quando se fala de famílias, algumas tem toda uma história dentro do Goiás, e isso tem que ser respeitado. Ninguém pega 50 anos de uma pessoa, como é o caso do Hailé Pinheiro, e joga pela janela. Nesses 50 anos, além dos serviços que ele prestou ao Goiás, ele acumulou muita experiência. Então é preciso valorizar o serviço que ele prestou e a experiência, que é útil aos atuais administradores. Então, essa questão que falam de família Pinheiro, de que não sei o quê, não. O que se fala da família Pinheiro dentro do Goiás é do trabalho. Não existe um ato de desonestidade dentro do Goiás.
AR – O Goiás já foi marcante na revelação de jogadores que viriam posteriormente a despontar nacionalmente, inclusive na seleção brasileira? Como tornar isso uma constância como uma forma de capitalização do clube.
João Bosco Luz – Estamos trabalhando com o objetivo de montar uma equipe na categoria de base para nos dar um grande retorno. As bases terão uma atenção especial. Inclusive, nós vamos construir uma casa, destinada aos atletas da base, com recursos obtidos pelo sr. Hailé. Dei a ele a liberdade para que comande a construção dessa casa, já tem um local. Então dentro de algum tempo nós teremos essa casa para a base, para formar atletas, para municiar o time profissional de atletas de alto nível.