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(Foto: Reprodução/TRE-AM)
(Foto: Reprodução/TRE-AM)

Desinformação digital desafia eleições de 2026 e preocupa autoridades

Deepfakes avançam e pressionam fiscalização eleitoral

06.12.2025 - 08:00:49
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Samuel Straioto

 

Goiânia – A inteligência artificial emerge como uma figura protagonista nas eleições de 2026, trazendo ao cenário político local e nacional desafios inéditos. Deepfakes ultrarrealistas, mensagens hiperpersonalizadas e desinformação em escala industrial configuram o novo ambiente que partidos, candidatos e órgãos de fiscalização precisam enfrentar. Goiás, que terá disputas para governador, senador e deputados, insere-se em um contexto nacional onde a tecnologia tanto democratiza campanhas quanto ameaça a integridade do processo eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral regulamentou pela primeira vez o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral através da Resolução 23.732/2024, proibindo deepfakes e exigindo avisos explícitos sobre conteúdos gerados por IA. A norma será testada nas eleições gerais de outubro de 2026. A Agência Brasileira de Inteligência identificou a segurança do processo eleitoral como um dos cinco principais desafios para o próximo ano, enquanto processos judiciais sobre deepfakes saltaram de três em 2022 para 109 em 2024.

Tecnologia transforma campanhas
A evolução dos recursos digitais alterou profundamente a forma como campanhas eleitorais são conduzidas no Brasil. Candidatos com orçamentos limitados conseguem produzir conteúdo de qualidade profissional usando ferramentas de inteligência artificial, desde criação de vídeos até edição de imagens e produção de textos para redes sociais. A democratização do acesso tecnológico reduz barreiras históricas que favoreciam candidaturas com maior poder econômico.

O cientista político Felipe Andrade explica que a tecnologia criou um cenário ambíguo. “A inteligência artificial democratizou o acesso às ferramentas de campanha, permitindo que candidatos com menos recursos produzam conteúdo profissional. Mas essa mesma facilidade criou um ambiente propício para manipulação em massa. O desafio está em aproveitar os benefícios da inovação sem comprometer a integridade do debate político”, analisa.

Em Goiás, pré-candidatos ao governo estadual já utilizam redes sociais e ferramentas digitais para construir suas bases de apoio desde 2025. A disputa que envolve nomes de pré-candidatos como Daniel Vilela, Marconi Perillo, Wilder Morais e Edward Madureira deverá incorporar recursos de inteligência artificial nas estratégias de comunicação com eleitores.

Deepfakes preocupam especialistas
A criação de vídeos e áudios manipulados por algoritmos atingiu níveis de realismo que dificultam a identificação visual. Figuras públicas como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Fernando Haddad já foram alvos de deepfakes que circularam nas redes sociais com conteúdos completamente fabricados. A velocidade de disseminação representa o maior desafio, já que um vídeo falso pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, enquanto desmentidos levam dias para ter o mesmo alcance.

O professor de ciência da computação Marcelo Tavares, especialista em inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás, alerta para a sofisticação crescente dessas ferramentas. “Os deepfakes evoluíram drasticamente nos últimos dois anos. Hoje, qualquer pessoa com um computador básico e acesso à internet consegue criar vídeos falsos convincentes em poucos minutos. A tecnologia avançou mais rápido do que nossa capacidade de identificar e conter essas manipulações”, afirma.

A Agência Brasileira de Inteligência divulgou em dezembro documento apontando que ataques cibernéticos com inteligência artificial figuram entre os cinco principais desafios para 2026. O relatório destaca que a rápida evolução da IA pode transformar a ferramenta em agente ofensivo autônomo, capaz de planejar, executar e adaptar ataques sem intervenção humana. As ameaças incluem tentativas de deslegitimação das instituições democráticas e disseminação de desinformação em larga escala.

Mensagens personalizadas e proteção de dados
Algoritmos de inteligência artificial permitem que campanhas criem narrativas específicas para diferentes grupos de eleitores, explorando dados pessoais e preferências individuais coletadas em redes sociais e aplicativos de mensagens. A estratégia de hiperpersonalização já foi utilizada em eleições recentes na Índia, onde campanhas realizaram centenas de milhares de ligações com mensagens personalizadas usando voz de políticos.

A prática esbarra em limites legais estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados. A advogada eleitoralista Paula Mendonça, especialista em direito digital, explica as restrições. “A LGPD estabelece que o uso de dados pessoais para comunicação eleitoral precisa de consentimento expresso do titular. Campanhas que utilizam informações coletadas sem autorização para segmentação podem ser punidas com multas pesadas e até cassação de registro. O TSE tem reforçado a fiscalização sobre essas práticas”, esclarece.

Pesquisa do DataSenado realizada em 2024 revelou que 81% dos brasileiros acreditam que notícias falsas têm potencial de influenciar votos. O dado demonstra a preocupação da população com a integridade do processo eleitoral em um ambiente digital cada vez mais complexo.

Regulamentação e fiscalização
A Resolução 23.732 do TSE estabeleceu marco regulatório para uso de inteligência artificial nas eleições. A norma proíbe deepfakes e determina que campanhas informem explicitamente quando utilizarem conteúdo gerado por IA. Punições variam desde multas até cassação de mandato para candidatos que violarem as regras.

Paula Mendonça avalia que a legislação avançou, mas enfrenta desafios práticos. “Temos uma regulamentação moderna e abrangente. O problema está na fiscalização durante o período eleitoral, quando o volume de conteúdo nas redes sociais cresce exponencialmente. Identificar violações em tempo real e aplicar punições antes que o dano esteja feito continua sendo o grande obstáculo”, observa a advogada.

O TSE formou em 2025 grupo de trabalho coordenado pela ministra Cármen Lúcia com especialistas para desenvolver estratégias de combate ao uso abusivo de inteligência artificial. O grupo reúne nomes como a professora Dora Kaufman, o cientista Silvio Meira e o diretor do Data Privacy Brasil, Bruno Bioni. A atuação busca criar mecanismos de monitoramento e contenção rápida de desinformação.

Tecnologia contra tecnologia
Sistemas baseados em inteligência artificial podem ser treinados para identificar conteúdo manipulado. Plataformas como Meta, X e YouTube já utilizam algoritmos para rastrear campanhas coordenadas de desinformação e remover conteúdos que violem políticas de uso.

Marcelo Tavares explica como a tecnologia pode combater seus próprios riscos. “Desenvolvemos algoritmos capazes de identificar padrões característicos de deepfakes, como inconsistências na iluminação, movimentos faciais não naturais e falhas na sincronização labial. O mesmo sistema que cria conteúdo falso pode ser adaptado para rastreá-lo. A questão é fazer isso em escala e velocidade suficientes para impedir a disseminação antes que cause dano”, detalha o especialista.

O Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral do TSE monitora redes sociais em busca de padrões de disseminação de conteúdo falso. A ferramenta permite acionar mecanismos de contenção quando identifica campanhas massivas de desinformação. A Agência Brasileira de Inteligência destacou em seu relatório os avanços do Brasil na área de cibersegurança, incluindo o desenvolvimento de aplicativo de mensagens governamentais com criptografia pós-quântica.

Felipe Andrade avalia que a atuação coordenada entre diferentes instituições será determinante. “O TSE tem investido em tecnologia para monitoramento de redes sociais e parcerias com plataformas digitais. O Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral consegue identificar padrões de disseminação e acionar mecanismos de contenção rapidamente. Mas é um trabalho permanente de adaptação, porque as técnicas de manipulação também evoluem constantemente”, explica o cientista político.

Educação digital como defesa
Tribunais Regionais Eleitorais de diversos estados promovem campanhas educativas para orientar eleitores sobre identificação de notícias falsas. As iniciativas ensinam a observar características técnicas que podem revelar manipulações, como textura estranha da pele em vídeos, sincronização imperfeita entre boca e fala, e movimento não natural dos olhos.

Paula Mendonça defende que a responsabilidade não é apenas das instituições. “Não basta ter leis e tecnologia de fiscalização. O eleitor precisa desenvolver senso crítico para avaliar informações que recebe. Checagem de fontes, busca por veículos confiáveis e desconfiança de conteúdos sensacionalistas são hábitos fundamentais. A educação midiática é tão importante quanto a regulamentação legal”, afirma a advogada.

A checagem de fontes, busca por veículos confiáveis e desconfiança de conteúdos sensacionalistas são hábitos fundamentais para o eleitor contemporâneo. Especialistas alertam que mesmo vídeos aparentemente autênticos podem ser completamente fabricados, tornando necessária a verificação em múltiplas fontes antes de compartilhar qualquer conteúdo.

Marcelo Tavares sugere mudança de mentalidade. “Precisamos abandonar o conceito de que ver é acreditar. Um vídeo que parece real pode ser totalmente fabricado. O eleitor deve questionar tudo, verificar múltiplas fontes e desconfiar de conteúdos que provocam reações emocionais intensas. Essas são as características comuns de campanhas de desinformação”, recomenda o especialista.

Desafios para 2026
Com menos de um ano para as eleições de 4 de outubro de 2026, quando mais de 155 milhões de brasileiros escolherão seus representantes, o país enfrenta o desafio de equilibrar inovação tecnológica e defesa da democracia. Em Goiás, onde a disputa pelo Palácio das Esmeraldas mobiliza diferentes forças políticas, o uso responsável da inteligência artificial será testado tanto nas campanhas quanto na fiscalização.

A regulamentação estabelecida pelo TSE permite que campanhas utilizem inteligência artificial desde que informem explicitamente sua utilização. A medida busca equilibrar inovação e transparência, permitindo que candidatos aproveitem recursos tecnológicos sem enganar eleitores. A responsabilização das plataformas digitais representa outro avanço importante, com obrigação de remover imediatamente conteúdos que violem a legislação eleitoral.

Felipe Andrade destaca que o momento exige maturidade democrática. “As eleições de 2026 serão um teste para a sociedade brasileira. A forma como instituições, plataformas digitais e eleitores responderem ao uso da inteligência artificial definirá padrões para o futuro. É necessário equilibrar inovação com segurança, liberdade de expressão com responsabilidade, e eficiência tecnológica com proteção dos direitos fundamentais”, conclui o cientista político.

A experiência brasileira é observada internacionalmente como laboratório para enfrentamento de desafios que afetam sistemas eleitorais em todo o mundo. O debate sobre inteligência artificial nas eleições evidencia que a tecnologia não é neutra. Seu impacto depende de como sociedade, instituições e indivíduos escolhem utilizá-la. As próximas eleições dirão se o Brasil conseguiu construir os mecanismos necessários para que a inovação fortaleça, em vez de ameaçar, o processo democrático.

 

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por Samuel Straioto
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