Jairo Macedo
Já se passaram 25 anos desde que o DeFalla decidiu estragar tudo e trilhar o caminho oposto ao do rock brasileiro de sua geração. Entre a vanguarda e o escracho total, o grupo gaúcho foi amado e odiado, passou por intermináveis formações, transitou por vários estilos e, na medida do possível, saiu vivo de todos eles. Tudo sob o comando do frontman Edu K, espécie de mistura de Mike Patton com Iggy Pop, só que canastrão desde sempre e hoje meio gordinho.
Logo no primeiro disco, o cultuado Papapaparty (1987), angústia pós-punk e groove dividem o mesmo espaço, algo intragável para os guetos da época. O disco seguinte, It’s Fuckin’ Borin’ to Death, abre com duas desconstruções de clássicos de Beatles e Raul Seixas. Neste registro de 1988, estava escancarada a porta do funk/metal/rap – em sincronia com o que Red Hot Chilli Peppers e Faith No More faziam lá
fora – e de toda a esquizofrenia que viria nos
seis discos seguintes. Tanta anarquia foi descambar até à “fase Miami”, uma das reencarnações da banda, sob forte influência do pancadão carioca e com o – vá lá… – curioso hit Popozuda Rock’n’Roll, em 2000. Dois anos depois, foi lançado Superstar, último álbum de estúdio até aqui.
Em 2011, o convite para um único show bastou para que os quatro integrantes originais, hoje morando em quatro estados diferentes do país, se reunissem em Porto Alegre. Novos convites surgiram desde então e Goiânia foi incluída na rota. O DeFalla está na programação de 17º Goiania Noise e toca no próximo sábado (3/12). A Redação conversou com Castor Daudt, guitarrista da banda, eufórico na ocasião em função do show que fariam naquela noite no Ocidente, bar portoalegrense berço do DeFalla e de quase todo o rock da cidade.
Como é que foi acontecer esta nova reunião da banda?
Tem um projeto em Porto Alegre, chamado Discografia Rock Gaúcho, que tenta reunir as bandas para executarem um disco inteiro com a formação original. Eles nos convidaram – eu, Biba, Flu e Edu K – pra tocar o nosso primeiro disco. Neste evento, tivemos que fazer duas sessões na mesma noite. Lotamos duas vezes a casa. Aí a gente pensou: ‘De repente, se aparecer outras oportunidades de shows, podemos fazer’. Daí começaram a nos propor novos shows. Pintou um em São Paulo, depois outro em Porto Alegre, no Porão do Rock em Brasília, na festa SeRasgum em Belém. Foi uma recepção totalmente inesperada.
No show, são só as músicas antigas ou tem coisas novas surgindo? Existe alguma possibilidade de disco de inéditas?
Nós nos reunimos pra tirar o Papaparty, basicamente, e depois o segundo. Neste show em Goiânia, 80% do show vai ser composto por estes dois discos, que são aqueles gravados com essa formação, e algumas dos outros também. E estamos pensando em disco novo sim. Temos trocado bases e riffs pela internet. A Biba faz vários ritmos, loops, sequências, manda para nós e botamos guitarra e baixo em cima. Neste processo, duas ou três músicas estão em andamento. Já tivemos até propostas de gravadora, mas não há material o suficiente ainda. Em 2012, rola algo com certeza.
Com tantas idas e vindas, é possível dizer que o DeFalla está voltando de fato? Ou ele nunca foi embora?
Bom, eu saí faz uns 15 anos. A partir de 1996, virou basicamente uma coisa do Edu. Depois do disco de 92 (Kingzobullshitbackinfulleffect92, lançado pela Cogumelo Records), não era mais uma banda. O show no Hollywood Rock simbolizou este último momento. O Edu saiu e lançou um disco solo, Meu nome é Edu K. Nós outros tínhamos um monte de músicas e reunimos um outro time. Usamos o nome D-Phala, não era bem o DeFalla. Depois o Edu retomou o nome e fez outros discos. Aconteceram outras voltas meio curtas, mas agora foi a hora exata. Teve tempo da gente amadurecer e foi a coisa certa no momento certo.
Olhando para trás agora, onde o DeFalla se situa no rock brasileiro dos anos 80?
A gente foi aquele outro lado que devia existir. Nos anos 80, era todo mundo muito bundinha. Meio xarope mesmo eram só o Renato Russo e o Cazuza, mas o som também era muito bundinha. Todos queriam fazer sucesso e dinheiro, enquanto nós não estávamos nem aí: escrevíamos letra em inglês, juntava com português, fazíamos o que queríamos. A gente rescindiu contrato com uma multinacional, por exemplo, o que ninguém faria. Fizemos o caminho inverso, saindo do mainstream e indo para o independente. Entendo que nossa banda foi necessária para contrabalancear essa bundice. Tem que ter sempre um lado. Nós éramos o outro lado da moeda do rock nacional.
E o tal do rock gaúcho, ou o que se convencionou chamar de “rock gaúcho”, isso existe?
Andei pensando nisso e acho que o rock gaúcho não existe. Pra mim, Kleiton e Kledir foram os únicos que misturaram o estilo gauchesco com rock e MPB. O Nenhum de Nós também tenta fazer, tem sanfoneiro e tal, mas ficam em um meio-termo. Não é gauchesco, nem é pop rock. Podemos dizer que, embora excelentes, as outras bandas – Replicantes, Cascavelletes, TNT, Garotos da Rua, etc. – eram uma cópia do rock inglês com sotaque gaúcho. Tinha letras, atitude, mas em termos musicais vai muito pelo rock inglês e americano. Nós temos aquele espírito separatista, o rock gaúcho sempre tentava ser diferente, mas nunca foi bem assim.
Como foi assistir de longe aquela guinada para o funk carioca feita pelo Edu K?
De fora, foi muito estranho (risos). Na época, eu ri muito, já que o DeFalla sempre foi mais vanguarda e, de repente, ele fez uma coisa bem do povão. Eu acho que ele usou o nome do DeFalla, mas era muito mais uma coisa dele. Considero que era “Edu K e DeFalla”. O Edu não fez de propósito, pra ganhar dinheiro. Ele faz o que ele quer e, se as pessoas até pedem nos shows, como vou ser contra? Não sou contra algo que ele faz para pagar as contas dele. Até tocamos a música da popozuda em São Paulo, com participação do Beijo AA Força, e estamos pensando em ensaiar uma versão mais pesada dela.
É fácil voltar a conviver e fazer música com um sujeito hiperativo como ele?
O Edu K é uma figura muito forte. Ele tende a ficar sempre nos puxando pra um lado e depois para o outro. Eu e o Flu, que somos mais velhos e o conhecemos há muito tempo, sempre contrabalanceávamos. Ou às vezes a gente ia com ele mesmo (risos). Mas existe essa química, que é o legal hoje. Os quatro tem 25% de valor e opinião. Acho até que o Edu tava com saudade dessa colaboração. Ele ficou fazendo tudo sozinho durante muito tempo. Ninguém faz tudo só.
Em seu blog, você fez uma pergunta retórica sobre “o que faz um coroa caretão como eu pegar a guitarra empoeirada e sair por aí fazendo rock”. Qual é a resposta para essa pergunta?
É o amor pelo rock, cara, pela música. É maior que tudo. Conheço muito cara que larga mulher, emprego, o que tiver. É um apelo irresistível. Tenho 49 anos, filha, emprego, mas quando tem show eu me arranco. Digo: “Ah, eu vou, não sei quando vai ter outro”. Tenho duas guitarras aqui, tô cheio de mala, bagagem, vou para o aeroporto e foda-se. Olha o Paul McCartney, cara. Vai fazer 70 anos e vai lá, faz show de duas horas e meia. Já tem dinheiro e fama, mas ainda faz isso. Isso é afudê!
Veja abaixo o vídeo da música “O que é isso”, segunda faixa do disco de
estreia da banda, tocada durante uma das apresentações deste ano do
DeFalla:
Serviço:
17º Goiânia Noise
Data: 2 e 3/12, sexta e sábado
Local: Sol Music Hall (Clube Jaó)
Horário: a partir das 18 horas
Ingressos: R$ 30 (meia-entrada por noite)
Pontos de venda: Monstro Discos, Ambiente Skate Shop, Harmonia Musical, Hocus Pocus e Trupe do Açaí
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