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Juscelino Kubitschek com trabalhadores na construção de Brasília. Foto de Mário Fontenelle (Foto: Arquivo Público do Distrito Federal) 
Juscelino Kubitschek com trabalhadores na construção de Brasília. Foto de Mário Fontenelle (Foto: Arquivo Público do Distrito Federal) 

Constituinte em 1946, Juscelino lutou para levar a capital federal para o Triângulo Mineiro

Informações integram exposição que será aberta no IHGG

04.12.2025 - 17:43:31
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Jales Naves
Especial para o jornal A Redação

 

Goiânia – Maior obra de sua revolucionária gestão, que redimensionou o país e possibilitou a integração e o desenvolvimento de todas as regiões brasileiras, Brasília, dez anos antes do início de sua construção em Goiás, em 1956, não era uma proposta do então deputado constituinte por Minas Gerais, Juscelino Kubitschek.

Antes de se candidatar a Presidente da República, em 1955, pelo Partido Social Democrático, JK lutou para alterar o local da futura capital, no Quadrilátero Cruls, em Goiás. Ao ser eleito Deputado Constituinte em 1945, ele apresentou argumentos desfavoráveis à transferência da capital para o Planalto Central, como previsto pela Constituição de 1891, e defendeu a ideia de que a área mais indicada para o futuro Distrito Federal seria o Pontal do Triângulo Mineiro.  Os fundamentos técnicos dessa proposta constam do trabalho “Memória sobre a mudança do Distrito Federal”, de Lucas Lopes, e Juscelino os utilizou em pronunciamento na Constituinte, em 1946, inclusive propondo a inclusão desse documento nos anais da Assembleia. Incluiu mapas físico-políticos do DF anteriores à data de sua fundação.

Os dados foram levantados pela arquiteta e historiadora Lenora Barbo, para quem, “muito provavelmente em função dessa obra, Lucas Lopes foi nomeado como membro da Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil (1946-1948), também conhecida por Comissão Polli Coelho, encarregada dos estudos finais para a definição da exata localização da Nova Capital”.

As informações integram a exposição “Brasília – O alicerce goiano de um sonho brasileiro”, que será aberta às 19h desta sexta-feira, dia 5, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, resgata a história da terceira Capital Federal e projeta Goiás, pelo desprendimento na cessão das terras para abrigá-la e o esforço de seus representantes em viabilizar esse sonho.

De outro lado, o contexto da Segunda Guerra Mundial acentuou uma nova variável: a segurança nacional. A vulnerabilidade do litoral a partir dos bombardeios alemães no Rio de Janeiro levou à organização de uma expedição militar estratégica, por iniciativa do Estado-Maior do Exército, a “Roncador-Xingu”, guiada em campo por Acary de Passos, em 1943, que penetrou o sertão à procura de um sítio seguro, para, em caso de necessidade, transferir o poder central.

Personagens de destaque
Alguns personagens que se destacaram nesse trabalho, conforme levantamento feito pela historiadora Lenora Barbo, sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, ao se envolver com a proposta idealizada pelo presidente do IHGG, Jales Guedes Coelho Mendonça, de resgatar a participação de Goiás e dos goianos na construção de Brasília em território goiano:

Acary de Passos Oliveira, nascido no Rio de Janeiro, militar e sertanista, que se dedicou por 40 anos à causa indígena. Em 1939, foi designado para construir um campo de pouso na Ilha do Bananal, TO, à época em território goiano, para a visita do presidente Vargas em área indígena Karajá. O contexto de segurança nacional era um dos pilares da “Marcha para o Oeste”; a Expedição Roncador-Xingu, da qual o sertanista foi um dos líderes de campo, era a ação prática dessa política. De 1957 a 1965, ele integrou à Comissão de construção de Brasília e assessorou o Presidente da Fundação Brasil Central. De 1969 a 1981, Acary foi diretor do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás.

Hosannah de Campos Guimarães, goiano de Planaltina, médico, pecuarista e político, teve papel decisivo no apoio à transferência da capital para o Planalto Central. Vice-Governador e atuando em conjunto com o governador Jeronymo Coimbra Bueno (1947-1950), deu apoio logístico direto à Comissão Polli Coelho. Ele hospedou seus integrantes, por três vezes, em sua casa e mandou construir uma pista de pouso e uma estação de rádio em sua fazenda, a “Larguinha”, para uso dos técnicos. Além disso, percorreu pessoalmente toda a região de Planaltina e do rio Maranhão com os membros da comissão, ajudando a colher amostras de calcário e a verificar o potencial hídrico e climático do local. Com a saída de Coimbra Bueno do Governo estadual, para se dedicar exclusivamente às questões da mudança da capital, Hosannah Guimarães concluiu o mandato como Chefe do Executivo (1950-1951).

Em 1946, com a revisão constitucional, a mudança da capital do país para o Planalto Central foi incluída nas Disposições Transitórias da Constituição. No novo contexto, essa disputa técnica foi levada para o grupo nomeado em 1946 pelo presidente Eurico Gaspar Dutra: a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital. Os integrantes da Comissão foram recebidos em Goiás por autoridades locais. Tanto Lucas Lopes quanto Jeronymo Coimbra Bueno foram nomeados membros, transformando a comissão na arena decisiva para o embate entre os projetos de Minas Gerais e Goiás. O relatório dessa comissão, presidida pelo general Polli Coelho, tornou-se um documento técnico e político central. Encaminhado ao Congresso em 1948, o relatório reafirmou a viabilidade do projeto no Planalto Central, no coração de Goiás, rejeitando a tese do Triângulo Mineiro e ampliando a área original demarcada por Cruls com base em argumentos geopolíticos.

O general Djalma Polli Coelho (1892-1954) nasceu em Curitiba, PR. Engenheiro geógrafo militar, dirigiu o Serviço Geográfico do Exército (1946-1951) e presidiu o IBGE (1951-1952). Nomeado em 1946 pelo Presidente Dutra para cumprir a determinação constitucional, ele liderou os trabalhos da Comissão Polli Coelho, composta por técnicos altamente qualificados. Com o apoio do Conselho Nacional de Geografia e do IBGE, também organizou duas expedições de campo, uma comandada pelo geógrafo francês Francis Ruellan e outra pelo geógrafo Fábio Guimarães, com assessoria do geógrafo alemão Leo Waibel, que percorreram milhares de quilômetros, entre Goiás e Minas Gerais. Com base nos estudos e avaliações pelos técnicos das duas expedições, a Comissão votou pela confirmação do Quadrilátero Cruls como o melhor sítio.

O militar se cercou de todas as certezas possíveis, inclusive pedindo uma manifestação ao Estado Maior do Exército, que, em Relatório Reservado, concordou com a indicação do Planalto de Goiás. Em 1948, o “Relatório Final da Comissão Polli Coelho” confirmou o Planalto Central como o melhor sítio e sugeriu a ampliação do Quadrilátero Cruls original, propondo uma nova área com cerca de 78.000 km², conhecido como “Polígono Polli Coelho”.

João d’Abreu Caldeira (1888-1976) nasceu em Santa Maria de Taguatinga, TO, então pertencente a Goiás. Foi uma figura política multifacetada em Goiás: dentista, advogado, deputado estadual e constituinte (1935-1937), Governador do Estado (1937) e Vice-Governador (1959-1961). Sua contribuição para a transferência da capital federal foi como um combativo parlamentar e mudancista durante a Assembleia Constituinte de 1946, na qual atuou como deputado federal (1945-1948). Ele teve um papel de destaque ao ajudar a definir o prazo para a execução do projeto e influenciou as decisões para manter a capital no Planalto Central, resistindo à forte pressão que queria levá-la para o Triângulo Mineiro. Seu discurso de 1946, “A Nova Capital do Brasil de João d’Abreu”, é considerado uma peça decisiva para o sucesso da causa, citado por Teixeira de Freitas, secretário-geral do Conselho Nacional de Estatística do IBGE.

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por Bruno Hermano

*Jornalista, formado pela UFG. Editor do jornal A Redação.

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