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Eliane de Carvalho .
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Eliane de Carvalho é jornalista e mestre em Rel. Intern. Foi repórter na CBN e em programas de TV da Globo, Band e Cultura; comandou programa de entrevistas na TV Câmara SP; apresentadora de telejornal na TV Alesp e correspondente do SBT, na Espanha. / jornalistas@aredacao.com.br

INQUIETUDES

Por que os jovens estão mais conservadores?

| 29.08.25 - 14:10 Por que os jovens estão mais conservadores? (Foto: reprodução/formacao.cancaonova.com)
Há décadas, ou quem sabe séculos, prevalece a ideia de que a juventude é libertária, tem sede de mudança, desafia os padrões tradicionais de uma sociedade, participa da política e tem poder de mobilização. Existem muitos outros esteriótipos, mas podemos partir desses. 
 
São rótulos que, historicamente, remetem à posições mais ligadas ao campo conhecido como progressista, ou até de esquerda. Jovens eram comumente classificados como progressistas e os mais velhos conservadores. Mas como escreveu Zygmunt Bauman no livro Modernidade Líquida, nada mais é tão simples, preto no branco,  matemático. A realidade é fluida e muito mais complexa, plural e diversa. Os rótulos de sempre já não se encaixam sob medida na geração Z, aqueles que nasceram entre 1995 e 2010, que têm entre 15 e 30 anos. Estudos feitos aqui no Brasil e em outras partes do mundo, mostram isso. E um dos pontos comuns é que eles estão mais conservadores. 
 
Muitos pesquisadores se referem à geração Z como nativa digital, ou que já nasceu sob a influência das redes sociais, também aos que possuem padrões associados ao conservadorismo, como desejo pela casa própria - apesar de enfrentarem um mercado mais instável, até com o desaparecimento de algumas profissões - demoram mais para começar a vida sexual, fazem menos sexo casual, bebem menos álcool e participam menos da política. 
 
Uma sondagem global do Barômetro Open Society analisou as respostas de mais de 36 mil pessoas de 30 países sobre democracia, direitos humanos, desafios nacionais e mundiais e constatou que 71% dos entrevistados com mais de 56 anos de idade acreditam que a democracia é a melhor forma de governo. Este percentual cai para menos de 60% entre pessoas de 18 a 25 anos. Mais um dado relevante do estudo: entre os mais velhos, apenas 20% consideram o regime militar a melhor forma de governo. Já entre os mais jovens, o percentual ultrapassa os 40%. Uma inversão significativa em relação às crenças do passado. 
 
Mas vamos focar nos jovens aqui no Brasil. Já não dá mais para analisar as posições políticas deles através apenas do partido em que votaram. A psicóloga e estudiosa do tema juventude e autoritarismo, Beatriz Besen, encontrou com muita frequência em seus estudos, jovens, que se autodenominam conservadores e ao mesmo tempo se dizem contra o armamento da população e outros que se consideram progressistas e são contrários a descriminalização do aborto. A coerência esperada não se confirmou e ficou demonstrado que o tema é mais complexo, porque jovens podem se posicionar dentro de um espectro político - progressista ou conservador - e se manifestar de forma considerada contraditória sobre as questões sociais. 
 
Uma pesquisa do instituto Genial/Quaest de março de 2023 revelou que mulheres são menos conservadoras que os homens, mas somente as mulheres jovens da geração Z são majoritariamente mais progressistas.  A pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e autora dos livros Menos Marx, Mais Mises e Feminismo em Disputa, Camila Rocha, corrobora com este resultado e conclui que mulheres são mais flexíveis do ponto de vista partidário e ideológico e, a depender dos acontecimentos, aceitam mudar de posição. 
 
Em um dos estudos da Camila, 30% das mulheres entrevistadas, que se apresentaram como conservadoras, também se diziam feministas;  entre as autointituladas progressistas, o percentual de feministas sobe para 48%. Quando as perguntas se referem às questões de gênero, mulheres de ambos espectros políticos apontam, em primeiro lugar, a igualdade salarial e, em segundo, a segurança das mulheres, tanto nas esferas pública, quanto privada. E este é um ponto muito interessante, porque nos mostra um caminho para a despolarização, porque onde há pontos de vista comuns, também existem pontes para o diálogo, que podem e devem ser trabalhadas, se buscarmos uma sociedade distensionada.  
 
Cabe aqui, voltar mais uma vez, ao estudo da Beatriz Besen, que também conclui que o gênero é determinante e aglutinador entre jovens mulheres, quando o tema é violência, por causa da realidade feminina, no Brasil. Mas destaca que o gênero não tem o mesmo peso, quando se trata de participação política, onde não há uma divisão completa entre conservadoras e progressistas por gênero. 
 
Para vocês verem que realmente não é tão simples, Beatriz Besen também, não raro, se deparou com mulheres jovens anti-feministas, em suas pesquisas. O anti-feminismo tem uma grande importância dentro do conservadorismo e é sabido que o movimento feminista está sob ataque. Hoje, praticamente não há espaço para debater questões como a descriminalização do aborto, no país. A guinada conservadora também fica evidente diante das pautas anti LGBTQIA+. Muitos analisam que este é um movimento histórico natural de reação aos anos de grandes avanços nessas áreas, mas as pesquisadoras citadas aqui, acreditam que é mais que isso.  
 
Não dá para afirmar que os jovens da geração Z têm uma menor participação política, em relação às gerações anteriores, sem levar em conta que a forma de se engajar na política também mudou. Muito além da filiação partidária e das manifestações nas ruas, há a participação através das redes sociais. Afinal, esta não é a geração nativa digital? 
 
Boa parte desses jovens se informa através das redes, onde os chamamentos à participação política são constantes. As redes são espaços de participação, de convivência e de informação, mesmo que questionáveis. Há uma parcela significativa de jovens ativistas digitais, que produzem muito conteúdo. O problema são os algoritmos e a forma como estes analisam e distribuem os conteúdos sempre para seus iguais, restringindo a discussão a uma única visão, evitando a pluralidade do debate e criando ambientes propensos à radicalização.
 
Sem a regulação das redes digitais, através de leis que coíbam os discursos de ódio, os ataques à democracia e às minorias sociais, as notícias falsas, para citar alguns exemplos, o risco à radicalização permanecerá. As denúncias recentes de exploração sexual infantil nas redes, feitas pelo  youtuber Felca, forçaram o debate da regulação no Congresso Nacional e no governo federal. Vamos ver no que vai dar. 
 
As duas pesquisadoras citadas acima, apesar dos estudos completamente independentes, encontraram abertura para a criação de espaços de diálogo, mesmo em segmentos onde aparentemente não existe esta flexibilidade. Camila Rocha fala em pontes de diálogo possíveis entre mulheres conservadoras e progressistas e Beatriz chama a atenção para homens jovens, que se autodenominam conservadores, mas não se identificam totalmente com as pautas também ditas conservadoras. Ela destaca a necessidade de criação de espaços de debate para esses jovens, de uma maneira acolhedora. Espaços onde eles circulam e seja possível fazer mediações, porque entende que nas redes digitais, com seus discursos inflamados, isso  não seria possível.
 
Ainda que considere as ideias válidas, me parecem insuficientes para dar conta da força do fenômeno das redes e suas consequências. Mas pode ser um dos caminhos para atuar sobre um fato que já não há como negar:  os jovens estão mais conservadores.

Comentários

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  • 29.08.2025 16:37 Laura Minerva Nogueira de Carvalho Neiva

    Parabéns

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Eliane de Carvalho .
Eliane de Carvalho .

Eliane de Carvalho é jornalista e mestre em Rel. Intern. Foi repórter na CBN e em programas de TV da Globo, Band e Cultura; comandou programa de entrevistas na TV Câmara SP; apresentadora de telejornal na TV Alesp e correspondente do SBT, na Espanha. / jornalistas@aredacao.com.br

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