A Redação
Goiânia – No ano em que completa três décadas de estrada, a Cia de Teatro Nu Escuro apresenta um novo trabalho ao público de Goiânia. Sob direção de Rô Cerqueira, o grupo estreia “A Casa Verde” no próximo dia 30 de janeiro, às 20h, na Oficina Cultural Gepetto, no Setor Pedro Ludovico. O espetáculo é uma releitura contemporânea de outro trabalho da cia, “O Alienista”, de 2006, inspirado no conto homônimo de Machado de Assis.
“Casa Verde” parte da narrativa criada por Machado de Assis no século XIX – a história do Dr. Simão Bacamarte e sua tentativa de catalogar e curar a loucura na pequena Itaguaí – para interrogar nosso presente. “Quem define o que é loucura? Quem tem o poder de internar, diagnosticar, normalizar? Em uma sociedade marcada por crises de saúde mental, medicalização da vida e pela ascensão de figuras messiânicas que prometem salvar a todos, as perguntas machadianas ecoam com força total”, contextualiza a diretora, Rô Cerqueira.
Se a primeira versão do trabalho, dirigida por Hélio Fróes, levou para o palco tradicional a discussão sobre saúde mental e controle social, a nova versão apresenta uma urgência renovada. Estes temas, percebidos pelo grupo como atuais ainda em 2006, agora se mostram mais urgentes. “Vivemos tempos em que os limites entre razão e loucura, normalidade e desvio, são constantemente redefinidos por poderes institucionais, discursos médicos e mecanismos de vigilância cada vez mais sofisticados”, comenta a diretora.
Questões de gênero e o fim do messianismo
Uma das principais atualizações desta montagem diz respeito ao olhar sobre as mulheres. No conto de Machado, figuras femininas, como D. Evarista, esposa do Dr. Bacamarte, aparecem à margem das grandes decisões, reduzidas a papéis domésticos ou ornamentais. “Casa Verde” investe em reler essas presenças, questionando os silenciamentos históricos e dando voz e corpo às mulheres apagadas pela narrativa oficial. “Mais do que isso, o espetáculo propõe uma crítica radical ao culto dos salvadores individuais. Se o Dr. Bacamarte encarna o cientista iluminado que, sozinho, pretende curar toda a sociedade, a montagem questiona essa lógica messiânica tão presente em nossos tempos”, antecipa Rô.
Contra a figura do gênio solitário, do líder carismático, do especialista infalível, “Casa Verde” aponta para a necessidade de construções coletivas, de saberes compartilhados, de uma sociedade que se pensa e se transforma em conjunto. “Em tempos de polarização, fake news e culto à personalidade, a peça nos lembra que não há salvação individual – e que toda tentativa de impor uma verdade única sobre o que é normal, saudável ou aceitável carrega em si o germe do autoritarismo”, compartilha a diretora.
Serviço: Cia de Teatro Nu Escuro estreia “A Casa Verde”
Data: 30 de janeiro
Horário: 20h
Local: Oficina Cultural Gepetto, Rua 1013, Quadra 39, Lote 11, 467 – St. Pedro Ludovico
Entrada franca
