Jales Naves
Especial para AR
Goiânia – Em linguagem simples e didática, texto de fácil compreensão, bem diagramado, formato de fácil manuseio e 108 páginas, o novo livro do antropólogo e pesquisador Altair Sales Barbosa, “Na Terra dos Mãe-da-Lua e o Diário de Zuza Santa Cruz”, agradou muito a quem teve a oportunidade de folheá-lo no lançamento, na manhã de sexta-feira (28/11), no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Bem ilustrado pelo artista Elder Rocha Lima e prefácio da professora Tatiana Carilly Oliveira Andrade, pró-reitora pedagógica do Centro Universitário Araguaia (UniAraguaia), que patrocinou a publicação, o livro é baseado em fatos reais acontecidos em épocas diferentes, como o apresentou o seu autor.
Pelos escritos detalhados de Zuza sobre flora, fauna e ecossistemas, emerge um naturalista intuitivo, que compreendeu as completas interações ambientais e testemunhou os primeiros sinais de devastação na região. Combinando dados geológicos, arqueológicos e ecológicos com narrativa envolvente, o autor demonstra como a literatura pode ser ferramenta de educação ambiental. Essencial para pesquisadores, educadores e interessados na preservação do Cerrado, o livro transforma informação científica em história acessível, utilizando a narrativa como veículo de conscientização sobre a urgente necessidade de conservação dessa importante matriz ambiental.
Simpático e feliz com o evento, lamentando a ausência dos que não puderam comparecer, ele prendeu a atenção dos presentes com sua fala simples, procurando despertar curiosidade pelo trabalho e discorrendo sobre sua trajetória e seus encontros com pessoas que marcaram sua passagem, como o antropólogo e sociólogo brasileiro Darcy Ribeiro, que conheceu no Chile, quando ele estava exilado, e sua relação com a obra.
“Fica difícil dizer que se trata de um misto entre ficção e realidade. Talvez a história dos Mães-da-Lua narrada por Zuza Santa Cruz, em seu diário, seja pura ficção, mas também é algo difícil de ser comprovado, porque trata de descrições pormenorizadas”, explicou. “O que há de concreto é que a crônica mistura épocas diferentes para chamar a atenção para um fato que, desde o início do século 21, afeta todo o oeste da Bahia: a destruição do Cerrado em toda a sua plenitude na região, desde as campinas abastecedoras dos lençóis de água profundos até os ambientes de veredas”.
Resgate
O evento foi aberto pelo professor Álvaro Catelan. Na sequência, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Jales Guedes Coelho Mendonça, ressaltou o significado daquele momento, simbólico da expressão adquirida pelo IHGG, ao ser escolhido pelo autor, entre tantas opções, para o lançamento de sua elogiada obra, prestigiado por tantos amigos e admiradores. E discorreu sobre o grande evento que acontecerá na próxima sexta-feira, dia 5 de dezembro, de abertura da exposição resgatando a contribuição de Goiás e dos goianos na construção de Brasília; lembrou as muitas datas existentes, culminando com o dia 21 de abril de 1960, de inauguração da terceira Capital Federal do Brasil, agora em território goiano. A exposição vai evidenciar como se deram muitas ações nesse período, via jornais, revistas, documentos etc.
O reitor da UniAraguaia, Arnaldo Freire, disse das boas lembranças daquele espaço, que inicialmente sediou uma gráfica, onde conseguiu seu primeiro emprego, como revisor, e aprendeu as técnicas do setor; e que a sua instituição, que é genuinamente goiana, começou há 25 anos, com dois cursos e hoje tem mais de 30, nas mais diversas áreas. Atuando em diversos estados brasileiros, tem duas unidades nos Estados Unidos, em Orlando e Nova Iorque, e foi a primeira faculdade brasileira a realizar uma colação de grau nos EUA.
O que ainda podemos salvar?
No prefácio do livro, a professora Tatiana Carilly destaca que há livros que são portais, “que nos atravessam como um vento antigo, levando-nos a outras épocas e paisagens”, e que a obra de Altair Sales “é um desses livros raros, em que a ciência se rende à poesia do mundo, e a busca pelo conhecimento se entrelaça com a beleza do desconhecido”. Explicou que tudo começa com a expedição de um pesquisador, guiado pelo Cerrado como se estivesse lendo suas páginas geológicas e arqueológicas. “Mais eis que o acaso – ou seria o destino? – lhe entrega um velho caderno, repleto de histórias, desenhos e inquietações. Um caderno onde vive Zuza, um homem que um dia teve posses, que já pertenceu ao mundo da razão e dos números, mas que, por descontentamento, decidiu caminhar outros trilhos, ouvindo o vento e sentindo a terra sob os pés”.
Zuza, chamado de ‘Doido’ pelos que o viam sem enxergá-lo, não era louco: era um sábio. Conhecia as plantas, os bichos, os rios e os segredos do Cerrado como um poeta conhece suas palavras. “E foi nessa entrega ao mundo natural que ele encontrou os Mãe-da-Lua – criaturas que pareciam pertencer a um conto perdido, seres miúdos, de olhos grandes como os de urutau, que domavam tatus como cavalos e criavam gafanhotos como gado. Os Mãe-da-Lua, com o tempo e o espírito observador de Zuza, tiveram em seu diário registrados seus hábitos, cultura, o lidar com o ambiente e suas explorações pelo Cerrado, o cultivar das belezas subterrâneas também desse ambiente”, explicou.
Fascinado pelos Mãe-da-Lua, Zuza assume para si a missão de protegê-los, temendo a chegada das estradas, dos tratores, dos turistas, da devastação. “Mas como salvar os pequenos guardiões do Cerrado?”. A resposta veio como um sussurro do próprio mundo natural: “Sinta o cheiro das flores do pequizeiro, ele despertará sua intuição”.
Estaria aí a indicação de onde se deveria buscar as soluções para preservar essa esplêndida matriz ambiental, de modo que as próximas gerações possam sentir, ouvir e viver suas belezas de forma respeitosa e equilibrada? Como ressaltou Tatiana, o diário de Zuza não é apenas um relato de descobertas, “é um testemunho de encantamento. Ao longo de suas páginas há ciência, há mitologia, há espanto e delicadeza”. “Através dos olhos desse andarilho do Cerrado vemos um universo oculto, uma civilização mínima, pulsante e cheia de mistérios. Mas também vemos a iminência da destruição. O Cerrado que guarda segredos milenares está sendo apagado pela fúria das máquinas, pelo descontrole do progresso”, alertou.
“Quando as engrenagens do desmatamento avançam, os Mãe-da-Lua somem, fugindo para o fundo das grunas, dissolvendo-se no tempo, talvez para nunca mais serem encontrados. Zuza, testemunha e guardião dessa história, registra tudo no seu caderno, que um dia – talvez guiado por um chamado misterioso, daqueles que a ciência não explica, mas que alcançam os que estão despertos para a vida pulsante do nosso planeta – foi encontrado por um pesquisador, tocado pela magnitude do Cerrado e, assim, transformado neste livro, que agora temos em mãos”, afirmou.
“Na Terra dos Mãe-da-Lua e o Diário de Zuza Santa Cruz” é mais do que seguir uma narrativa – é atravessar uma fronteira entre o visível e o invisível, entre o real e o mítico, entre o Cerrado que já foi e o que ainda luta para ser. “É um convite para escutar o vento, sentir o cheiro das flores do pequizeiro e perguntar a nós mesmos: o que ainda podemos salvar?”, indagou, concluindo.