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A maior vergonha que me recordo

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10.07.2014 - 08:05:50

Goiânia – Confesso que tive dificuldades para dormir na noite de terça para quarta. A cada virada na cama, voltava na minha cabeça o olhar atônito de Júlio César, a cara de quem não está entendendo nada do Oscar, as corridas inúteis de Bernard, o suor em vão escorrendo no rosto de David Luiz, a cabeça baixa de Willian. Quando o alarme tocou pela manhã, eu tinha uma determinação: me lembrar qual a maior vergonha futebolística que habita minha memória. Lembrei-me de duas que me dilaceraram. Cá entre nós, nenhuma chega sequer perto de perder tomando sete gols. 

Em uma semifinal de Copa do Mundo.

Jogando em casa. 

Quando colocamos em perspectiva, é difícil que algum vexame futebolístico ganhe desse jogo contra a Alemanha. Inegavelmente histórico. Uma pena que não da forma como desejávamos.

Na infância, durante a Copa América de 1987, na primeira fase do torneio disputado na Argentina, o Brasil foi goleado pelo Chile por 4 a 0 e não se classificou para a fase eliminatória da disputa. Com essa derrota, eu, menino de 8 anos, tive certeza de que nunca mais veria a Seleção Brasileira ser campeã do mundo. Depois da tragédia de 1982, depois do pênalti do Zico em 1986, nem na América Latina conseguíamos mais nos impor? Aquela derrota doeu em meu infantil coração.

Anos e anos mais tarde, já calejado dessa história chamada futebol, acompanhava um jogo do Goiás contra o Atlético Paranaense pelo Brasileirão de 2008. A partida era em Curitiba e o time da casa metia 3 a 0 no meu esmeraldino. Em dado momento do segundo tempo, aconteceu uma jogada confusa na entrada da área do Goiás em que parecia que o jogador rubro-negro havia sofrido uma falta. A bola sobra limpa para Amaral na grande área e ele, sem ouvir o apito do juiz que não havia marcado a infração, abaixou e empurrou com as mãos a bola para que fosse batida a falta inexistente. É claro que a arbitragem marcou pênalti em uma jogada digna de um esquete de Os Trapalhões. O time do Paraná marcou o gol e ainda fez mais um, liquidando a partida em 5 a 0.

Nas duas ocasiões, a vergonha foi inferior ao que aconteceu no Mineirão. No primeiro caso, muito se deve ao meu olhar infantil sobre o fato. No segundo, o extraordinário potencial cômico da jogada de Amaral faz hoje, passado o tempo que transforma tudo em quase nada, algo folclórico e que não me cause nada além de vontade de rir.

O que definitivamente não é o caso da acachapante derrota na semifinal. Perder de 7 a 1 é feio, humilhante e revela uma distância enorme entre o que as duas equipes apresentaram em campo. Sob qualquer hipótese, em qualquer campeonato, em qualquer situação. Não tem olhar infantil que camufle ou potencialize essa dura realidade. Assim como não há nenhum elemento pitoresco para amenizar o olhar. Foi só uma máquina de jogar bola atropelando um bando vestido de amarelo. Simples assim. Sem mais, sem menos.

Tomara que os sete gols sirvam para refundar o futebol brasileiro em sua estrutura profunda, começando pela cabeça que é a CBF.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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