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Luto: apagaram os graffitis da rua 142

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02.07.2014 - 17:11:46

Para ler ouvindo:
Johnny Cash | Hurt

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 (Foto: Raisa Ramos)

Sempre achei Goiânia muito legal por não apagar os graffitis que aparecem por aí. Outras capitais do mundo não têm a mesma sorte e diariamente tiram do mapa obras de artistas importantes do cenário atual. Coisa mais triste não há. Só que na semana passada, fui surpreendida: apagaram os graffitis de trás da minha casa, os graffitis que eu via todos os dias e que melhorava o meu astral, aqueles da Rua 142. Graffitis lindos, assinados por Morbeck, Decy, Wes e Mateus Dutra foram cobertos por uma tinta vermelha e tiveram retângulos brancos delimitados, mostrando que provavelmente o local vai anunciar propagandas.

O graffiti tem duas funções sociais que não podem ser ignoradas pelo poder público e pelos habitantes do meio urbano. Primeiro que ele rompe com os espaços fechados e elitizados dos museus e coloca a arte na rua, no cotidiano de quem quer que passe pela intervenção, independentemente de classe social, gosto, escolaridade. O graffiti consegue o que a arte moderna tentou e não conseguiu: a democratização da arte. Ela está ali para ser vista – e se faz ser vista – por qualquer pessoa, conquistando assim novos públicos, que em uma situação comum, jamais entrariam em um museu por diversas razões (medo de serem excluídos, por exemplo).

A segunda função social é a de resgate de percepções e sensibilidades dos moradores das cidades. A rotina nos cega, nos faz passar várias vezes por um mesmo caminho até que não percebemos mais nenhum detalhe existente. É tudo tão mecânico que nosso olhar fica domesticado. Não reparamos mais as esquinas, as pessoas, as construções, nada. Nosso pensamento está em algum lugar muito distante, longe do espaço físico que nosso corpo ocupa. Mas prestar atenção na cidade é algo que pode ser extremamente prazeroso. A arte de rua consegue despertar nossos sentimentos até então adormecidos. Nossos olhos, tão inertes, acordam para o graffiti recém pintado naquele muro abandonado que faz parte do seu percurso diário. E esse resgate de sensibilidades é importante para a qualidade de vida de quem se propõe a viver no caos urbano.

Diante de tudo isso, se realmente o lugar que apagou os graffitis da rua 142 o fez exclusivamente para ter espaço para vender propagandas, a cidade simplesmente perdeu um lugar de exposição gratuita de arte e ganhou mais poluição visual (tudo o que menos precisamos no momento). Que benefício há nisso para a cidade? Nenhum. Espero que mais e mais pessoas consigam enxergar a tristeza que é perder um acervo público tão importante assim. Vou sentir falta dos desenhos que faziam parte da minha rotina (inclusive, a foto da minha coluna foi tirada em frente a eles). Tomara que os artistas compensem logo essa falta com mais arte espalhada pela cidade.

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  (Fotos: Raisa Ramos)

Leia este e outros textos sobre cidades, viagens, receitinhas e beleza também no blog Algum Lugar Etc.

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por Raisa Ramos

*Raisa Ramos é jornalista, autora do blog Algum Lugar Etc., apaixonada por cidades, viagens e fotografia

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