Cleomar Almeida
As famílias de 37 jovens desaparecidos após abordagens policiais, nos últimos dez anos, em Goiás, continuam aflitas, à espera de informação sobre o paradeiro de seus parentes. Em mais uma tentativa de quebrar a lentidão das investigações, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Assembleia Legislativa realizou, nesta quinta-feira (20/10), uma audiência pública para cobrar uma resposta do governador Marconi Perillo (PSDB) sobre o caso, quatro meses após a entrega do relatório apresentado pela Comissão Especial de Defesa da Cidadania (CEDC).
Entre as principais reivindicações destacadas no relatório está a criação de uma delegacia especializada na investigação de desaparecidos, mas ainda não há previsão para a unidade ser instituída, reclamou o presidente da CDH, deputado Mauro Rubem (PT). Ele afirmou que a ausência de Marconi ou de um representante do governador na audiência gerou indignação nos familiares. “Enquanto o governador não der a devida atenção para os casos de violência, vamos viver em situação de barbárie. Goiás é um Estado violador de direitos humanos”, afirmou o parlamentar. Ele lembrou que o número de desaparecidos, em Goiás, na última década, é maior que os 15 registrados durante os 21 anos da ditadura militar.
Superintendente de Direitos Humanos da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, a delegada Adriana Accorsi disse que os trabalhos da CEDC têm gerado resultados importantes para as investigações. Entretanto, Adriana ressaltou que em muitos casos não houve investigação adequada apesar de, segundo ela, haver um esforço para que as famílias tenham uma resposta e os responsáveis pelos desaparecimentos sejam punidos. Ela lembrou que existe dificuldade em analisar as investigações nos casos de desaparecimentos, pois, pela legislação brasileiria, desaparecimento não é considerado crime.
De acordo com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO), Alexandre Prudente Marques, o resultado da audiência é frustrante, porque, conforme disse, “até hoje o Estado não deu nenhuma resposta para a sociedade sobre os desaparecimentos”. Ele também questionou a falta de uma delegacia especializada para investigar os casos denunciados.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Edemundo Dias, a delegacia não será criada enquanto o número de agentes da corporação permanecer insuficiente. “Não temos efetivo policial para isso, mas estamos fazendo o possível para solucionar os casos de desaparecimento”, alega o delegado. O jornal A Redação tentou contato, por telefone, com o secretário estadual de segurança pública, João Furtado Neto, mas não obteve retorno das chamadas.
Entrega do relatório em Brasília
Após a audiência pública, o deputado Mauro Rubem seguiu para Brasília, onde entregou o relatório da comissão ao Ministério da Justiça, à Secretaria Nacional de Direitos Humanos e à Secretaria Nacional de Segurança Pública. Frustrado com a falta de respostas do governo do Estado, o parlamentar disse que levará o documento à Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele quer denunciar o que classifica como abusos cometidos por alguns integrantes da polícia e também o descaso do Poder Executivo em Goiás.