Larissa Lessa
Os números assustam: de janeiro a setembro de 2011, 250 denúncias de abuso sexual contra menores foram registradas somente na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (Dpca) de Goiânia. O número já supera a quantidade de denúncias feitas em todo o ano passado na delegacia (208) e mostra a escalada de crimes contra crianças e adolescentes.
Para a diretora do Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser, Maria Cecília Machado, os dados ainda não representam a realidade. “Essas estatísticas ainda são uma amostra, porque sabemos que a violência contra crianças é muito maior. Muitas não conseguem ou preferem omitir o abuso e esquecer a violência”, afirma Maria Cecília, que abriga 18 crianças vítimas de abuso sexual.
É para incentivar as denúncias de crimes contra crianças e adolescentes que o Ministério Público resolveu intensificar, a partir desta segunda-feira (10/10), a campanha “Criança não é Brinquedo”. Lançada em maio, a campanha agora contará com um vídeo que será veiculado nos canais de televisão e spots para rádio. Além disso, promotores de justiça de 59 municípios goianos vão distribuir o material da campanha nas cidades, como cartazes e cartilhas. A campanha antecede a Semana Nacional de Combate à Violência na Primeira Infância, entre os dias 12 e 18 de outubro.
A coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude do Ministério Público, Liana Vieira Tormin, reconhece que a campanha precisa ser acompanhada por uma adequação da estrutura dos órgãos ligados ao acompanhamento de casos de abuso contra as crianças. Essa também é a opinião da diretora do Cevam. “Essas ações não podem ficar no papel. As políticas públicas precisam acompanhar a evolução dos casos. Devemos ter um olhar diferenciado para essas crianças, que sofrem uma violência extrema”, declara.
Perigo
De maio a setembro de 2011 foram instaurados 75 inquéritos na Dpca de Goiânia, aumento de quase 30% em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com a coordenadora do CAO da Infância e Juventude, mais de 80% dos acusados de crimes sexual contra crianças têm relação de parentesco com a vítima. São pais, padrastros, tios e avós, o que dificulta ainda mais a assimilação da violência pela criança.
É o que explica o coordenador do Fórum Goiano de Enfrentamento da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, Joseleno Naves. “A criança fica desprotegida, pois tem uma relação de dependência com essas pessoas, o que gera dificuldade de denunciar o abuso”. Apesar da dificuldade, o psicólogo afirma que, na maioria dos casos, a criança mostra sinais de que está sendo vítima de abuso. “Os professores e profissionais da saúde conseguem observar alguns sinais, como dificuldade de aprendizagem, mudança de humor, afastamento do convívio social e expressão de comportamento sexual que não é compatível com a idade”, enumera.
As denúncias de casos de abuso contra crianças podem ser feitas pelos telefones 197 (Polícia Civil) e 100 (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República).