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Bares e restaurantes instalados em edificações históricas aliam gastronomia e preservação do patrimônio, atraem visitantes e movimentam a economia de Goiânia, em um setor que deve faturar R$ 6 bilhões em 2026. (Foto: Renato Conde)

Bares e restaurantes dão nova vida a casarões históricos, impulsionam o turismo e movimentam a economia de Goiânia

Capital da Boa Mesa está entre os dez destinos tendência do mundo para 2027 e pleiteia o título de Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO

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30.10.2026 - 09:24:13

Adriana Marinelli

Goiânia – O passado e o presente dividem o mesmo espaço em um amplo casarão no Centro de Goiânia. O piso de taco de madeira, as esquadrias e outros detalhes preservados da construção original revelam a história do imóvel, enquanto o aroma de pizza recém-saída do forno anuncia a vocação que ele ganhou com o tempo. Erguido entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, o casarão abriga, desde 2018, o Ateliê Pizza Café Arte, empreendimento idealizado por Joselita Martins Pereira, que transformou o endereço em um espaço de encontro entre gastronomia e arquitetura.

Ponto gastronômico funciona em casa da década de 1940 no Centro de Goiânia (Foto: Renato Conde)

Na Rua 29, nº 186, a história do casarão segue viva a cada pizza servida. “Essa casa nos escolheu”, afirma Joselita, proprietária da pizzaria. A identidade do lugar também se revela no cardápio, com receitas que carregam a personalidade da casa e características próprias. “Quase todas as pizzas são criações autorais e elas vêm carregadas de histórias”, garante. O menu também reúne sobremesas, drinques, cervejas artesanais e outras delícias, incluindo opções veganas.

Em entrevista ao jornal A Redação, Joselita conta que o casarão que hoje abriga o negócio da família foi um verdadeiro achado. “Sempre quisemos um local no Centro, buscávamos um sobrado, só não pensávamos que acharíamos uma joia assim disponível”, lembra. Ela e o marido, Matheus, sócio e chef pizzaiolo do estabelecimento, viram no imóvel a oportunidade que procuravam e decidiram alugá-lo. Antes de abrir as portas, no entanto, foi preciso enfrentar o desafio de recuperar a edificação. “Estava muito depredado. O casarão era utilizado por pessoas em situação de rua. Mas, ao entrar no imóvel, sabíamos que ele seria perfeito para nosso projeto. Então arregaçamos as mangas, restauramos e desde então estamos aqui”, relata Joselita.

Joselita e Matheus mantiveram as características originais do imóvel que hoje abriga a pizzaria (Foto: Renato Conde)

Após o restauro, o casarão voltou a receber pessoas, dessa vez em torno da gastronomia e da cultura. As escadarias e a varanda de recepção fazem parte da identidade do Ateliê e ajudam a compor o ambiente. Após um tempo de atividades, a estrutura também precisou acompanhar o crescimento do negócio. “Nós nos adaptamos ao imóvel num primeiro momento, mas, com o passar do tempo, precisamos aumentar nossa capacidade, então criamos, num espaço antes sem edificação, uma cozinha para abrigar o forno que temos hoje”, explica a proprietária.

Forno de pizza no Ateliê Pizza Café Arte (Foto: Renato Conde)

A casa se tornou, assim, parte importante do negócio, reunindo as necessidades de um estabelecimento gastronômico aos atrativos de uma construção histórica. “Com absoluta certeza é um diferencial estar em uma casa construída há tanto tempo. No início, muitas pessoas vinham para conhecer o casarão e acabavam se apaixonando pelo casamento do espaço com as pizzas”, afirma Joselita. A experiência mostra como bares e restaurantes instalados em imóveis antigos podem ir além da gastronomia e oferecer novas possibilidades de passeio, tanto para moradores quanto para turistas.

Sócios da pizzaria apostam no charme e na história do imóvel como diferencial para atrair turistas (Foto: Renato Conde)

No Ateliê, segundo a proprietária, essa combinação atrai clientes de outros Estados e até de outros países. É um público que chega à mesa, mas também se interessa pela história do lugar e pelas manifestações culturais que fazem parte da proposta do estabelecimento. “Aqui o interesse é gritante. Goiânia já é identificada como uma referência gastronômica no país, aliada à preservação da arquitetura e acrescentando espetáculos culturais, nos torna bem mais atrativos”, avalia Joselita.

Por trás da experiência oferecida ao visitante, há também uma estrutura de trabalho que sustenta o funcionamento do negócio. O Ateliê Pizza Café Arte abre de terça-feira a domingo, a partir das 18h, e conta com uma equipe de 20 funcionários envolvidos em diferentes etapas, da preparação dos alimentos ao serviço prestado aos clientes, além da organização necessária para receber eventos.A gastronomia movimenta cifras expressivas em Goiânia. Bares, restaurantes, lanchonetes, cafeterias, pizzarias, padarias e outros estabelecimentos do setor de alimentação fora do lar devem movimentar R$ 6 bilhões em 2026. Segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e do Sindicato de Bares e Restaurantes de Goiânia (Sindibares), a capital reúne 19 mil negócios do segmento, que geram 60 mil empregos diretos. Desse total, 20 mil trabalhadores atuam nos cerca de mil estabelecimentos associados ao Sindibares.

A dimensão do setor também aparece no número de bares espalhados pela cidade, que soma 1.453 estabelecimentos registrados nessa categoria. Considerando a população de 1,437 milhão de habitantes, são 101 bares para cada 100 mil pessoas. A proporção coloca a capital goiana na primeira posição entre as cidades do Centro-Oeste e na sétima colocação no ranking nacional.

Além de gerar empregos e movimentar negócios, a atividade tem efeito multiplicador sobre a economia. Estudo da Abrasel em parceria com a Escola de Economia de São Paulo (EESP), da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra que, para cada R$ 1 mil gastos em bares e restaurantes, R$ 3.650 são injetados na economia, considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos. O levantamento evidencia como o consumo nesses estabelecimentos repercute para além do próprio segmento.

Para o presidente do Sindibares, Newton Pereira, os números refletem a evolução da gastronomia goianiense, que conquistou reconhecimento pela qualidade e variedade de sua oferta. “Avaliamos que Goiânia adquiriu um grau de maturidade muito elevado na gastronomia nos últimos anos. Conseguimos, na Câmara, o título de Capital da Boa Mesa. Temos chefs e estabelecimentos dando show. Comidas para todos os gostos e todos os bolsos, do espetinho à alta gastronomia”, diz. “Goiânia tem uma diversidade gastronômica espetacular”, completa em entrevista à reportagem do jornal A Redação.

A força da gastronomia goianiense, segundo o dirigente, está na combinação entre sabores tradicionais e uma cena gastronômica que alcança reconhecimento nacional. “Nossa pamonha é a melhor do Brasil. Só aqui encontramos pit dogs com tamanho sabor e com quantidade de ingredientes como os nossos. Os salgados são saborosos, com todo tipo de combinação”, cita. “Se você vai para os doces e cafés, temos estabelecimentos que não deixam nada a desejar em relação aos de outros locais. Temos alta gastronomia. Chef premiado como o melhor do Brasil. Estamos passando por um momento espetacular”, destaca.

Essa diversidade também contribui para atrair consumidores de outras cidades e regiões. Segundo Newton Pereira, os estabelecimentos gastronômicos de Goiânia recebem frequentemente visitantes do interior de Goiás e de outras localidades. “Muita gente do Triângulo Mineiro, do Distrito Federal e também do Estado de São Paulo”, afirma o presidente do Sindibares ao reforçar que o movimento amplia o alcance da gastronomia local e reforça sua relação com o turismo.

É nesse contexto, conforme pontua Newton, que a ocupação de casarões históricos e outras edificações antigas por bares e restaurantes ganha ainda mais relevância. Para o presidente do Sindibares, a combinação entre patrimônio arquitetônico e gastronomia valoriza a identidade da capital e cria novos motivos para conhecer diferentes regiões da cidade. “Vejo todo esse cenário com muita alegria. Goiânia, além de ser a Capital da Boa Mesa, é também a capital brasileira do Art Déco. É um movimento que tem ganhado muita força e isso ajuda muito a atrair mais turistas”, pontua. “Inclusive, sabemos que um dos principais motivos de visitas à nossa capital é justamente a riqueza da nossa arquitetura. Então, juntar as duas coisas, o patrimônio edificado com a gastronomia, é o casamento perfeito”, avalia.

Newton cita a Nova Rua 8 e região da Rua do Lazer como exemplos de recuperação de espaços históricos associada à atividade gastronômica. “Teve todo aquele espaço resgatado pelo setor gastronômico. É uma parte histórica importante da nossa capital, onde temos prédios e casarões antigos. Lá, funcionou muito bem essa ligação do patrimônio com o setor de bares e restaurantes. É uma verdadeira revolução naquelas edificações históricas”, complementa ao destacar que iniciativas semelhantes estão presentes em outros pontos da cidade, principalmente na região central. “Entre os exemplos, está a Bendita Tapioca, instalada em uma casa histórica, que atrai clientes interessados tanto na estrutura do imóvel quanto na gastronomia oferecida. É a melhor tapioca da cidade. Na Avenida Araguaia, bares também ocupam edificações antigas”, acrescentar ao citar que são pelo menos 50 estabelecimentos gastronômicos, de diferentes portes, atualmente ativos em Goiânia e instalados em edificações com valor histórico.

Rua 8 e Rua do Lazer concentram muitos bares (Foto: reprodução) 

A ocupação de casarões por bares e restaurantes aproxima a população e os visitantes do patrimônio arquitetônico, ao mesmo tempo que dá novas funções a construções antigas. Essa mudança de uso, no entanto, é um dos principais desafios da preservação histórica, como explica Wolney Unes, pesquisador e professor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Federal de Goiás (UFG). Engenheiro e diretor-técnico da Elysium Sociedade Cultural, instituição sediada em Goiânia que há quase 40 anos atua na valorização da cultura brasileira e já soma 50 mil metros quadrados de imóveis históricos requalificados em diferentes regiões do país, ele vê na gastronomia uma alternativa para conciliar a conservação das características arquitetônicas com a ocupação desses espaços. O segredo, segundo Wolney, está em adaptar os ambientes sem comprometer a identidade original das edificações.

“Um dos principais desafios de um prédio antigo é dar um novo uso a ele. Para definir esse uso, você tem que pensar na ambientação, com pouca intervenção, porque o charme da edificação antiga é justamente o estranhamento de você sair de um edifício contemporâneo e ir para um edifício de outras eras”, explica. Na avaliação do pesquisador, atividades ligadas à hospitalidade estão entre as mais adequadas a esse propósito, pois permitem receber pessoas sem exigir grandes alterações na estrutura original. “E, dentro da hospitalidade, que engloba tudo, a gastronomia é o uso mais direto, porque é de curta permanência, mantendo a essência dos imóveis e aproximando o público de sua história”, observa.

Além de favorecer a ocupação e a conservação dos casarões, essa combinação pode ampliar o potencial turístico de Goiânia. Para Wolney, a diversidade da culinária brasileira encontrada na capital é um diferencial que pode ser ainda mais explorado em conjunto com a riqueza de sua arquitetura. “Goiânia tem para todos os gostos, porque é um recorte do Brasil, da gastronomia brasileira. Não tanto internacional como São Paulo, mas brasileira, porque aqui é o ponto de encontro do Norte, Nordeste e Sul. Você está no centro geográfico do país”, afirma ao citar que a valorização conjunta desses atributos pode fortalecer a atratividade da cidade e contribuir para manter as edificações históricas ocupadas. “É um caminho fantástico e vai potencializar nosso turismo também. Uma coisa puxa a outra. E esse todo, essa junção, evita que prédios históricos tão ricos fiquem desocupados.”
Foi exatamente essa situação registrada em um imóvel do Setor Sul. Depois de permanecer fechado por mais de uma década, um casarão construído na década de 1970 voltou a receber pessoas, desta vez em torno da gastronomia. Na Avenida Cora Coralina, o imóvel abriga desde 2021 a Casa 09 Pizzaria, empreendimento que encontrou na arquitetura antiga e no quintal arborizado o ambiente ideal para uma proposta que valoriza o trabalho artesanal e a convivência à mesa. “ Acredito que essa casa estava esperando por nós”, afirma Thalles Américo, proprietário da pizzaria. Antes de chegar ao endereço atual, o negócio percorreu outros caminhos. A história começou em 2018, na residência onde ele e a esposa, Flávia, moravam, no Parque das Laranjeiras. O número 9 do imóvel inspirou o nome da pizzaria. Com o crescimento da demanda, o espaço passou a limitar a expansão do empreendimento, que buscou novos rumos.

“Ficamos uma temporada dentro de uma livraria de Goiânia, a partir de 2019, e logo depois veio a pandemia, em 2020, quando praticamente tudo parou de funcionar”, lembra Thalles ao enfatizar que não foi um caminho fácil. A mudança para o casarão da Avenida Cora Coralina ocorreu em 2021, quando o cenário começou a permitir a retomada das atividades. Alugado pelo casal, o imóvel precisou de pouca adaptação para receber a pizzaria, segundo o empresário. “Essa casa nos acolheu e acolheu nosso negócio muito bem”, enfatiza.

Casarão construído na década de 1970 recebeu poucas intervenções para abrigar pizzaria (Foto: divulgação)

A escolha do endereço também foi guiada pela busca por um ambiente que traduzisse a proposta do negócio. “Buscávamos um lugar agradável, com espaço aberto e arborizado, para que as pessoas pudessem aproveitar o tempo e se desconectar da correria”, explica Thalles. A intenção era criar um espaço acolhedor, no qual o preparo artesanal das pizzas se somasse à oportunidade de compartilhar momentos à mesa.

Algumas das produções da Casa 09 (Fotos: divulgação)

Parte desse acolhimento está ligado aos elementos que compõem a construção. A dimensão do casarão, as paredes de pedra e as árvores do quintal ajudam a compor a identidade do estabelecimento. “Tem uma pitangueira e um jasmim-manga. O jasmim tem mais de 40 anos”, conta Thalles. “Também chamam a atenção os vitrais das portas e janelas. Já tivemos visitas de arquitetos elogiando os vidros canelados. Alguns arquitetos que estiveram aqui disseram que são detalhes construtivos da década de 1970”, complementa o proprietário da pizzaria que funciona no local.

Paredes de pedra e árvores estão entre os destaques do imóvel que abriga a pizzaria (Foto: divulgação)

A mudança de endereço para o casarão também representou uma transformação na vida profissional dos proprietários. Biólogo, Thalles dava aulas e integrava um grupo de pesquisa na Universidade Federal de Goiás (UFG) antes de se dedicar à gastronomia. O sonho de empreender no setor era antigo, mas ele planejava realizá-lo somente depois da aposentadoria. Com o incentivo da esposa, decidiu antecipar os planos. Flávia, que trabalhava no setor de telecomunicações, também deixou a antiga área de atuação para unir esforços e recursos ao projeto do casal. Hoje, a Casa 09 funciona de terça-feira a domingo, a partir das 18h, e conta com uma equipe de dez pessoas, incluindo os proprietários, que também integram o grupo operacional.

A poucos metros dali, outro endereço do Setor Sul mostra que a gastronomia também pode encontrar espaço em edificações que guardam parte da história da capital. E, nesse caso, não se trata de qualquer construção. Erguida em 1939, de frente para a Praça Cívica, a Casa Rosada, sede do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), é considerada a primeira edificação do Setor Sul. O imóvel, marcado pela arquitetura Art Déco e pela fachada rosa com detalhes brancos, atravessou décadas preservando a memória goiana e, mais recentemente, passou a reservar espaço também para os sabores da gastronomia.

Fotografia de 1942 revela uma Goiânia ainda em formação, com a Casa Rosada, sede original do IHGG, em destaque na paisagem pouco ocupada do Setor Sul (à direita) (Foto: reprodução/IHGG)

Na Rua 82, o prédio histórico abriga o Terumy Café, estabelecimento que funciona de segunda a sexta-feira, em horário comercial, e recebe um público diversificado. Entre documentos, livros, jornais antigos e obras de arte que compõem o acervo do Instituto, a presença do café acrescenta uma nova possibilidade de vivenciar o espaço. No cardápio, há croissants, tortas, quitandas doces e salgadas, bebidas quentes e geladas, além de almoço com opções variadas. A proposta permite que a visita ao patrimônio histórico seja acompanhada de uma experiência gastronômica, aproximando o cotidiano da cidade de um lugar dedicado à preservação de sua memória.

Cardápio do Terumy Café conta com opções variadas (Fotos: divulgação)
Instalações do café no interior do IHGG (Fotos: Matheus Vieira)

Fundado em 7 de outubro de 1932, na antiga capital goiana, durante o governo de Pedro Ludovico Teixeira, o IHGG foi transferido para Goiânia em 1938. No ano seguinte, passou a ocupar a edificação que se tornaria uma referência arquitetônica e cultural da cidade. Ao longo das décadas, o imóvel passou por transformações, até ser submetido a um processo de restauração que devolveu à fachada uma de suas características mais marcantes. “Nós começamos a restaurar o imóvel em 2021 e concluímos em 2022. Restauramos a cor original, que é o rosa. O Art Déco dialoga muito com o verde e o rosa. A cor original tinha se perdido ao longo do tempo. Voltou a ser nossa Casa Rosada. E nesse restauro nós também passamos a contar com o café no interior do prédio”, explica Jales Mendonça, presidente do Instituto, ao destacar que o restauro é resultado de parceria com a cooperativa de crédito Sicoob UniCentro Br.

Casa Rosada antes e depois do restauro (Fotos: arquivo IHGG)

A chegada da gastronomia ao Instituto representa, na avaliação do presidente, uma forma de ampliar a utilização do patrimônio e aproximá-lo da população. Mais do que conservar paredes, fachadas e elementos arquitetônicos, a proposta é manter o imóvel ocupado, aberto à visitação e integrado à vida da cidade. “A ocupação é a essência de tudo. Não adianta restaurar e não ocupar adequadamente. É uma frente múltipla. Nossa principal missão é preservar a memória, mas também promover o turismo, receber estudantes e valorizar a arte. E a gastronomia conversa muito bem com tudo isso”, ressalta.

A integração entre esses diferentes usos é percebida por quem frequenta o local. Aos 22 anos, Matheus Vieira, estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Goiás (UFG), é um dos clientes assíduos do Terumy Café. Seja sozinho ou acompanhado, ele encontra no ambiente sempre um bom motivo para retornar. Para o universitário, a experiência vai além do que é servido à mesa. “Acho a experiência muito proveitosa porque, diferentemente de outros museus, onde as lanchonetes ficam do lado de fora, ali o café faz parte do próprio Instituto. Tudo é muito integrado, o que torna o ambiente mais acolhedor. Além da experiência gastronômica, a gente visita o espaço e se sente parte da própria história”, conta Matheus.

 

Para o prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, o setor de bares e restaurantes tem forte impacto na atração de visitantes para a capital, e aliar a gastronomia à arquitetura é uma estratégia inteligente para valorizar a identidade cultural da cidade e movimentar a economia. Na avaliação dele, a ocupação de casarões antigos por estabelecimentos gastronômicos contribui para devolver esses espaços à população e fortalecer, em especial, a região Central. “Quando um imóvel antigo ganha uma nova função e passa a receber pessoas, ele deixa de ser apenas um imóvel e volta a fazer parte da vida da cidade”, afirma. Para o prefeito, além de preservar a memória de Goiânia, a iniciativa favorece a geração de empregos e transforma o Centro em um espaço de encontro, lazer e convivência.

Mabel destaca que a revitalização da região está entre as estratégias da administração municipal para estimular novos usos dos imóveis históricos e atrair moradores, comerciantes e empreendedores. Entre as iniciativas está o programa Morar no Centro, que busca incentivar a ocupação residencial, acompanhado de ações de requalificação urbana e valorização do patrimônio histórico. “Nosso objetivo é que o Centro tenha movimento durante todo o dia, com pessoas morando, trabalhando, consumindo, frequentando restaurantes e aproveitando os espaços culturais”, diz.A combinação de sabores regionais, patrimônio histórico e experiências culturais colocou Goiânia entre os dez destinos tendência do mundo para 2027, segundo levantamento da plataforma de viagens Booking.com, divulgado em 14 de outubro de 2026. A capital é a única cidade brasileira na seleção, que reúne destinos de diferentes países. Entre os atrativos destacados está o encontro entre tradição e modernidade, representado pela riqueza arquitetônica da cidade, especialmente o patrimônio Art Déco preservado e pela diversidade de sua gastronomia.

Booking.com Uncovers Trending Destinations for 2027 (Foto: reprodução)

A plataforma chama atenção para iguarias típicas, como o pequi, além de citar concentração de cafés, bares e restaurantes nos setores Marista e Bueno. Parques urbanos, como o Bosque dos Buritis, e a vida noturna, marcada pelo sertanejo, completam os atrativos apresentados aos viajantes. A seleção internacional reúne, além de Goiânia, Reims (França), Monterey (Estados Unidos), Sendai (Japão), Rosário (Argentina), Puri (Índia), Christchurch (Nova Zelândia), Bratislava (Eslováquia), Pescara (Itália) e Assunção (Paraguai). A lista integra as previsões de viagem da Booking.com para 2027 e foi elaborada a partir de dados de reservas de hospedagens na plataforma. Foram considerados destinos que figuraram entre os mil mais reservados no primeiro semestre de 2026, com análise do crescimento das reservas em comparação ao mesmo período de 2025 e ajustes para garantir diversidade geográfica.

Além de figurar entre os dez destinos tendência do mundo para 2027, Goiânia busca outro reconhecimento internacional. De acordo com o presidente do Sindibares, Newton Pereira, a capital pleiteia o título de Cidade Criativa da Gastronomia, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). A iniciativa, que tem parceria com a Prefeitura e outras entidades ligadas ao turismo, busca consolidar Goiânia como destino gastronômico internacional. “O projeto já está em andamento. Temos até fevereiro de 2027 para apresentar à UNESCO a documentação exigida para a candidatura”, explica ao citar que a proposta prevê dois anos de ajustes, adequações e execução de ações necessárias para atender aos critérios do reconhecimento. No Brasil, apenas Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC) e Paraty (RJ) possuem o título.

A busca pelo reconhecimento ocorre em um momento de desafios para o setor de alimentação fora do lar. De acordo com o presidente do Sindibares, a necessidade de adaptação à escala de trabalho 5×2, com a ampliação das equipes, e a dificuldade de contratação estão entre os principais obstáculos enfrentados pelos empreendedores. “Para se ter uma ideia, somente entre os mil estabelecimentos associados ao sindicato, há cerca de 2 mil vagas de trabalho em bares e restaurantes de Goiânia que não conseguimos preencher por falta de pessoal”, pontua Newton.

O setor também se prepara para as mudanças relacionadas à primeira etapa da reforma tributária, que, segundo Newton, deve representar mais pressão sobre os custos das empresas. “Entraremos em um ano muito desafiador para todo o empreendedorismo brasileiro e, claro, o setor de alimentação fora do lar não está fora disso”, afirma ao enfatizar que, apesar das dificuldades, trata-se de um segmento promissor e que ainda tem muito espaço para crescer.

Para o prefeito Sandro Mabel, a união entre o poder público e a iniciativa privada é fundamental para fortalecer a vocação gastronômica de Goiânia, impulsionar o turismo e ampliar as oportunidades de desenvolvimento econômico. “Queremos uma cidade que preserve sua história, incentive quem investe e gere cada vez mais oportunidades para a população”, conclui.

 

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por Adriana Marinelli

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