José Abrão
Goiânia – A banda de Porto Alegre (RS) ‘Quem é Você, Alice?’ desembarca em Goiânia neste domingo (11/10) para seu primeiro show na capital goiana. O trio formado por Vítor Pires (baixo, vocais), Milena Vardaramatos (guitarra, vocais) e Conrad Fleck (bateria, vocais) está em turnê divulgando e celebrando um ano do lançamento do disco “Nem tudo é sobre amor”. Com o álbum, a banda alcançou projeção nacional e beira os 40 mil ouvintes mensais no Spotify.
Na banda, agora, todos os três cantam e compõem e, para Conrad, a turnê é um sinal de maturidade. “A gente achou a fórmula, eu acho que agora a gente se encontrou como banda”, afirma. O disco que projetou a banda veio após “Rolê Trevas pt. II” e com a saída do antigo vocalista. O que poderia ser uma grande incerteza acabou sendo um grande acerto para o trio.
Conrad admite que a mudança lhe causava receio. Ele conta que o primeiro disco repercutiu bem na cena gaúcha, mas não esperava que o novo álbum conseguisse furar a bolha. “Foi uma diferença bizarra. Eu sou muito cético e tendo a pensar nos cenários piores. Eu não sabia se a galera ia pegar, se a mudança ia ser positiva. Eu realmente não acreditava muito, eu queria que chegasse onde a gente tá chegando, mas eu tinha medo que não chegasse”, relata sobre seus sentimentos conflitantes.
Acabou que deu certo: no melhor cenário possível, ele não achava que a banda alcançaria 10 mil ouvintes mensais, mas acabou passando, e muito, disso. Parte desse crescimento, ele avalia, vem dos shows: a cada cidade, uma plateia que nunca ouviu o grupo aparece para conhecer. “A gente nota que as turnês aumentam bastante o público, organicamente. As pessoas realmente vão lá ver e checam e postam sobre e aí os amigos vão lá e olham também e ficam curiosos, é algo que funciona bem. Fazer show ainda vale a pena pra crescer mais”, resume.
Emo caipira, shoegaze ou rock triste?
O som da banda já recebeu vários rótulos, entre eles rock triste, emo caipira e shoegaze. Conrad diz que “emo caipira” e “rock triste” são termos criados recentemente pelo público. O primeiro, ligado à estética do Midwest emo, serviria melhor ao álbum de estreia. Em “Nem tudo é sobre amor”, afirma, o grupo se afastou dessa referência.
Em relação ao shoegaze, ele reconhece a influência, mas faz ressalvas. Segundo o músico, ninguém na banda ouvia Slowdive antes de gravar o disco. A referência foi apresentada pelo produtor, que percebeu afinidade entre o som do grupo e o gênero. O resultado são guitarras com reverb, atmosfera e vocais etéreos. Conrad pondera que o termo “shoegaze” se tornou tão amplo que perdeu o significado, já que “todo mundo diz que sua própria banda é shoegaze”.
Se tivesse de escolher, prefere “rock triste”. O motivo é que o nome fala do presente, enquanto shoegaze remete a um movimento do passado. “A gente nunca sabe dizer o que é o movimento enquanto ele acontece”, diz. No futuro, acredita, alguém dará nome ao que a cena produz hoje.
Por que Porto Alegre é tão triste?
A melancolia não é exclusividade da banda. Nos últimos anos, uma geração de grupos de Porto Alegre, surgidos de 2020 em diante, vem seguindo a mesma linha. Conrad atribui o fenômeno em parte ao clima, meio que de brincadeira. A capital gaúcha é fria, chuvosa e, por ser a mais ao sul entre as capitais, tem menos luz no inverno. Ele fala em uma “estética do frio”: “Isso ajuda. Eu escrevi muita música depois de botar casaco, pegar o ônibus e ver os cenários, ver a cidade nublada, essa coisa da melancolia, tenho certeza que isso tem a ver”.
Mas o clima não explica tudo. O baterista aponta ainda um movimento mais amplo do rock autoral, que tem se voltado para o lado mais triste, e uma herança de sonoridade e estética deixada pelo emo, em especial pelo maior nome local, a Fresno.
O terceiro disco
Os próximos passos já estão em andamento. A banda trabalha em dois projetos, um deles ainda mantido em segredo, enquanto o outro é o desenvolvimento do terceiro álbum. As músicas dos três compositores estão em fase de seleção, mas não há anúncio oficial nem data de lançamento. A ideia, segundo Conrad, é aproveitar o embalo da turnê. “A gente tem muita música também, como os três compõem agora”, diz.
Para ele, é importante aproveitar o momento em evidência para produzir coisas novas e atingir novos públicos. “A gente tá nessa brisa, justamente de que tem que aproveitar agora que a gente tá fazendo um monte de show pra lançar coisa logo, estamos pilhadões”, assegura.
Os ingressos para o show em Goiânia estão disponíveis na Shotgun e o show está previsto para 20h no Shiva Alt-bar, no Setor Oeste.
