Ludymila Siqueira
Goiânia – Calor intenso, chuvas irregulares, enchentes devastadoras, longos períodos de seca e a notícia de um super El Niño. As mudanças climáticas estão cada vez mais no centro dos principais debates pelo mundo, diante da necessidade de reduzir impactos que podem ser cada vez mais “cruéis” para toda a humanidade. Nesse cenário, torna-se imprescindível a participação dos setores industrial, empresarial e de negócios em geral na construção de políticas preventivas e de meios de produção sustentáveis, com foco não apenas na manutenção da economia, mas, sobretudo, na atuação como agentes de transformação nas localidades onde estão instalados. É pensando nisso que a indústria goiana tem se tornado protagonista nas pautas que envolvem meio ambiente e ESG (Ambiental, Social e Governança), se consolidando como referência no mercado brasileiro.
Como assim “agente de transformação”? A sustentabilidade de um negócio é consolidada, principalmente, em três vertentes: ambiental, social e de governança. Nesse sentido, quando falamos em social, podemos atribuir, por exemplo, à geração de emprego e renda na região onde a indústria está inserida. Em dados concretos, o setor industrial foi o que mais empregou pessoas no primeiro semestre de 2026, com 19.942 mil vagas criadas no período, alcançando um crescimento equivalente a 4,77% no estoque de trabalhadores, ritmo superior ao observado para a indústria brasileira (2,62%). Isso é o que aponta o estudo elaborado pela Gerência de Desenvolvimento Industrial (Gedin) da Fieg sobre a Análise das Movimentações do Emprego Industrial, com base nos dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged).
(Foto: reprodução/Fieg)
Segundo a Gedin, o resultado foi impulsionado principalmente pelas atividades da indústria de transformação (10,022 mil vagas) e do setor de construção (7,792 mil vagas). Juntos, os segmentos foram responsáveis por um total de 17,814 mil empregos líquidos, o equivalente a 89% do saldo industrial goiano. No cenário nacional, Goiás ficou na 6ª colocação no ranking de crescimento relativo do emprego industrial.
Com isso, podemos observar também a governança, que, dentro do ESG, se enquadra na transparência, gestão e ética, além da sustentabilidade financeira, já que uma boa governança assegura a responsabilidade fiscal e a solidez do negócio. Em números, a indústria goiana movimentou mais de US$ 9,9 bilhões no comércio exterior no primeiro semestre de 2026 e fechou o período com superávit de US$ 4,21 bilhões. Entre janeiro e junho, as exportações somaram US$ 7,06 bilhões, alta de 4,47% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as importações cresceram 5,72%, alcançando US$ 2,85 bilhões. Isso demonstra sustentabilidade econômica e ainda o impacto positivo para o desenvolvimento de todo o Estado de Goiás.
Já no que se trata de sustentabilidade ambiental, as indústrias goianas, em sua maioria, têm demonstrado se adequar e ampliar produções de baixo impacto ambiental. Um dos fatores para isso está justamente ligado às mudanças climáticas e à maior participação da população nas tomadas de decisões dos negócios.
(Foto: reprodução/Fieg)
O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Flávio Rassi, explica que o território goiano reúne condições naturais privilegiadas para produções cada vez mais sustentáveis, como o predomínio solar, que permite uma matriz elétrica majoritariamente renovável, além da força do agronegócio e da bioenergia. Em entrevista ao jornal A Redação, ele destaca que, dentro desse contexto, o setor industrial tem conseguido transformar esse potencial em diferencial. “Temos hoje um parque industrial crescente em etanol, biogás, biometano e energia solar, além de indústrias tradicionais que vêm modernizando processos, tratando resíduos, além da reutilização da água e da descarbonização de suas operações”, pontuou.
Flávio Rassi (Foto: reprodução/Fieg)
Rassi detalhou que, no Conselho de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fieg, do qual é presidente, foi possível identificar que houve uma mudança de mentalidade no setor. “O empresário goiano deixou de ver a pauta ambiental como obrigação regulatória e passou a enxergá-la como estratégia de negócio. Mercados compradores, instituições financeiras e o próprio consumidor exigem rastreabilidade e responsabilidade socioambiental. Quem não se adaptar perde mercado. Goiás entendeu isso cedo, e é por essa razão que podemos, sim, falar em consolidação de uma indústria sustentável no Estado. É um processo em curso, com muito ainda a avançar, mas com direção clara”, destacou.

Dentro da responsabilidade socioambiental destacada por Flávio Rassi, o próprio Sistema Fieg incentiva a indústria goiana na ampliação da sustentabilidade ambiental no setor. Uma dessas iniciativas está relacionada à transição energética, considerada o pilar central para mitigar as mudanças climáticas, pois o setor de energia, baseado em combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás, é responsável por cerca de três quartos das emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE). Com isso, a temática está ainda mais em evidência e se sustenta ainda como parte das agendas da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) 2030, sendo o foco principal do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS 7).
O Hotel Sesi Aruanã, localizado em uma das principais cidades turísticas do Estado, inaugurou, em junho deste ano, a usina fotovoltaica durante a 29ª Semana do Meio Ambiente da Fieg. Com investimento voltado à ampliação do uso de fontes renováveis de energia, a nova estrutura reforça o compromisso da indústria goiana com práticas sustentáveis e a redução dos impactos ambientais. Além disso, integra um conjunto de 19 usinas fotovoltaicas implantadas pelo Sistema Fieg, com foco também na redução dos custos operacionais e faz parte dos objetivos da Federação de produzir mais e impactar menos: “O Compromisso da Indústria com o Futuro”.
(Foto: Marco Marinho/Fieg)
A usina fotovoltaica entregue pela Federação, por meio do Sesi Goiás, possui potência instalada de 731,5 kW e geração anual estimada superior a 1,15 GWh de energia limpa. A unidade já garante a compensação integral do consumo de energia do Hotel Sesi Aruanã e gera créditos utilizados pelo Clube Antônio Ferreira Pacheco, em Goiânia, o que reforça ainda a atuação do Sistema Fieg em favor da inovação, da eficiência energética e da sustentabilidade.
Para Flávio Rassi, a usina representa “coerência” com o que vem sendo construído no setor por meio da Federação das Indústrias. “O Sistema Fieg há anos defende que a transição energética é um caminho sem volta e uma oportunidade competitiva para a indústria goiana, e agora demonstramos isso na prática, dentro de um equipamento próprio. É o Sistema Fieg dando o exemplo que cobra do setor produtivo”, afirmou.

(Foto: Marco Marinho/Fieg)
Segundo ele, Goiás está entre os estados de maior irradiação solar do país, e a energia fotovoltaica deixou de ser tendência para se tornar fator de competitividade real, reduzindo custos e a pegada de carbono das operações. “Isso mostra que a sustentabilidade não é um custo, mas um investimento com retorno econômico, ambiental e reputacional”, ressaltou o presidente do Conselho Ambiental da Fieg.
Já no que se trata de impacto imediato, Rassi destaca a redução expressiva da despesa com energia elétrica. Isso porque, com a geração média diária de 2.560 kWh, o equivalente a cerca de 76,8 mil kWh por mês, a economia estimada fica entre R$ 60 mil e R$ 80 mil mensais. “São recursos que passam a ser reinvestidos na própria estrutura, na qualidade dos serviços e nas ações sociais do Sesi. Um equipamento de turismo e lazer autossustentável energeticamente ganha longevidade e previsibilidade de custos”, pontuou.
“Para a comunidade de Aruanã, os efeitos são de outra natureza, mas igualmente relevantes. O município vive do Rio Araguaia e do turismo. É um empreendimento que opera com energia limpa e fortalece a vocação da cidade como destino de ecoturismo. Além disso, a usina cumpre papel educativo: torna-se uma vitrine da energia renovável para trabalhadores da indústria, estudantes e para a população local, mostrando que a tecnologia é acessível e replicável. É desenvolvimento que respeita o bioma Cerrado e o Araguaia, patrimônios que temos o dever de preservar”, afirmou Flávio Rassi.
(Foto: Marco Marinho/Fieg)
Já o diretor do Hotel Aruanã, André Bomfim, pontua que a transição energética representa uma mudança estratégica para os setores industrial e hoteleiro. São segmentos que possuem consumo significativo de energia elétrica e, consequentemente, possuem grande potencial para ganhos de eficiência e redução de custos.
“No setor hoteleiro, por exemplo, sistemas de climatização, iluminação, aquecimento, bombeamento, cozinha e demais equipamentos operacionais demandam energia continuamente. A geração fotovoltaica pode atuar diretamente na redução da energia adquirida da rede. Portanto, mais do que simplesmente substituir uma fonte de energia por outra, a transição energética deve ser entendida como uma estratégia de eficiência, sustentabilidade e modernização da infraestrutura, conciliando desempenho operacional, responsabilidade ambiental e gestão econômica”, avaliou.
André Bomfim, diretor do Hotel Sesi Aruanã (Foto: arquivo pessoal)
Ainda segundo o diretor, um ponto importante é que a implantação de uma usina fotovoltaica não encerra o processo de eficiência energética. Para que o investimento mantenha seu desempenho ao longo dos anos, é fundamental realizar o monitoramento contínuo da geração, manutenção preventiva, inspeções elétricas, limpeza dos módulos e acompanhamento do desempenho dos inversores e demais componentes.
“No caso do Hotel SESI Aruanã, a UFV representa não apenas uma solução para geração de energia, mas também uma oportunidade de demonstrar, na prática, como tecnologia, eficiência energética e sustentabilidade podem ser incorporadas à operação de um empreendimento hoteleiro. A experiência do projeto também pode servir como referência para a expansão de iniciativas de geração renovável e eficiência energética em outras unidades, fortalecendo uma cultura institucional voltada à redução de desperdícios, uso racional dos recursos e modernização da infraestrutura energética”, arrematou André Bomfim em entrevista à reportagem do jornal A Redação.

Referência no setor sucroenergético e também em práticas ESG no Brasil, a agroindústria Jalles, localizada em Goianésia, é outro exemplo de organização que prioriza ações sustentáveis que geram valor ao negócio. São iniciativas que alcançam resultado positivo na vida das pessoas e na economia não só de Goiás, mas também do Brasil.
Nos últimos anos, com a crise energética nacional, a cogeração de energia proveniente da biomassa da cana-de-açúcar ganhou notoriedade e se tornou uma excelente alternativa, além de ser uma energia limpa. Com isso, um dos pilares sustentáveis adotados pela Jalles diz respeito a essa tecnologia, que emite menos gases causadores do efeito estufa quando comparada às termelétricas a gás natural ou a óleo. Essa redução pode ser mensurada: a cada tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser emitida, gera-se um crédito de carbono que pode ser comercializado com países que têm atividades mais poluentes. Os créditos de carbono consistem na redução de gases do efeito estufa, enquadrados nas normas do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e integrado ao Protocolo de Kyoto.
Outra inovação voltada para os pilares socioambientais ESG foi a inauguração, no mês de setembro, da primeira planta de biogás a partir da vinhaça. Para a produção de cada litro de etanol, são produzidos cerca de 13 litros de vinhaça. Trata-se de um composto usado como biofertilizante nos canaviais, por ser rico em nutrientes como potássio, fósforo e nitrogênio.
(Foto: reprodução/Jalles)
Com a planta de biogás, antes de ir para o campo, a vinhaça, que também possui açúcares em sua composição, é enviada a um reator anaeróbio (um reservatório sem presença de oxigênio), onde se torna fonte de matéria orgânica para microrganismos. Nesse processo, é produzido o biogás, um composto de três gases: metano, dióxido de carbono e sulfídrico. O biogás é enviado à caldeira, por meio de tubulações, onde entra junto com o bagaço da cana, incrementando a geração de energia elétrica.
Além disso, há um incremento na cogeração de energia a partir de mais uma fonte renovável, contribuindo para a descarbonização e transição energética. No futuro, existe a possibilidade de implementar um outro processo na planta para produzir biometano, que pode substituir, por exemplo, o diesel. “Um dos nossos valores é a inovação que está a serviço do bem-estar e, com essa planta de biogás, inovamos mais uma vez, trazendo para Goiás uma tecnologia para ampliar a geração de energia limpa, contribuindo com o meio ambiente”, explica o diretor-presidente da Jalles, Otávio Lage Filho.

O Sistema Fieg atua em três frentes. A primeira, que é considerada como exemplo, envolve projetos como a usina de Aruanã, a gestão eficiente de resíduos e de água e a educação profissional voltada às profissões verdes, por meio do Senai, que forma mão de obra qualificada para a economia de baixo carbono.
A segunda, pontua Flávio Rassi, presidente do Conselho de Meio Ambiente da Fieg, é o apoio direto à indústria, pelo CMAS e pelas áreas técnicas, com oferta de orientação em licenciamento ambiental, eficiência energética, economia circular e adequação às novas exigências regulatórias e de mercado, sempre traduzindo a agenda ESG para a realidade da pequena e média indústria, que é a maioria do nosso parque industrial e que mais precisa de suporte nessa jornada.
Casa da Indústria – Federação das Indústrias de Goiás (Foto: reprodução)
A terceira é a articulação institucional: dialogamos com governos, com o setor financeiro e com a sociedade para que a agenda dos ODS avance com segurança jurídica e racionalidade econômica. “Defendemos que a sustentabilidade se constrói com incentivo e inovação, não apenas com comando e controle. Nosso compromisso é fazer com que cada meta global da Agenda 2030 encontre tradução prática no chão de fábrica goiano”, reforçou Rassi.
Para ele, não existe contradição entre indústria forte e meio ambiente preservado.
“Uma coisa depende da outra. A usina do Sesi Aruanã, às margens do Araguaia, é a síntese perfeita dessa visão: tecnologia, desenvolvimento e natureza convivendo no mesmo espaço. O convite que deixo às indústrias goianas é que venham conhecer o projeto e se inspirem. A Fieg estará sempre de portas abertas para apoiar quem quiser trilhar esse caminho.”
(Flávio Rassi, vice-presidente da Fieg e presidente do Conselho de Meio Ambiente.)
