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Códigos atemporais

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27.09.2026 - 08:46:54
Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos que vivenciam essas experiências em comum.
Quando me refiro aos anos 80, há algo um tanto nostálgico, há um misto de lições e códigos atemporais, cujo período específico, deixa registrado na história coordenadas de orientação para o futuro próspero. Um certo tipo de corte de cabelo, um refrão, uma peça icônica, um móvel, um objeto, um acessório, um livro, um filme, um monumento. “Você é linda, mais que demais, você é linda, sim”… Essa canção é só para dizer que Caetano Veloso criou mais que uma canção; criou jingles que foram eternizados pelos enamorados, pelos rebeldes, pelos intelectos disruptivos da sociedade.
Poder abraçar essas coordenadas que aspiram à prosperidade é se predispor em abrir o coração às múltiplas e mundiais manifestações que nos rodeiam. Nem é tão simples, nem tão fácil, mas há caminhos, pessoas e referências cujos códigos nos norteiam, nos guiam, nos orientam ao futuro próspero.
Há exatos dois anos, escrevi um artigo sobre Abadiah Haich, a precursora da loja concept de design mais vanguardista de nossa região. Carinhosamente apelidada por Bá, acaba de completar seus bem vividos e experenciados 80 anos, cuja comemoração pela trajetória empreendedora, está sendo exibida em seu Armazém da Decoração, a AZ, loja referência na capital há mais de 25 anos.
Bá é do tipo de pessoa que nos mostra o alfabeto, soletra, ensina a caligrafia e depois replica com firmeza: “agora escreva uma palavra”. Seu inconfundível beabá se expande além das sofisticadas formas do design, transitando entre o refinado gosto pela arte contemporânea e a simplicidade do regionalismo da cultura popular. Ela bebe da fonte literária dos cordéis, nos versos de Ariano Suassuna, admira a excentricidade e ousadia teatral de José Celso Martinez Correia, percebe a linha tênue que separa e interliga o design dos Irmãos Campana com as artes plásticas, missão digna de descendentes de italianos, mesma nacionalidade que a comoveu na película de Cinema Paradiso (1988).
Bá nunca negou seu favoritismo ao carioca, Sergio Rodrigues, por quem, e digo isso por mim e por demais companheiros, que nos jogaríamos de olhos fechados nos braços da macia poltrona Mole, ou que eretos e firmes, nos acomodaríamos na imponente poltrona Chifruda.
Bá abrange horizontes, por onde enxerga personalidades significativas além das terras brasileiras. A disciplina e engenhosidade da cultura japonesa se destaca, aos seus olhos, na arquitetura de Kengo Kuma, assim como na devoção e rigidez flexível do bailado russo, de Rudolf Nureyev.
Expressões e referências artísticas que atravessam o tempo, contam histórias e determinam as coordenadas para os próximos códigos. Pontos de partida, letras, grafemas que refinam a estética através de investigações, movimentações e coordenações inspiradoras.
“Bá” é também um tipo de expressão, um código ou uma onomatopeia de contemplação! Pelo menos, lá no sul do país, na fala dos meus conterrâneos, descendentes de italianos. A expressão pode ser uma surpresa, uma dúvida, uma concordância ou um desabafo: “Bah, isso é trilegal”. “Bah, será, tchê”? “Bah, concordo contigo”. “Bah, mas que barbaridade”.
Códigos atemporais, que se manifestaram ontem, que se manifestam hoje e se manifestarão amanhã, porque são prósperos, porque são esteticamente corretos!
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por Tatiana Potrich

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