Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – A Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música recebeu livros doados pela família do pirenopolino Antônio Geraldo de Oliveira e decidiu comemorar nesta sexta-feira (25/9), a partir das 19h, em sua sede, na antiga Casa de Câmara e Cadeia (Rua Beira Rio, 6), no centro histórico de Pirenópolis, com uma extensa programação cultural. Na pauta do evento, exposição de artes, palestra sobre Bernardo Élis, apresentações musicais e lançamento do livro “Do Barro ao Pó”, de Geancarlo Jayme, resultado de sua pesquisa do Mestrado em Ciências Sociais e Humanidades, da Universidade Estadual de Goiás. O autor trabalha, há 25 anos, no Corpo de Bombeiros de Goiás.
Duas atividades são de iniciativa do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe): a Oficina de Aquarela da artista plástica Wal Curado, que atua há mais de três décadas nas artes visuais, desenvolvendo trabalhos em aquarela, óleo sobre tela, acrílico e desenho em lápis; e a palestra sobre o escritor Bernardo Élis, a ser ministrada pelo pós-doutorando e acadêmico João Guilherme da Trindade Curado, mestre e doutor em Geografia pelo Instituto de Estudos Sócio Ambientais da Universidade Federal de Goiás, com experiência de 16 anos em docência no ensino superior e professor titular da Secretaria de Educação do Estado.
Programação
A programação da APLAM começará com a participação especial dos alunos da Banda Phoenix, fundada em 1893 e que, desde então, forma os músicos de Pirenópolis, mantendo as tradições pirenopolinas, nas funções religiosas – missas, motetos e procissões, junto ao Coro e Orquestra de Nossa Senhora do Rosário –, nas funções folclóricas – Festa do Divino Espírito Santo e Cavalhadas – e nos momentos cívicos. Ainda, a apresentação musical a cargo de Maria Liz, que participou do Canto da Primavera Kids, com acompanhamento do violão de Walter Jayme Neto.
Na sequência, lançamento e noite de autógrafos do livro “Do Barro ao Pó: A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Pirenópolis – História e memória (1743-1944)”, de Geancarlo Jayme, que pesquisou sobre a igreja destinada às práticas religiosas e rituais de negros que haviam sido escravizados, e demolida na década de 1940.

Homenagem
O momento especial da noite será o tributo póstumo a Antônio Geraldo de Oliveira, expressando a gratidão da instituição pela doação de seu acervo bibliográfico pessoal. “Há pessoas que passam pela vida construindo muito mais do que uma trajetória. Constroem um lugar para onde desejam voltar, preservam histórias, guardam memórias e deixam, naqueles que permanecem, marcas que o tempo não consegue apagar”, registrou a escritora Maurivânia Aparecida de Farias, ao discorrer sobre o homenageado. Nascido em Pirenópolis, filho de Agnelo José de Oliveira e Neiva Araújo de Oliveira, ambos já falecidos, Antônio Geraldo cresceu na comunidade do Fundão, na Fazenda Carranca/Santo Antônio do Rio do Peixe, lugar que carregaria consigo por toda a vida.
“Como tantas crianças do interior, ainda menino precisou deixar a fazenda e ir para a cidade, onde passou a morar com os avós para ter acesso aos estudos”, anotou. Mas sair não significou partir por inteiro. “Talvez porque alguns lugares deixem de ser apenas lugares e passem a morar dentro de nós”. Construiu sua trajetória profissional passo a passo, exercendo diferentes atividades profissionais. Cada experiência, à sua maneira, fez parte do homem que estava se formando e da história que estava construindo.
Depois de concluir o curso de Contabilidade, foi aprovado em concurso para o Banco de Brasília (BRB), onde desenvolveu sua carreira profissional até a aposentadoria. Mas, enquanto construía sua vida profissional, também construía, silenciosamente, outro projeto: o de um dia voltar para casa. “Amava a natureza. E não queria apenas retornar à fazenda; queria realizar o sonho de construir ali o seu lugar no mundo”.
Escolheu, cuidadosamente, um ponto elevado do morro, onde pudesse erguer sua casa e fazer das varandas um mirante particular para contemplar aquilo que tanto amava. Dali, acima da copa das árvores, podia avistar parte do Rio do Peixe seguindo seu curso por entre a mata. “Podia ouvir o som das águas e o canto dos pássaros, contemplar o amanhecer e o entardecer naquele cenário que, muito antes de existir como casa, já existia como sonho”, escreveu Maurivânia.
E realizou esse sonho. Assim que se aposentou, voltou para a fazenda e para o lugar que havia imaginado durante tantos anos. Mais do que uma casa, construiu um espaço que representava uma conquista de vida. “Gostava de falar sobre a beleza daquele lugar, sobre o rio, as árvores, os pássaros. Havia orgulho, mas havia também gratidão. Afinal, ele havia chegado exatamente onde um dia imaginara estar”, relatou.
Antônio Geraldo também tinha um jeito muito particular de se relacionar com as coisas que amava. Era um colecionador de histórias. Como numismata, reuniu cédulas e moedas antigas. Colecionou edições especiais, chaveiros e diferentes objetos que, para muitos, poderiam parecer apenas coisas, mas que para ele carregavam significado. Tinha uma coleção de 47 canetas-tinteiro, réplicas de canetas utilizadas por grandes personalidades do mundo, além das canetas que fizeram parte de sua própria trajetória profissional.
Sua coleção mais preciosa não estava nas gavetas ou nas estantes. “Ele colecionava memórias. Valorizava a história contida nas coisas, nas pessoas e nas próprias raízes. Por isso, nos últimos tempos, dedicava-se com entusiasmo à pesquisa da árvore genealógica da família”. “Cada descoberta o empolgava. Compartilhava as informações encontradas e, muitas vezes, voltava ao assunto, como quem sabe que conhecer de onde viemos também é uma forma de compreender quem somos”.
Em sua casa, realizou ainda outro grande sonho: construiu uma biblioteca para abrigar aquilo que era sua coleção mais preciosa: centenas de livros, revistas e CDs. “A biblioteca era quase um santuário. Ali estavam reunidos conhecimentos, histórias, personagens, ideias e mundos inteiros. Os temas eram os mais diversos, revelando um homem curioso, interessado e disposto a guardar não apenas objetos, mas possibilidades de aprender e de conhecer”.
Antônio partiu em 1º de junho deste ano, aos 63 anos, em decorrência de complicações causadas pelo diabetes. Divorciado, deixou os filhos Vinícius e Guilherme e o neto Theo, além de familiares e amigos que agora convivem com a ausência e com a saudade. “A vida tem seus próprios mistérios e nem sempre nos permite compreender por que alguns sonhos podem ser vividos por tantos anos e, quando finalmente realizados, sejam desfrutados por um tempo tão breve”.
Antonio, porém, teve algo precioso: ele sabia que havia realizado seu sonho. Estava na casa que desejou construir, no lugar exato que imaginou, diante da paisagem que tantas vezes contemplou primeiro com os olhos da imaginação. Antes mesmo da construção, chegou a preparar aquele topo de morro, pagando para que fosse cortado e aterrado, porque já sabia onde queria estar. “E esteve. Essa com certeza é uma das mais bonitas heranças de sua história: a lembrança de um homem que trabalhou durante toda a vida, organizou seus passos e suas finanças e não perdeu de vista aquilo que realmente desejava”.
“Antônio nos deixa a reflexão de que uma vida não é medida apenas pelo tempo que dura, mas também pelos sonhos que consegue realizar, pelas histórias que preserva e pelas raízes que escolhe honrar”, anotou Maurivânia. “O menino que um dia saiu da fazenda para estudar voltou para casa. Voltou trazendo consigo os conhecimentos que adquiriu, os livros que amou, as histórias que colecionou e uma vida inteira dedicada a construir o lugar onde desejava estar”.
Agora, sua casa é testemunha de um sonho realizado. O rio continua seguindo seu curso. As árvores continuam balançando com o vento. Os pássaros continuam cantando. “A vida segue. Mas aqueles que amamos continuam presentes nas histórias que contamos, nos lugares que construíram, nas coisas que amaram e nas memórias que deixaram em nós”, sublinhou.
Como forma de reconhecer e preservar uma das grandes paixões de Antônio Geraldo de Oliveira, sua família decidiu doar seu acervo de livros à Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (APLAM). “Assim, parte daquilo que ele colecionou continuará encontrando novos olhos, novas mãos e novas histórias. E os livros que um dia ele reuniu para si poderão, agora, continuar a cumprir uma missão que Antônio conhecia bem: guardar a memória e fazer a história permanecer”.
Antônio partiu cedo demais para quem ainda tinha tanto a viver. “Mas partiu tendo realizado o sonho que carregou desde menino. E talvez isso seja, também, uma forma de eternidade: deixar para trás um lugar onde o sonho permanece, uma biblioteca onde a memória continua viva e pessoas que, ao lembrarem seu nome, sabem que ele esteve exatamente onde desejou estar”.
