Carolina Pessoni
Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria.
Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como um eixo simbólico entre a Estação Ferroviária e a Praça Cívica, conectando a porta de entrada da nova cidade ao centro político do Estado. O traçado viário concebido por Attilio permanece, inclusive, entre os elementos protegidos pelo tombamento federal do conjunto arquitetônico e urbanístico de Goiânia.
Para o engenheiro e estudioso da história de Goiânia Wolney Unes, a compreensão da avenida começa pela própria lógica da cidade planejada. As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins foram dispostas radialmente em direção à Praça Cívica, onde se concentraria o centro administrativo da nova capital. A escolha não era apenas urbanística. “Goiânia foi organizada para ser capital do Estado, então o centro do poder ficava na Praça Cívica, numa região mais alta da cidade”, explica.

(Foto: Alois Feichtenberger | Goiânia – GO | Acervo MIS/GO)
A disposição carregava uma simbologia cuidadosamente pensada. Quem atravessasse a Avenida Anhanguera, concebida como a grande via transversal do projeto, encontraria sucessivamente os eixos radiais e, a partir deles, perspectivas em direção ao centro do poder. Wolney relaciona essa concepção a uma tradição urbanística presente em cidades europeias, citando como referência o eixo monumental de Versalhes, na França. Em Goiânia, a composição ganhou uma identidade própria: três grandes avenidas convergindo para o núcleo administrativo da capital.
A própria nomenclatura das vias reforçava essa ideia. Segundo Wolney, Attilio Corrêa Lima chegou a sugerir que a avenida fosse chamada de Pedro Ludovico, em homenagem ao então governador e responsável pela transferência da capital. Ludovico teria recusado a homenagem, e o nome Goiás prevaleceu. “A escolha acabou criando uma espécie de mapa simbólico sobre o território: a Avenida Goiás ao centro, ladeada pelas avenidas Araguaia e Tocantins, nomes que remetem à geografia do Estado”, reforça Wolney.
Havia ainda uma segunda perspectiva planejada para a Avenida Goiás: a de quem chegasse a Goiânia. O eixo ligava o centro administrativo à região da estação ferroviária, permitindo que o viajante que desembarcasse na nova capital tivesse, no sentido da avenida, uma perspectiva em direção à área onde estavam concentrados os edifícios do poder. O trecho original tinha cerca de 1,7 quilômetro entre a Praça Cívica e a Estação Ferroviária. Hoje, a paisagem urbana tornou essa leitura mais difícil, mas a estrutura fundamental do percurso permanece.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
No projeto de Attilio havia também espaço para uma cidade que pudesse ser vivida a pé. A Avenida Goiás foi concebida com um grande canteiro central arborizado, pensado como passeio público. E, segundo Wolney, o memorial descritivo do arquiteto previa que aquele espaço fosse palco do chamado footing no fim do dia. A expressão designava o passeio de jovens pelas áreas centrais, em uma prática social que misturava convivência, observação e paquera. “Era uma espécie de Tinder atual”, brinca Wolney. “Era ver e ser visto.”
A memória desse costume aparece também em registros sobre a Goiânia das décadas de 1940 e 1950. Pesquisas acadêmicas apontam que o footing se consolidou na Avenida Goiás, especialmente no trecho próximo ao Grande Hotel, transformando a via em um dos espaços de sociabilidade da jovem capital. A avenida que havia sido desenhada para conduzir o olhar ao poder acabava, assim, apropriada pela população como lugar de encontros, passeios e histórias pessoais.
Essa vocação conviveu com uma função institucional marcante. Ao longo das primeiras décadas de Goiânia, a Avenida Goiás reuniu equipamentos, empresas e instituições importantes para a vida da capital. O Grande Hotel, inaugurado em 1937 e considerado o primeiro hotel de Goiânia, tornou-se uma referência daquele trecho da avenida. A Torre do Relógio, inaugurada em 1942, passou a marcar o início do eixo com sua arquitetura art déco. O conjunto da avenida também se relacionava a jornais, cinemas, associações e outros espaços que ajudaram a formar o cotidiano da cidade.
(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Esse patrimônio ainda pode ser lido na paisagem. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconhece como parte do Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia não apenas edifícios isolados, mas também a estrutura viária remanescente do plano de Attilio Corrêa Lima. Entre os bens tombados estão a Torre do Relógio, o Grande Hotel e a Estação Ferroviária, além de outros edifícios e monumentos do núcleo pioneiro. O conjunto foi inscrito no patrimônio federal em 2005.
A Avenida Goiás, entretanto, não permaneceu congelada no tempo. A cidade cresceu, o automóvel ganhou espaço e a relação dos moradores com o Centro mudou. Para Wolney, a partir da segunda metade do século XX, a crescente necessidade de estacionamento contribuiu para afastar instituições de áreas centrais, em um processo que ele relaciona à adoção de um modelo urbano cada vez mais dependente do carro. “A gente viu, há não muito tempo, que a Prefeitura de Goiânia se mudou para um lugar fora da cidade, onde ela pôde ser construída no meio de um grande estacionamento. A mesma coisa com a Assembleia Legislativa, o Fórum de Goiânia e diversas outras instituições”, observa.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Para Wolney, a saída progressiva de instituições do Centro e a prioridade dada ao automóvel produziram um modelo que ele considera insustentável. “É um conceito que tira as instituições do centro da cidade e privilegia o carro. E Avenida Goiás, com tudo isso, ficou abandonada.”
Ainda assim, a avenida permanece como uma espécie de documento a céu aberto. O traçado revela a ideia de cidade de seus primeiros planejadores; conta a história do poder, da arquitetura, da chegada dos primeiros viajantes, dos encontros no fim da tarde, das instituições que ocuparam o Centro, da transformação provocada pelos automóveis e das sucessivas tentativas de reinventar a região central. Caminhar por ela é atravessar, em poucos minutos, diferentes versões de Goiânia, todas ainda inscritas na mesma linha que Attilio Corrêa Lima desenhou há quase um século.
