Logo
(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Avenida atravessa décadas de transformações sem perder seu lugar na memória da cidade

WhatsAppFacebookLinkedInX
25.09.2026 - 16:13:26

Carolina Pessoni

Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria.

Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como um eixo simbólico entre a Estação Ferroviária e a Praça Cívica, conectando a porta de entrada da nova cidade ao centro político do Estado. O traçado viário concebido por Attilio permanece, inclusive, entre os elementos protegidos pelo tombamento federal do conjunto arquitetônico e urbanístico de Goiânia.

Para o engenheiro e estudioso da história de Goiânia Wolney Unes, a compreensão da avenida começa pela própria lógica da cidade planejada. As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins foram dispostas radialmente em direção à Praça Cívica, onde se concentraria o centro administrativo da nova capital. A escolha não era apenas urbanística. “Goiânia foi organizada para ser capital do Estado, então o centro do poder ficava na Praça Cívica, numa região mais alta da cidade”, explica.

 

(Foto: Alois Feichtenberger | Goiânia – GO | Acervo MIS/GO)

 

A disposição carregava uma simbologia cuidadosamente pensada. Quem atravessasse a Avenida Anhanguera, concebida como a grande via transversal do projeto, encontraria sucessivamente os eixos radiais e, a partir deles, perspectivas em direção ao centro do poder. Wolney relaciona essa concepção a uma tradição urbanística presente em cidades europeias, citando como referência o eixo monumental de Versalhes, na França. Em Goiânia, a composição ganhou uma identidade própria: três grandes avenidas convergindo para o núcleo administrativo da capital.

A própria nomenclatura das vias reforçava essa ideia. Segundo Wolney, Attilio Corrêa Lima chegou a sugerir que a avenida fosse chamada de Pedro Ludovico, em homenagem ao então governador e responsável pela transferência da capital. Ludovico teria recusado a homenagem, e o nome Goiás prevaleceu. “A escolha acabou criando uma espécie de mapa simbólico sobre o território: a Avenida Goiás ao centro, ladeada pelas avenidas Araguaia e Tocantins, nomes que remetem à geografia do Estado”, reforça Wolney.

Havia ainda uma segunda perspectiva planejada para a Avenida Goiás: a de quem chegasse a Goiânia. O eixo ligava o centro administrativo à região da estação ferroviária, permitindo que o viajante que desembarcasse na nova capital tivesse, no sentido da avenida, uma perspectiva em direção à área onde estavam concentrados os edifícios do poder. O trecho original tinha cerca de 1,7 quilômetro entre a Praça Cívica e a Estação Ferroviária. Hoje, a paisagem urbana tornou essa leitura mais difícil, mas a estrutura fundamental do percurso permanece.

 

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

No projeto de Attilio havia também espaço para uma cidade que pudesse ser vivida a pé. A Avenida Goiás foi concebida com um grande canteiro central arborizado, pensado como passeio público. E, segundo Wolney, o memorial descritivo do arquiteto previa que aquele espaço fosse palco do chamado footing no fim do dia. A expressão designava o passeio de jovens pelas áreas centrais, em uma prática social que misturava convivência, observação e paquera. “Era uma espécie de Tinder atual”, brinca Wolney. “Era ver e ser visto.”

A memória desse costume aparece também em registros sobre a Goiânia das décadas de 1940 e 1950. Pesquisas acadêmicas apontam que o footing se consolidou na Avenida Goiás, especialmente no trecho próximo ao Grande Hotel, transformando a via em um dos espaços de sociabilidade da jovem capital. A avenida que havia sido desenhada para conduzir o olhar ao poder acabava, assim, apropriada pela população como lugar de encontros, passeios e histórias pessoais.

Essa vocação conviveu com uma função institucional marcante. Ao longo das primeiras décadas de Goiânia, a Avenida Goiás reuniu equipamentos, empresas e instituições importantes para a vida da capital. O Grande Hotel, inaugurado em 1937 e considerado o primeiro hotel de Goiânia, tornou-se uma referência daquele trecho da avenida. A Torre do Relógio, inaugurada em 1942, passou a marcar o início do eixo com sua arquitetura art déco. O conjunto da avenida também se relacionava a jornais, cinemas, associações e outros espaços que ajudaram a formar o cotidiano da cidade.

 

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

Esse patrimônio ainda pode ser lido na paisagem. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconhece como parte do Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia não apenas edifícios isolados, mas também a estrutura viária remanescente do plano de Attilio Corrêa Lima. Entre os bens tombados estão a Torre do Relógio, o Grande Hotel e a Estação Ferroviária, além de outros edifícios e monumentos do núcleo pioneiro. O conjunto foi inscrito no patrimônio federal em 2005.

A Avenida Goiás, entretanto, não permaneceu congelada no tempo. A cidade cresceu, o automóvel ganhou espaço e a relação dos moradores com o Centro mudou. Para Wolney, a partir da segunda metade do século XX, a crescente necessidade de estacionamento contribuiu para afastar instituições de áreas centrais, em um processo que ele relaciona à adoção de um modelo urbano cada vez mais dependente do carro. “A gente viu, há não muito tempo, que a Prefeitura de Goiânia se mudou para um lugar fora da cidade, onde ela pôde ser construída no meio de um grande estacionamento. A mesma coisa com a Assembleia Legislativa, o Fórum de Goiânia e diversas outras instituições”, observa.

 

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

Para Wolney, a saída progressiva de instituições do Centro e a prioridade dada ao automóvel produziram um modelo que ele considera insustentável. “É um conceito que tira as instituições do centro da cidade e privilegia o carro. E Avenida Goiás, com tudo isso, ficou abandonada.”

Ainda assim, a avenida permanece como uma espécie de documento a céu aberto. O traçado revela a ideia de cidade de seus primeiros planejadores; conta a história do poder, da arquitetura, da chegada dos primeiros viajantes, dos encontros no fim da tarde, das instituições que ocuparam o Centro, da transformação provocada pelos automóveis e das sucessivas tentativas de reinventar a região central. Caminhar por ela é atravessar, em poucos minutos, diferentes versões de Goiânia, todas ainda inscritas na mesma linha que Attilio Corrêa Lima desenhou há quase um século.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]

Noite e Dia
18.09.2026
Veja como foi a roda de conversa promovida pelo jornal A Redação sobre políticas para o setor artístico

Carolina Pessoni Goiânia – Representantes de diferentes áreas da cultura goiana se reuniram nesta quinta-feira (17) para discutir desafios, propostas e políticas públicas para o setor artístico em Goiás. O encontro “Arte Pensante – Roda de Conversa sobre Políticas para o Setor Artístico”, promovido pelo jornal A Redação, ocorreu na Galeria Aberta – Elysium Sociedade […]

Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]

Meia Palavra
16.09.2026
‘The Ghost in the Shell’ finalmente dá tratamento fiel a clássico cyberpunk

Terminou na semana passada a adaptação em 10 episódios de The Ghost in the Shell, baseada no mangá de mesmo nome, publicado por Masamune Shirow nos anos 1980. A obra foi extremamente influente e ganhou uma adaptação na qual o diretor Mamoru Oshii tomou amplas liberdades, em forma de filme animado, em 1995, que, por […]

Laboratório Público — Ciência, política e meio ambiente
15.09.2026
Sem apocalipse ou redenção

A Inteligência Artificial ganhou novamente as manchetes essa semana com dois fatos em sequência: a demissão de Jacob Coxon da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e o texto de Dario Amodei, fundador da mesma empresa, alertando para a necessidade de diminuir o ritmo de avanço da IA. Coxon já trabalhara na OpenAI, a fundação responsável […]