José Abrão
Goiânia – Com mais de 20 anos de palco como atriz, palhaça e diretora, a goiana Fernanda Pimenta, que também dá vida à palhaça Malagueta nos palcos, está cheia de projetos. Nesta terça (15/9), ela se apresentou no Teatro-Escola Basileu França, no Setor Universitário, em Goiânia, com Malagueta na Labuta, e, no dia 5, apresentou, no festival Caixote da Arte, a peça “A Orelha de Vicente”. Para o resto do ano, estão nos planos a circulação pelo interior goiano com Malagueta na Labuta, além da construção de uma nova peça, Gervásio, ao lado da bonequeira Izabela Nascente, com o boneco Gervásio, que sofre de alcoolismo. Tudo isso logo após retornar para Goiânia depois de estrelar a novela Coração Acelerado com duas personagens: Irene e Amélie.
“Para falar da Malagueta, eu preciso falar da palhaçaria na minha vida. Eu já fazia teatro já tinha um tempo, o teatro é a minha primeira arte, já fazia quase uma década quando eu conheci a palhaçaria. Já tinha feito uma oficina ali, uma oficina aqui, quando eu me envolvi mais com a palhaçaria”, conta. “Em paralelo, eu tinha necessidade de criar cenas individuais para viajar para festivais e cenas que falassem do meu cotidiano. Eu não pensei assim, vou fazer algo com teor de gênero. Eu pensei: vou fazer uma cena igual a gente fica limpando as coisas em casa. Então eu fui criando pequenas cenas com esse teor do cotidiano da mulher, em específico, o cotidiano de limpeza, dos cuidados com o lar”, completa.
A peça estreou primeiro no canal do Basileu França, em 2021, durante a pandemia. Depois, em 2022, surgiu a oportunidade de uma residência artística com a palhaça catalã Pepa Plana, que levou a uma repaginada do espetáculo, que já circulou por vários cantos do país e segue sendo encenado na capital e no interior. “Hoje eu considero o Malagueta um espetáculo maduro, divertido. Onde vai, a gente está sempre se divertindo, o público também responde bem. Mas eu acho interessante contar isso porque tudo faz parte de um longo processo de amadurecimento de criação e de amadurecimento da obra. Quando eu estreei presencialmente em 2021, foi um fracasso total. Ninguém riu, eu fiquei duvidando se eu era palhaça”, relembra.

E a Malagueta traz com ela algo especial: a palhaça é uma diarista, e Fernanda salienta que o mundo como conhecemos não existiria “sem os cuidados das mulheres”. Isso se refletiu na sua pesquisa de doutorado, defendida em 2024 na Universidade de Brasília (UnB). “Eu pesquiso justamente as palhaças feministas, as palhaças que vêm desenvolvendo pesquisas com foco em gênero, que trazem essas dramaturgias de mulheres que falam sobre seus cotidianos, e é muito importante trazer isso para a cena. Tenho essa característica de trazer dramaturgias com uma perspectiva de gênero, mas também pretendo desenvolver com o Malagueta outros temas que sejam importantes também. Acima de tudo, a figura do palhaço, da palhaçaria, é uma figura que mostra que a gente pode existir sem estar exatamente dentro dos padrões sociais exigidos pela sociedade hoje em dia”, completa.
Ela salienta que o palhaço tem um papel a desempenhar na sociedade. “Essa figura está presente em todas as sociedades, todas as culturas, que vem por meio do riso, da graça, alertar sobre um tema social. Essa figura, pra mim, particularmente é alguém que salva vidas, é algo sagrado”, avalia. “Então, eu fico muito chateada, na verdade, quando o povo xinga os outros dizendo ‘seu palhaço!’, ‘que palhaçada é essa?’. Não, espera lá. Você está querendo dizer palhaçada no mau sentido. Porque a palhaçaria, em geral, ela é do bem. Ela traz um bom sentido para as nossas vidas”, brinca, falando sério.
Coração Acelerado
Sobre o seu papel em Coração Acelerado, sua primeira novela, Fernanda ainda diz estar impactada. “É uma doideira mesmo. Pensar agora que acabou, que eu voltei, ‘nossa, aconteceu mesmo'”, brinca. “Foi todo um caminho até ter o nome confirmado, e aí muita expectativa de como seria, muito animada para chegar, e quando cheguei e vi aquela estrutura gigantesca, de uma grande empresa, uma grande corporação que ocupa um espaço físico muito grande, a estrutura muito bem feita, você vê que ali estão os melhores profissionais do Brasil, todo mundo muito feliz de estar ali. Isso me impactou muito, tanto o tamanho da estrutura, quanto a felicidade das pessoas trabalhando ali, e é contagiante isso”, conta.
A rotina era puxada: às vezes gravando uma cena, outros dias, muito mais. Fernanda chegou a gravar 23 cenas em um dia. “A estrutura da novela é diferente tanto do teatro quanto do cinema, muito específico também, aos poucos você vai observando os colegas, vai pegando os macetes, você vai se assistindo, então vai vendo aos poucos o que pode melhorar”, comenta.
Irene começou trabalhando no núcleo da família Amaral, colocando Fernanda ao lado de grandes nomes como Marcos Caruso, Leandro Leal, Daniel de Oliveira e Isabelle Drummond. “Eu era a atriz desconhecida ali no meio dessas figuras super experientes, então eu tive um imenso prazer de observar diariamente como eles atuavam. São muitos detalhes, o posicionamento, o tempo, e isso me instiga muito, esse novo conhecimento, essa nova linguagem, como dominar essa nova linguagem, como ir a fundo nela, isso foi muito instigante”, afirma.
Fernanda também comenta sobre como foi legal ouvir comentários de telespectadores na rua. “É muito genuíno. Realmente você está dentro da casa das pessoas, e as pessoas se identificam. [Dizem:] aquela patroa é muito ruim mesmo, que bom que você saiu de lá. Você vai ajudar aquele homem a largar o vício, que bom. Então é muito bonito”.
“O clima é ótimo, é divertido, e é uma linguagem admirável, popular, que tem muito alcance e é muito brasileira, muito nossa”, diz. A atriz também afirma estar aberta a fazer outras novelas: “Foi uma experiência incrível na minha vida, espero que rolem outras oportunidades. Tudo a seu tempo. Agora estamos aqui focadas no teatro, nas circulações”.
Na direção
Recentemente, Fernanda também assumiu outro desafio: a direção da peça Cobre do Meu Pai, do dramaturgo, ator e diretor Hélio Fróes. “Como ator, a gente está atuando, a gente está ali para jogo com o nosso corpo. E quando você está dirigindo, você tem que criar uma conexão com o outro para você saber como é que funciona a corporeidade dessa outra pessoa. Para você tentar criar estratégias para obter o que você necessita dessa pessoa. Para essa pessoa se sentir à vontade para entrar em um estado investigativo, exploratório, um estado de criação. Então, a gente tem que criar essa conexão”, avalia a atriz.
“Com o Hélio, eu acho que eu tenho um certo rigor e ele também tem esse rigor, essa paixão, fala em teatro e o olho dele brilha. Então foi muito prazeroso. Fomos em caminhos às vezes difíceis. A história que o Hélio traz é sobre as masculinidades passam de geração em geração. Ao mesmo tempo, o trabalho de direção é esse trabalho de muita atenção, de muita escuta e é cansativo, é exaustivo. Mas é muito prazeroso quando você vê que a pessoa chegou lá e a gente conseguiu estabelecer essa conexão”, garante.
O espetáculo deu certo e está em circulação agora, já tendo passado por 18 cidades. “É um espetáculo urgente. A gente precisa falar dessas heranças masculinas, tóxicas que a gente está passando para frente. É um espetáculo urgente para todas as idades”, finaliza Fernanda.
